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Afeganistão: população ainda luta para ter acesso a cuidados médicos básicos e de emergência

12/07/2021
Insegurança e falta de recursos dos habitantes e das unidades de saúde desafiam quem precisa de atendimento médico no país; aumento de casos da COVID-19 também é preocupante.
Afeganistão: população ainda luta para ter acesso a cuidados médicos básicos e de emergência

Foto: Andrew Quilty

Insegurança e falta de recursos dos habitantes e das unidades de saúde desafiam quem precisa de atendimento médico no país; aumento de casos da COVID-19 também é preocupante.

Apesar de décadas de ajuda e investimento internacional, afegãos ainda lutam para ter acesso a cuidados médicos básicos e de emergência devido à insegurança, distância, custo e ao fato de que muitas unidades de saúde não têm as equipes e os aparelhos que precisam. Os efeitos dos conflitos ativos e da violência indiscriminada permeiam todos os aspectos da vida diária, e isso inclui a busca por atendimento médico.

Viajar para instalações de saúde pode ser perigoso devido a combates em curso, a presença de artefatos explosivos e a ameaça de roubo nas estradas. Esses obstáculos levam as pessoas a atrasar ou passar por rotas desviadas, o que significa que as condições de saúde podem ser piores no momento em que chegam para o tratamento.

MSF no Afeganistão: grandes desafios para levar cuidados de saúde

Médicos Sem Fronteiras (MSF) começou a trabalhar no Afeganistão em 1980. A organização deixou o país em 2004, quando cinco funcionários foram mortos na província de Badghis, mas retornou em outubro de 2009 devido a sérias preocupações sobre a deterioração do acesso a cuidados de saúde de qualidade para os afegãos por causa do conflito. Desde o retorno, a prioridade foi o aumento do acesso a serviços médicos de alta qualidade, com um forte foco na saúde secundária.

No entanto, não foi sem desafios. Em 2015, ataques aéreos dos EUA no Kunduz Trauma Center mataram 42 funcionários, pacientes e cuidadores. No ano passado, em maio de 2020, homens armados atacaram a maternidade Dasht-e-Barchi administrada por MSF e mataram 24 pessoas, incluindo uma parteira de MSF.

Hoje, MSF administra cinco projetos em cinco províncias do país: Helmand, Herat, Kandahar, Khost e Kunduz. Em 2020, as equipes forneceram 112 mil consultas de emergência, assistiram 37 mil partos e realizaram 5.600 intervenções cirúrgicas. A resposta à COVID-19 também faz parte das ações que se concentram no país atualmente. Confira os desafios enfrentados pelas equipes e as atividades prestadas no Afeganistão para tentar suprir a falta de serviços médicos e dificuldades de acesso a cuidados de saúde na região.

COVID-19

Sempre que possível, MSF integrou as atividades contra a COVID-19 em seus projetos, por exemplo, criando uma unidade separada para mulheres grávidas e recém-nascidos com COVID-19 em Khost ou tratando pacientes infectados pela doença com comorbidades em nossos projetos em Helmand e Kandahar.

Em Herat, MSF tem ajudado na resposta à pandemia com a triagem de casos de COVID-19 no Hospital Regional de Herat desde abril de 2020, além de ter estabelecido um centro de tratamento de COVID-19 em Gazer Gah. Este centro ajuda a aumentar a capacidade de leitos da região para pacientes que precisam de oxigênio e já funcionou três vezes, tendo sido aberto em resposta a diferentes ondas da pandemia. O centro forneceu tratamento para pacientes com sintomas graves de COVID-19 de junho a setembro de 2020, de dezembro de 2020 a fevereiro de 2021 e, mais recentemente, a partir de 9 de junho de 2021.

Enquanto a terceira onda de COVID-19 toma conta do Afeganistão, MSF continua procurando maneiras de apoiar a resposta do Ministério da Saúde à pandemia.

KHOST

Em 2012, MSF abriu uma maternidade em Khost para fornecer cuidados maternos e neonatais seguros, de alta qualidade e gratuitos para mulheres e seus bebês no sudeste do país. Desde 2016, a organização também apoiou cinco centros de saúde na província, número que foi expandido para oito em 2021. Aumentar a capacidade desses centros permitirá que eles fiquem abertos 24 horas por dia, 7 dias por semana. Também significa que eles podem dar assistência em partos não complicados, permitindo que mais pacientes deem à luz mais perto de casa.

Os serviços hospitalares compreendem um departamento de internação de 60 leitos, uma unidade de parto com 10 leitos, uma unidade de recém-nascidos com 28 leitos - incluindo uma unidade de terapia intensiva neonatal de 10 leitos e uma área de cuidados maternos do Método Canguru -, duas salas de cirurgia, vacinação para recém-nascidos, planejamento familiar e promoção da saúde.

