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27 anos em campo com MSF

30/05/2017
Fasil Tezera fala sobre quase três décadas de ação humanitária na África e na Ásia: “Você vê o resultado, que é devolver a dignidade às pessoas, ajudá-las a se recuperar, falar em seu favor”
27 anos em campo com MSF

Foto: Susana Oñoro/MSF

O enfermeiro etíope Fasil Tezera (Foto: MSF)O farmacêutico etíope Fasil Tezera conheceu Médicos Sem Fronteiras há 27 anos, quando trabalhava para o Ministério da Saúde da Libéria. Durante a guerra civil brutal no país do oeste da África, ele passou a fazer parte da organização internacional humanitária. Desde então, já atuou em mais de uma dezena de países africanos e asiáticos, em situações de conflito, desastres, epidemias e no tratamento do HIV. Na entrevista abaixo, Fasil relata sua experiência e as mudanças que observou nesse período. Atualmente, ele é líder da equipe de acesso humanitário e networking do Departamento de Análise de MSF em Bruxelas.

Quando você começou a trabalhar com Médicos Sem Fronteiras?
Foi no final de 1989. Faz 27 anos. Eu nasci em Adis Abeba, na Etiópia, mas estava na Libéria, que na época estava em guerra civil. Era uma guerra brutal, em que Charles Taylor, que tinha vindo da Costa do Marfim, tentava expulsar do país o então presidente Samuel Doe. Havia um grande número de feridos, principalmente por facões, armas de fogo e explosões. Na Libéria, MSF primeiro se estabeleceu no hospital Saint Joseph, em Monróvia. Antes de começar a atuar com a organização, eu trabalhava no país com o Ministério da Saúde e o Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância). Minha formação é de farmacêutico.

Por que você deixou a Etiópia?
Foi nos anos 70. Eu atuava no movimento estudantil em um momento de crise no qual havia uma transição de governo. Decidi sair e fui primeiro para o Egito, onde estudei fisioterapia. Depois optei pela Libéria, que naquele momento era um dos países mais pacíficos da África. Lá, trabalhei com MSF por três anos e depois fui para Serra Leoa, como coordenador de projeto. Em seguida atuei no campo de Dadaab, no Quênia, que abrigava os refugiados vindos da Somália e alguns do sul do Sudão. Na época o campo tinha 184 mil refugiados. Nós prestávamos cuidados de saúde básica em quatro clínicas e um hospital.

Nesse início, portanto, eu trabalhei em situações de conflito e pós-conflito. Em Serra Leoa, a guerra [1991-2002] também foi brutal. As pessoas eram raptadas, tinham orelhas e narizes cortados. Nós trabalhamos especificamente com amputados. As pessoas deslocadas de suas casas também procuravam nossas estruturas para se proteger. Depois de Serra Leoa, eu fui para Kigali, capital de Ruanda.

Isso foi depois do genocídio?
Abril de 1994: Unidade de internação do hospital de MSF e do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, instalado num orfanato de freiras, em Kigali, Ruanda (Xavier Lassalle/MSF)Logo depois. Foi um momento muito difícil. Muitos tutsis [etnia local vítima do genocídio] haviam sido mortos, e o governo dos tutsis acabara de assumir o poder. Muitas pessoas foram presas, e prisioneiros eram confinados em buracos cavados no chão, com água acima dos joelhos e, às vezes, acima do peito. Pessoas eram caçadas na floresta e algumas eram trazidas de Kivu [na vizinha República Democrática do Congo] sob o argumento de que seria uma repatriação voluntária. MSF estava à frente de um hospital, e era um momento muito difícil. Hutus eram ameaçados, acusados de ter participado do genocídio.

