Você está aqui

África do Sul: apoio à saúde mental durante a pandemia

10/07/2020
Cuidado psicossocial é fundamental para pacientes e profissionais da saúde
 África do Sul: apoio à saúde mental durante a pandemia

Foto: MSF

Desde o início da pandemia de COVID-19, os profissionais de saúde mental de MSF na África do Sul tiveram que adaptar rapidamente a forma como atendem e tratam os pacientes. A tecnologia precisou preencher lacunas, já que o contato pessoal não é mais possível e as sessões presenciais de acompanhamento foram substituídas por telefonemas. A maior mudança, no entanto, foi o aumento do número de pessoas que necessitam de auxílio psicossocial.

"Temos que ser muito mais flexíveis e atuar em áreas e de maneiras que nunca imaginamos", avalia Cassandra Govender, psicóloga e supervisora de saúde mental do projeto de migrantes de MSF em Tshwane. “Inicialmente, as pessoas não podiam acessar nossos serviços com tanta facilidade e a continuidade do atendimento se tornou difícil, mas tínhamos que continuar. Elas precisam de ajuda para processar o impacto que a COVID-19 teve em suas vidas e a grande quantidade de informações que recebem constantemente”, continua Cassandra. “Estamos atuando com aconselhamento e medicação, ajudando as pessoas com as dificuldades que estão enfrentando neste momento”.

Para Yolanda Hanning, psicóloga e gerente de atividades de saúde mental no projeto de violência sexual de MSF em Rustenburg, embora o país tenha se adaptado ao 'novo normal' causado pela COVID-19 - movimento restrito, trabalho em casa, uso de máscaras – a situação significa outra realidade para as vítimas de violência de gênero. “À medida que o mundo se fechava para permanecer seguro, permanecer dentro de casa, para elas significava estar trancadas com seus agressores e com poucas oportunidades de procurar ajuda ou cuidados.”

Durante o confinamento, a equipe de MSF em Rustenburg observou uma diminuição significativa no número de vítimas de violência sexual e de gênero (em inglês, SGBV) que procuraram atendimento nos Centros de Assistência Kgomotso (clínicas dedicadas à SGBV) no distrito de Bojanala. “A pandemia colocou grandes limitações à liberdade de movimento de todos e invariavelmente aumentou o perigo para as vítimas de violência de gênero. Isso pode gerar impactos cada vez mais graves sobre a saúde mental, bem como ao bem-estar físico e à segurança das vítimas e de suas famílias”, analisa Yolanda.

Enquanto continuam a prestar assistência médica e psicossocial integradas nas clínicas dedicadas à SGBV, nossas equipes incluíram saúde mental remota e atividades psicossociais para apoiar pacientes, profissionais de saúde e populações-chave afetadas pela pandemia de COVID-19. A tecnologia, quando acessível, tem sido uma ferramenta importante. Para garantir a continuidade do tratamento durante toda a pandemia, os pacientes que necessitam de apoio contínuo à saúde mental têm recebido sessões de aconselhamento via telefone.

Alcançando novos pacientes

Infelizmente, nem todos que lutam contra problemas de saúde mental procuram ou recebem o apoio de que precisam - algo que é muito comum entre as pessoas em situação de rua, por exemplo. Um resultado positivo do bloqueio na África do Sul, no entanto, foi o aumento no número de diagnósticos em abrigos.

“Vimos um paciente que estava tendo alucinações auditivas por um longo período. Por morar nas ruas e por falta de acesso aos serviços necessários, nunca havia entendido sua doença ou procurado atenção psiquiátrica. Essas alucinações auditivas eram assustadoras e angustiantes. Depois que o paciente foi encaminhado e atendido por um psiquiatra, ele melhorou claramente”, conta Tasneem Bulbulia, psicólogo de MSF que está trabalhando em abrigos em Joanesburgo durante todo o período de confinamento.

“Outro exemplo é um paciente gravemente deprimido que pensa em suicídio há meses. O bloqueio e os sentimentos que o acompanharam aumentaram a gravidade de sua depressão. Ter tido apoio, psicoeducação e alguns mecanismos básicos de enfrentamento melhorou seu humor. Esperamos que, com o apoio contínuo, ele melhore ainda mais”.

Apoio à saúde mental para profissionais de saúde

Obviamente, não são apenas os pacientes que precisam de apoio psicossocial em um momento como o que estamos vivendo. Os profissionais de saúde também estão sob enorme estresse, pois colocam suas vidas diariamente em risco. Integrante da equipe de MSF em Khayelitsha, Leigh-Anne Snyman é uma enfermeira especializada em apoio ao paciente. Trabalhando também nas unidades de saúde da Cidade do Cabo, ela viu seu papel mudar quando ficou claro que a equipe precisava de apoio à saúde mental. “Sou apaixonada por treinamento e por isso assumi o papel de garantir que todos os funcionários fossem capacitados para a COVID-19 e recebessem apoio à saúde mental. À medida que a doença se aproximava de casa, o medo aumentou e nossos colegas se sentiram inseguros e angustiados”.

