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Afeganistão: em memória dos colegas mortos nos ataques em Kunduz

23/11/2015
MSF divulga os obituários dos 14 profissionais da organização que perderam suas vidas em meio aos bombardeios ao centro de trauma

Foto: MSF

O dia 3 de outubro de 2015 vai permanecer para sempre marcado como um dia sombrio na história da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF). Nas primeiras horas da manhã, o hospital de trauma de MSF em Kunduz, no Afeganistão, foi alvo de ataques aéreos precisos e repetidos. Sob ataque, nossos colegas lutaram por suas vidas e pelas de seus pacientes com determinação e coragem extraordinárias.

Quatorze colegas de MSF perderam suas vidas naquele dia trágico. Todo o movimento internacional de MSF está de luto com as famílias das vítimas. A falta dessas pessoas será tremendamente sentida e elas jamais serão esquecidas.

Como escreveu nosso colega Zabiullah em um de seus poemas, traduzido para o português:

“O tempo vai voar, mas a memória permanecerá,
Feridas vão sarar, mas suas marcas permanecerão.”

1
Abdul Maqsood tinha 22 anos e trabalhava como ponto focal de informações aos pacientes. Conhecido por ser um ótimo jogador de críquete, ele jogava com muito entusiasmo. Abdul começou sua carreira no hospital trabalhando por dia e ficou muito orgulhoso quando, alguns meses depois, foi recrutado como membro permanente da equipe. Ele demonstrou dedicação e sentia que trabalhar no hospital era uma grande honra. A falta de seu otimismo e comprometimento será profundamente sentida.

2
Abdul Nasir, de 22 anos, trabalhava como auxiliar de limpeza do hospital. Ele nascera na província de Kunduz e trabalhava para MSF desde julho de 2013. Ele foi descrito por aqueles que o conheciam como uma boa pessoa, que trabalhava muito duro. Sempre pronto a contribuir, ia muito além das demandas de seu trabalho. Abdul era muito educado e conhecido por cuidar tanto dos pacientes como de seus cuidadores. Geralmente, ele ficava sentado ou em pé próximo da porta da unidade de cuidados intensivos e sempre que alguém adentrava o local ele era mais rápido que qualquer um em oferecer ajuda. O suporte dele a muitas pessoas foi imensurável.

3
Amigável e de fácil convivência, Abdul Salam, de 29 anos, era enfermeiro do centro cirúrgico. Ele era um dos profissionais mais apaixonados do centro de trauma de Kunduz e aproveitava cada segundo de sua vida. Além de ser um enfermeiro de centro cirúrgico com experiência, também possuía um diploma em Farmácia. Em seu tempo livre, ele gostava de jogar críquete e Buzkashi, o esporte nacional do Afeganistão. Durante os intensos confrontos na semana que precedeu o ataque, ele mal dormiu, e trabalhou por longas horas na tentativa de ajudar pessoas e colegas o máximo possível. Ele se sobressaía em meio a circunstâncias desafiadoras. Ele era casado e deixa para trás duas crianças, sendo que o caçula tinha apenas 40 dias no dia em que Abdul Salam faleceu. 

4
Abdul Satar Zaheer, de 47 anos, era o diretor médico adjunto do centro de trauma de MSF em Kunduz. Ele geria um grande grupo de profissionais e foi descrito por todos que trabalhavam com ele como meticuloso, empático e respeitoso. Era comum que trabalhasse até tarde da noite. Quando seu filho o pedia para trabalhar menos, ele dizia que não estava trabalhando e, sim, servindo às pessoas do Afeganistão. Ele sempre ouvia as sugestões feitas por outros. Ele pensava “fora da caixa” e não hesitava em mudar os métodos quando necessário, suavizando o trabalho da equipe médica e o tornando mais efetivo. Ele era conhecido por sua incrível paciência e senso de humor. Na noite do ataque, o Dr. Satar decidiu ficar próximo de seus pacientes em vez de descansar, e contava piadas ao restante do pessoal em serviço para tentar dar leveza ao ambiente. Ele era pai orgulhoso de oito crianças, e frequentemente compartilhava histórias sobre o quão inteligentes eles são.

5
O Dr. Aminullah Bajawri era um pai de 32 anos e um médico de sala de emergência. Como tantos outros médicos, quando os confrontos irromperam em Kunduz, ele decidiu não deixar a cidade em busca de segurança e ficou ali para ajudar a população, seus amigos e colegas. Ele trabalhou a semana inteira anterior ao ataque, por se sentir pessoalmente responsável por qualquer paciente que pudesse não se recuperar em consequência de sua ausência. Admirado por sua clara e racional percepção dos problemas médicos e abordagem pragmática para tratar pacientes, o Dr. Amin era alguém em quem sempre se podia confiar na sala de emergência, com amplos conhecimentos médicos, disposição para aprender novidades e uma abordagem amigável com seus pacientes. Seu sonho era tornar-se neurocirurgião, em um momento em que a falta de especialistas do ramo no Afeganistão significava a morte de crianças devido à falta de tratamento adequado. Ele era também um professor extremamente respeitado por seus alunos na Universidade de Kunduz.