Depois de Ruanda eu fui para Angola, durante uma crise de desnutrição, ainda durante a guerra civil, mas já no final. Tínhamos um grande centro de nutrição na província de Cuito. Em seguida, trabalhei numa emergência de desnutrição no Sudão do Sul e numa crise de cólera na Guiné-Bissau. Depois fui para o Paquistão, durante o terremoto de 2005 na região da Caxemira, que deixou quase 80 mil mortos. Nós abrimos um projeto médico no norte do país, próximo à fronteira afegã, que ainda está funcionando. Eu acabei ficando quatro anos no Paquistão. Finalmente fui para o Zimbábue atuar no programa de HIV.

E como foi a mudança?
Era um modo diferente de trabalhar, porque no Zimbábue não era uma emergência ou situação de crise. Trabalhávamos em colaboração com o Ministério da Saúde, com a sociedade civil, outros parceiros. Nós abrimos o programa de violência sexual e de gênero. Montamos uma clínica em uma das favelas de Harare, a capital, e atendíamos um grande número de sobreviventes de violência sexual, especialmente jovens, a maioria mulheres. Trabalhamos com a Associação das Advogadas do Zimbábue e enviávamos nossas enfermeiras, se necessário, para prestar depoimentos técnicos nos tribunais. Também enviávamos assistentes sociais para acompanhar as jovens vítimas de violência sexual nos tribunais, já que esse tipo de ambiente pode ser muito intimidante, principalmente porque o agressor está lá com um advogado. Entre as vítimas de estupro havia muitas crianças.

No programa de HIV, fazíamos advocacy para a atualização do protocolo, fomos os primeiros a introduzir a terapia de dose fixa combinada, em vez de utilizar cinco ou seis comprimidos diferentes. Na época passamos a importar medicamentos do Brasil. Desenvolvemos estratégias inovadoras para adaptar o tratamento à rotina dos pacientes – uma delas são os grupos de apoio comunitário, de seis a doze pessoas. Elas se revezam para que um integrante do grupo possa ir à clínica pegar a medicação para todos do seu grupo. Além de poupar tempo, isso economiza o dinheiro do transporte, e permite que as pessoas interajam e se apoiem mutuamente. No começo, esse modelo não pareceu ser muito aceito pelo ministério. Finalmente, eles viram que era uma proposta útil. Foi uma história de sucesso. Trabalhamos em 31 estruturas de saúde, com mais de 30 mil pessoas recebendo tratamento diretamente de MSF. Desempenhamos um papel crucial e o governo criou um programa nacional. O Fundo Global [coalizão de doadores públicos e privados que financia programas para HIV, tuberculose e malária] forneceu não somente o medicamento, mas também dinheiro para ajudar a pagar médicos e enfermeiras.

Agosto de 2016: Hospital de campanha montado por MSF no Nepal após o terremoto de abril de 2015 atende a população dispersa nas áreas montanhosas e rurais (Foto: Emily Lynch)Eu fiquei no Zimbábue por muito tempo, quase seis anos. Durante esse período eu trabalhei em emergências, como a do Ebola no oeste da África e o terremoto de 2015 no Nepal.

Você estava na Libéria durante a guerra civil e voltou ao país na epidemia de Ebola. Como foi essa experiência?  
Todo o sistema de saúde entrou em colapso. Muitos trabalhadores da saúde morreram, médicos, enfermeiras, professores. O John F. Kennedy, hospital de referência em Monróvia, foi fechado, assim como a maternidade central. Não havia lugar algum onde as mulheres grávidas pudessem dar à luz, principalmente se houvesse uma complicação. Se acontecesse um acidente de trânsito, não havia hospital para atender os feridos. Até mesmo os hospitais privados foram fechados.

Essa era a situação quando MSF chegou?
Sim, para nós também foi muito difícil. Não conseguíamos atender todo mundo. O número de pacientes com Ebola que procuravam nossos centros de tratamento era enorme. Não podíamos acomodar todo mundo. Em um momento nós tivemos que fechar as portas porque, fisicamente, não havia mais espaço. Quando a situação se estabilizou, começamos a pressionar a Organização Mundial da Saúde para que houvesse equipamentos adequados para proteger os profissionais de saúde, para que fossem introduzidos protocolos que evitassem a contaminação. Levou tempo, mas gradualmente os hospitais locais começaram a reabrir.