KUNDUZ

As obras do Centro de Trauma de Kunduz estão em andamento e a meta é iniciar as atividades, incluindo atendimento emergencial, cirúrgico e pós-operatório, antes do final do ano. A clínica de tratamento de feridas e os serviços de fisioterapia foram inaugurados no local do novo hospital em maio de 2021 - a clínica de tratamento de feridas foi implementada em 2017 em um lugar diferente, mas as atividades foram suspensas em abril de 2020 devido à COVID-19.

As ações de apoio ao Posto Avançado Distrital (DAP, sigla em ingês) em Chardara começaram em 2015 e continuam até hoje. O DAP está localizado na parte oeste da cidade, em território controlado pela oposição. Uma equipe de MSF trata pacientes com trauma por meio de primeiros socorros, estabilização e encaminhamentos para aqueles com necessidades mais graves.

HOSPITAL DE REFORÇO, PROVÍNCIA DE HELMAND

MSF apoia o hospital provincial Boost em Lashkar Gah, capital da província de Helmand, desde 2009. O local atende uma população de aproximadamente 1,3 milhão e é o único hospital de referência na província.

Nos últimos anos, Helmand, que fica ao sul do país, foi uma das áreas mais afetadas pelo conflito em curso no Afeganistão. Em outubro de 2020 e novamente em maio de 2021, a violência explodiu e o hospital Boost, apoiado por MSF, admitiu o fluxo de feridos do principal hospital de trauma da cidade. O conflito continua nos distritos ao redor da cidade, e as equipes estão tratando uma média de 34 pacientes feridos pelos ataques por semana. O acesso aos cuidados de saúde continua a ser um desafio significativo, com as pessoas sendo forçadas a esperar que os combates diminuam ou a arriscar a vida viajando para a cidade.


MSF está apoiando atualmente o pronto-socorro, a unidade cirúrgica, o departamento de internação, a maternidade, a unidade de neonatologia, o laboratório e o departamento de radiologia, bem como o departamento de pediatria com 82 leitos e um Centro de Alimentação Terapêutica para Pacientes Internos.

Em fevereiro de 2020, MSF também começou a apoiar o departamento ambulatorial do hospital Fátima Bayat com medicamentos e treinamento. O objetivo era reduzir o número de pessoas no pronto-socorro do hospital Boost, encaminhando casos menos graves.

HERAT

Desde dezembro de 2019, MSF apoia o Centro de Alimentação Terapêutica para Pacientes Internos do Hospital Regional de Herat. A maioria dos pacientes e cuidadores viaja mais de 15 km para chegar ao atendimento, e alguns vêm de lugares distantes como Badghis, Ghor e Farah.

MSF também administra uma clínica para deslocados internos e para a população local em Herat desde dezembro de 2018. A clínica oferece consultas gerais, incluindo para doenças não transmissíveis, triagem e tratamento de desnutrição, consultas pré e pós-natal, bem como vacinação infantil e sessões de promoção da saúde para os deslocados que vivem em Shaidayee e Kahdestan.

KANDAHAR

Em Kandahar, MSF trabalha em parceria com o Ministério da Saúde Pública para diagnosticar e tratar pacientes com tuberculose resistente a medicamentos (DR-TB). A organização administra um centro de TB, que inclui um laboratório, uma clínica ambulatorial e 10 leitos para pacientes internados que sofrem de DR-TB. A organização médico-humanitária oferece apoio à saúde mental e realiza atividades de promoção da saúde. Há também uma pousada de MSF que acomoda pacientes vindos de lugares distantes durante a terapia. Um novo centro de tratamento de tuberculose com 24 leitos deverá ser inaugurado em 2021.

Um tratamento oral de curta duração (nove meses) foi instituído em novembro de 2019. A terapia mais curta envolve menos efeitos colaterais e melhora a qualidade de vida dos pacientes, o que, por sua vez, incentiva a adesão ao tratamento. Dos pacientes dessa nova abordagem, até agora nenhum foi perdido durante o acompanhamento. No entanto, a insegurança continua sendo um grande desafio na área, já que os combates dificultam o acesso dos pacientes. Eles recebem um estoque de medicamentos, caso demorem a visitar o centro de DR-TB em Kandahar para a consulta de acompanhamento.

MSF também oferece suporte ao Hospital Regional de Mirwais, ao Centro Provincial de TB e à Prisão de Sarpoza para diagnosticar tuberculose que pode ser tratada com medicamentos de primeira linha.

Conflitos continuam no Afeganistão

Negociações de paz entre o governo afegão e o Emirado Islâmico do Afeganistão, também conhecido como Talibã, fizeram pouco ou nenhum progresso desde o início do processo, em setembro de 2020, e os EUA anunciaram que retirarão suas tropas em 2021. Conflitos entre forças governamentais e grupos armados de oposição continuam a ceifar milhares de civis a cada ano, enquanto destroem a infraestrutura pública do país.

 

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