6
Nascido em Kunduz, Lal Mohammad tinha 28 anos. Ele estava sempre sorrindo e era como um mentor para os enfermeiros mais jovens. Era carinhoso e estava sempre pronto a ajudar as pessoas em necessidade. Sua dedicação aos pacientes ia além dos cuidados médicos; ele sempre tentava dar o máximo de conforto e suporte que podia. Lembramos sempre de seu sorriso, sua avidez para aprender e sua energia positiva. Ele deixa para trás uma esposa e três crianças.

7
Aos 32 anos, o Dr. Mohammad Ehsan Osmani era um jovem médico da unidade de cuidados intensivos com entusiasmo e dedicação extraordinários com seus pacientes. Com um sorriso sempre presente, ele nunca dizia não para qualquer trabalho ou turno extras; era comum que se voluntariasse para ficar e trabalhar em seu tempo livre quando o hospital estava sobrecarregado de pacientes. Sua energia e risada eram contagiantes. Ele era o tipo de pessoa que preenchia o lugar com sua alegria e compaixão. O Dr. Osmani estava sempre disposto a ajudar os outros e nunca negou suporte a quem precisasse. Na noite do ataque aéreo, em vez de descansar no abrigo com seus colegas, ele continuou trabalhando e cuidando de seus pacientes em condições críticas.

8
Mohibullah, de 38 anos de idade, era um pai dedicado e um enfermeiro de sala de emergência experiente que havia se juntado à equipe do centro de trauma de Kunduz havia três anos. Ele era o caçula de oito irmãos, muitos dos quais também estavam trabalhando na área médica. Ele começou a trabalhar como enfermeiro no departamento ambulatorial, mas decidiu mudar para a sala de emergência. Mohibullah aprendia rapidamente e sempre se mostrava muito paciente com todos. Sempre que tinha tempo, ele tentava estudar ou aprender com livros ou com seus colegas. Ele sempre ficava até mais tarde, se necessário. Mohibullah aprendeu com várias pessoas, e várias pessoas aprenderam com ele.

9
Najibullah, um pai de 27 anos, trabalhava com MSF desde agosto de 2011 como auxiliar de limpeza da sala de emergência. Todos gostavam muito dele, na medida em que ele era conversador, alegre e bondoso. Para ampliar seus conhecimentos, ele estava estudando em seu tempo livre. A sala de emergência estava sempre limpa e em ordem em seus turnos. Mais do que um auxiliar de limpeza, Najibullah era cuidador dos pacientes daquele ala do centro de trauma.

10
Naseer Ahmad era um enfermeiro de 23 anos da unidade de cuidados intensivos que começou a trabalhar com MSF em junho de 2014. Ele era gentil, calado e ávido por aprender. Ele queria começar um curso de inglês o quanto antes para conseguir ler e aprender mais. Por conta de seu comportamento tranquilo, ele tinha vocação para ser um ótimo enfermeiro de cuidados intensivos. Ele adorava ter muitas pessoas ao seu redor, para compartilhar sua alegria e ideias. Na unidade de cuidados intensivos, ele frequentemente queria se responsabilizar por pacientes em estado crítico sozinho, o que evidenciava seu enorme comprometimento com o trabalho e com o cuidado de seus pacientes. Ele sempre quis ajudar e cuidar dos pacientes que não tinham família.

11
Shafiqullah tinha 39 anos e trabalhava como vigilante desde fevereiro de 2015. Ele era bastante calado, mas sempre estampava um grande sorriso em seu rosto. Ele tratava todos com delicadeza e era muito comprometido com seu trabalho. Sempre amigável, era muito querido por seus colegas, que sentem uma enorme falta sua. Ele deixa quatro crianças para trás.

12
Tahseel, de 35 anos, era pai e um membro muito amado e valorizado da equipe da farmácia do centro de trauma de Kunduz desde a abertura do projeto. Ele trabalhava muito duro; a farmácia era muito organizada e ele estava preparado para qualquer emergência no hospital. Tahseel tinha um ótimo senso de humor e sempre estampava um enorme sorriso em seu rosto. Como demonstração do quão dedicado ele era na tarefa de ajudar os outros, ele voltou ao hospital nos últimos dias de sua licença para dar assistência à equipe quando eles mais precisavam. Esse comprometimento será sempre lembrado.

13
Zabiullah tinha 29 anos e era casado. Ele trabalhava como vigilante do hospital desde fevereiro de 2015. Ele era poeta e trabalhava na tradução de diversos livros para a língua Pashto. Ele estava também escrevendo um livro sobre o famoso Khan Abdul Ghafar Khan. Ainda que tivesse começado a trabalhar com MSF há menos de um ano, ele já tinha feito muitos amigos devido ao seu astral e comportamento bondoso. Este é um de seus poemas:

O tempo vai voar, mas sua memória permanecerá,

Feridas vão sarar, mas suas marcas permenecerão.

14
Ziaurahman era um enfermeiro da unidade de cuidados intensivos de 23 anos, que trabalhava para MSF desde 2013. Ele era conhecido por ser um enfermeiro talentoso com uma mente sagaz. Sempre participava de sessões de treinamento, demonstrando sua incrível avidez por aprender. Ziaurahman se interessava muito por tudo e por todos, e tinha uma natureza muito paternal. Os pacientes de quem cuidava tinham sorte por tê-lo por perto. Ele era um bom amigo de todo o pessoal e tinha uma visão otimista sobre a vida.
 

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