Fevereiro de 2015: Hospital JDJ Memorial, em Monrovia, na Libéria. MSF apoiou o hospital em melhorar os cuidados maternos e pediátricos, levando em conta o surto de ebola (Yann Libessart/MSF)Ainda assim, o sistema de saúde da Libéria e também de Serra Leoa é muito vulnerável. Se algo acontecer, acredito que eles não consigam dar conta da situação. Por isso, hoje, MSF está considerando construir hospitais pediátricos e maternidades em Serra Leoa e na Libéria. Existe muito a ser feito. O Ebola se espalhou tão rapidamente e matou tanta gente porque a infraestrutura de saúde já era muito precária.

Depois do Zimbábue, você foi convidado para atuar no Departamento de Análise em Bruxelas. Como é o novo trabalho?
Esse departamento, liderado pelo Jonathan Whittall, é novo. Estou trabalhando na equipe de acesso humanitário e networking, cujo objetivo é aumentar nossa rede de contatos em todas as regiões do globo, de modo a conhecer melhor os contextos e dar suporte às operações. Uma das ideias é retomar os contatos com pessoas que trabalharam com MSF em antigos projetos médicos, que já foram fechados. Isso pode ser útil em situações de emergência, por exemplo. Na Libéria, fomos alertados sobre o Ebola por pessoas que haviam trabalhado com MSF durante a guerra.

O acesso humanitário hoje é mais complicado do que antes?
Nos conflitos, nosso propósito é sempre trabalhar nos dois lados. É o que acontecia na guerra civil da Libéria, por exemplo. Hoje as crises são mais complexas, são muitos grupos envolvidos, como na Síria. Há divisões políticas, religiosas, há grupos que não falam com ninguém. Mas não somos nem podemos ser vistos como partidários. Por isso temos que continuar tentando o acesso à população em todos os lados. Por exemplo, hoje temos acesso à população de Mossul, mas chegamos ao mesmo tempo em que chegaram os militares iraquianos, que vieram com equipes de saúde contratadas por eles. Numa situação dessas, temos que mostrar que somos diferentes, imparciais, neutros, e temos que ser capazes de comunicar essa mensagem.

Desde que você começou a trabalhar com MSF, o que mudou para melhor em termos de saúde na África?
No tratamento do HIV e da tuberculose, há vários casos de sucesso, como África do Sul, Malauí, Zimbábue, Uganda. Há melhorias gerais nos sistemas de saúde básica em países mais estáveis, como o Quênia. Existem mudanças para melhor, mas especialmente no oeste da África elas são mais lentas do que deveriam ser. A República Democrática do Congo sofre uma crise atrás da outra, há epidemias. O aquecimento global afeta vários países africanos, provoca crises alimentares, mesmo que sazonais.

O que levou você a continuar em MSF por tanto tempo?
Creio que com MSF finalmente encontrei o que eu queria fazer. MSF me forneceu os meios para fazer o que eu gosto. Eu quero ajudar outras pessoas e tenho os meios para isso. E você vê o resultado, que é devolver a dignidade às pessoas, ajudá-las a se recuperar, falar em favor delas. Nossos recursos parecem grandes, mas comparados com os do sistema ONU, por exemplo, não são. Com eles, entretanto, conseguimos bastante. E podemos perceber isso no dia a dia. Você vê crianças entrando num centro de nutrição terapêutica em péssimas condições, e em poucos dias elas estão brincando por ali. Isso é inspirador. Vemos pessoas vulneráveis que foram desalojadas de suas comunidades, pessoas atingidas por guerras. Com sua presença, MSF pode dar voz a essas pessoas, ajudá-las com cuidados médicos, intervenções cirúrgicas. Por isso fiquei em campo por 27 anos, ininterruptamente.
 

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