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Veludo verde na República Centro-Africana

A mistura de calor com umidade é um desafio diário em Bangui, segundo farmacêutica brasileira
24/02/2017
Diário de Bordo da farmacêutica Eliza Biasutti

Foto: Arquivo pessoal

Agosto, 2016. O som do gerador abafa os ruídos da vila, quase como um «Ohm» contínuo para meditação. Sentada no chão de uma varandinha com as costas contra o muro, contemplo o pôr do sol. O suor escorre pelo testa. O céu se tinge de laranja e rosa; é o sol dizendo «Kekereque», que quer dizer «até amanhã» em sango. E às 18h00, o breu já chegou para ficar.

Nas primeiras semanas em Bangui, capital da Reública Centro-Africana (RCA), meu trabalho foi no campo de deslocados internos, gente que fugiu de suas regiões devido aos conflitos e violência e se aglomerou em uma área ao lado do aeroporto Internacional Mpoko. Por isso, o nome do campo é Mpoko.

Nosso hospital fica dentro do acampamento. As atividades principais são receber, estabilizar e encaminhar os pacientes para uma estrutura hospitalar pública, vacinar adultos e crianças, realizar partos e oferecer consultas de clínica geral e medicamentos. Nossos pacientes vêm do acampamento, claro, mas também de toda Bangui, uma vez que não existem muitas instalações que ofereçam cuidados de saúde gratuitos. Outra atividade importante é o departamento de curativos de feridas crônicas. Algumas dessas feridas começam com um pequeno machucado que vai se alastrando. Alguns pacientes chegam a ficar de meses a anos com essas feridas que, se não forem tratadas, podem levar à amputaçao do membro afetado.   

A estrutura é bem rústica. Todos os departamentos são tendas de lona, inclusive a farmácia. Meu trabalho aqui é organizar a farmácia e implementar as ferramentas de gestão de estoque. Mais especificamente um software que ajuda a controlar todas as entradas e saídas de todos os items da farmácia, bem como planejar a sua reposição de modo a não deixar faltar medicamentos ou materias médicos. Outra atividade é a análise do consumo dos departamentos. Por exemplo, com os dados de saída de medicamentos para o paciente, podemos verificar se os medicamentos estão sendo prescritos de acordo com nossos protocolos. E, para tudo, contamos com a ajuda do nosso querido time da farmácia.

Os profissionais nacionais são bem dedicados e muito queridos, e me receberam muito bem. Estão contentes com minha vinda e o novo supervisor da farmácia está super empolgado e aprendendo bem rápido a como usar o programa, o que também me deixa muito feliz.

O calor é intenso e muito úmido. Saímos de casa às 6h45 e alguns dias pela manhã o céu fica baixo, com um nevoeiro que cobre a avenida e só permite ver os faróis dos carros vindo na direção oposta. Fiquei impressionada com um avenidão gigantesco assim no meio meio da cidade, mas depois fiquei sabendo que aquela é a pista de voo de um antigo aeroporto.
 
Por causa da alta umidade tudo mofa. Quando entrei em meu quarto pela primeira vez, já senti o cheiro de mofo. Abri a porta do armário e a parede do fundo estava verde. « Merda », pensei. Guardei somente meu passaporte, documentos e algum dinheiro ali dentro, tranquei o armário e deixei  minhas roupas na mala mesmo. Depois de duas semanas, consegui mudar de quarto. Quando fui pegar minhas coisas no armário, elas estavam inteiramente cobertas por um morfo verde aveludado, e os papéis ficaram moles de umidade. Por sorte, era um dia de sol. Limpei e deixei tudo no sol por algumas horas e, tirando a cor de envelhecido e o cheiro de « aca », ficou tudo certo.
 
Somente depois de uma semana o colchão de espuma começou a se acostumar comigo e a depressão deixada pelo antigo morador começou a pegar o contorno de meu corpo. As primeiras noites foram bem difíceis, tinha que dormir meio torta, mas depois de um tempo já consegui me aninhar nesse fundinho e dormir a noite toda.

Como faz muito calor e tem muita umidade, também chove muito. Então, ou você passa o dia debaixo do sol rachando e suando como uma chaleira ou passa o dia com os pés molhados e suando também, porque, mesmo com a chuva, o calor não dá trégua.

O momento mais difícil do dia é este em que escrevo, entre 19 e 21 horas. Não tem muita coisa para fazer. Tem até alguns restaurantes para sair, mas é tudo muito caro, com preços para gringo. Então, não dá para ir direto. E também, na verdade, haja ânimo para ficar saindo!  Então, tem que se esforçar para não dormir cedo demais, o que é facil de fazer depois de uma jornada de, no mínimo, 12 horas, sob um sol escaldante ou chuva contínua. Pensando bem, por que não ? 20h30 já está ótimo. Boa noite (Joni la cui).

Em janeiro deste ano, o acampamento de deslocados internos de Mpoko foi fechado, mas a crise na RCA ainda não terminou. MSF continua sendo um de seus principais agentes de saúde, mantendo 17 projetos no país, entre eles um programa de cirurgia e uma maternidade em Bangui.