“Nosso gerente de projeto encontrou um artigo interessante. Um estudo que perguntou aos profissionais de saúde o que eles precisavam durante a COVID-19. A resposta foi simples: sentir-se preparado, protegido e apoiado. Por isso, seguimos um processo transparente. Meu papel é garantir que tudo relacionado à segurança, preparação e apoio da equipe seja exibido. Foram implementados fóruns para permitir que a equipe expressasse suas preocupações e havia um psicólogo a quem poderia pedir aconselhamento e apoio confidenciais, se necessário. Eu me certifiquei de que as pessoas soubessem disso. Eu falava diariamente com as pessoas, apenas sendo uma presença amigável, lembrando a todos que isso passaria”.

Persiste o estigma sobre saúde mental

Embora os impactos social, econômico e psicológico da pandemia de COVID-19 tenha ampliado a necessidade de apoio à saúde mental em todas as comunidades, nossos profissionais não estão convencidos de que a doença psicológica seja realmente entendida ou aceita.

“Não é como uma perna quebrada que você pode ver e tratar adequadamente. É difícil identificar uma mente ou alma precisando de ajuda. E a vergonha que acompanha dificulta a aceitação”, diz Leigh-Anne.

"O entendimento e a aceitação de doenças mentais continuam a variar entre diferentes populações", acrescenta Tasneem. "Fatores como gênero, cultura, idade e aceitação geral da comunidade, entre outros aspectos, continuam afetando a maneira como as pessoas compreendem a situação."

Cassandra acredita que ainda há muito trabalho a ser feito. “Nas comunidades migrantes, ainda acredito que há muito estigma em relação à saúde mental. As pessoas só entendem o termo pelas lentes da doença. Portanto, associam saúde mental a uma imagem extrema. O estigma é ampliado por barreiras aos cuidados de saúde, o que significa que as pessoas sofrem recaídas com mais frequência”.

Comprometimento em fazer a diferença

Para nossa equipe de profissionais de saúde mental, a COVID-19 pode ter afetado a maneira como eles trabalham, mas não o trabalho em si. A pandemia apenas reforçou seu profundo compromisso de servir indivíduos e comunidades vulneráveis. "A possibilidade de que, de alguma maneira, faça a vida de um indivíduo parecer mais fácil me faz continuar", diz Tasneem. Cassandra ecoa isso, dizendo: “Penso em todas as pessoas que encontrei no mundo que não têm acesso aos cuidados, que não têm ninguém para lutar por elas e que não têm ideia de como sair de suas circunstâncias. Eu apareço todos os dias para elas".

Então, o que a crise ensinou aos nossos colegas?

"Em dias difíceis, é útil lembrar a mim mesmo que não há problema em não ficar bem", diz Yolanda. "Desenvolver uma aceitação da incerteza da vida é crucial. E aprender a conviver com essa incerteza faz parte da vida”.
“Espero que o mundo tenha aprendido a importância de trabalhar em conjunto para alcançar o bem-estar e a segurança na sociedade e que, sem apoiar e cuidar de nossos mais vulneráveis, não podemos estar todos verdadeiramente seguros”, diz Cassandra.

Na África do Sul, MSF tem prestado apoio à saúde mental nos seguintes projetos:

●    No Projeto de migrantes de Tshwane, que oferece serviços de saúde e saúde mental para migrantes e solicitantes de asilo desde 2019 em Gauteng;
●    No Projeto de Violência Sexual e de Gênero em Rustenburg (estabelecido em 2016), que fornece apoio a pessoas que foram expostas à violência sexual e de gênero, em centros comunitários de saúde chamados Kgomotso Care Centers (KCCs) na província noroeste;
●    No projeto de HIV e TB em Khayelitsha, onde MSF presta tratamento comunitário há 20 anos no Cabo Ocidental;
●    Durante a pandemia de COVID-19, os profissionais de saúde prestaram assistência e apoio em vários abrigos para pessoas sem-teto em Joanesburgo e Tshwane;
●    MSF também administra um projeto de longa data sobre HIV e TB em Eshowe, na província de KwaZulu-Natal.

Faça uma doação e apoie #MSFcontraCOVID19

Leia mais sobre

MSF usa cookies neste site para melhorar sua experiência.
Saiba mais na

Política de Privacidade. Aceitar