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Uma madrugada de cirurgias

No hospital de MSF em Tabarre, no Haiti, cirurgião brasileiro trabalha madrugada adentro para socorrer pacientes
08/01/2016

Às 19h20 de ontem, 11/12/2015, no projeto de trauma de Tabarre, no Haiti, a equipe da ortopedia pediu que eu avaliasse a viabilidade das pernas de uma paciente recentemente trazida de ambulância que havia caído do tap tap – tipo de caminhonetes adaptadas para transportar pessoas, que geralmente transitam lotados e com pessoas penduradas. Ao cair, ela fora atropelada por um outro tap tap que vinha atrás, sofrendo imediatamente o esmagamento dos membros inferiores. Ao chegar, aparentava ter em torno de 40 anos, com hálito de quem havia bebido algum tipo de álcool (o rum aqui é bem barato), queixando-se de muita dor. Havia muito tempo que eu não via uma amputação bilateral, sendo sincero. Acho que só vi uma lesão tão grave quanto aquela uma vez. Usamos uma classificação médica chamada MESS (Mangled Extremity Severity Score, em inglês), que significa graduação de gravidade da extremidade esmagada e, com base nela, decidimos pela amputação de uma e tentativa da preservação de outra perna. A lesão da perna direita era tão grave que os ossos estavam quebrados e o pé pendurado apenas por alguns tendões – essa foi amputada. A perna esquerda não era tão melhor, mas não havia fratura completa do tornozelo e ainda havia funcionamento normal das artérias do pé – essa foi preservada.  A cirurgia terminou bem, com a paciente lúcida, sendo encaminhada para o centro de tratamento intensivo (CTI). Naquela noite, fui embora do hospital às 21h30.

Às 3 horas da manhã, o coordenador do projeto me telefonou avisando que havia chegado ao hospital um paciente com uma lesão de artéria braquial – a artéria responsável pela nutrição do braço –, vítima de arma de fogo. Normalmente, do momento da lesão até a perda do braço temos apenas seis horas para restabelecer o fluxo normal de sangue. Por isso, a necessidade de me acionarem na madrugada. Esse paciente não havia sido alvejado apenas no braço; foram cinco perfurações – uma no braço, uma no peito, duas no abdômen e uma na perna. A equipe dos médicos nacionais assumiu as cirurgias do abdômen e da perna, e eu assumi a cirurgia do braço. Foi necessário fazer uma reconstrução vascular da artéria do braço que me tomou quatro horas de cirurgia. Foi muito interessante ver três cirurgiões operando ao mesmo tempo áreas diferentes de um paciente visando estabilizá-lo e reduzir o tempo de anestesia. Terminamos as cirurgias quase que simultaneamente e o paciente foi transferido consciente para o CTI, às 7h10. Minha rotina de trabalho estava planejada para começar as 7h30 da manhã do dia seguinte, então liguei para o coordenador do projeto para saber se eu seguia a rotina direto sem dormir ou voltava para casa para descansar um pouco. O coordenador me disse para voltar para casa e foi o que fiz: dormi de 8 às 11 da manhã, acordei e retornei ao hospital para reavaliar aquele mesmo paciente. Nessa fase é muito importante fazer um exame de ultrassom doppler do braço de controle para ver se a cirurgia está funcionando bem. E, felizmente, estava tudo bem.

O trabalho é muito corrido mesmo durante o dia, mas no centro cirúrgico, no intervalo das cirurgias, converso bastante com os médicos nacionais e trocamos experiências de trabalho. Para mim, é muito gratificante, porque o diretor médico do centro de trauma de Tabarre me confidenciou que em todo Haiti existem apenas três cirurgiões vasculares. Dois deles trabalham em hospitais privados e um é professor da faculdade de medicina no Haiti, o que me faz acreditar que, no momento, sou o único cirurgião vascular com dedicação exclusiva a um hospital público no Haiti. Agradeço ao MSF por tamanha honra! E que responsabilidade! Deus me ajude!