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Trabalhando na resposta ao Ebola

03/05/2019
Trabalhando na resposta ao Ebola

Foto: Arquivo pessoal

A epidemia de Ebola estava aumentando de proporção na cidade próxima à que eu estava, na República Democrática do Congo. A necessidade de uma psicóloga era presente e foi então que recebi o convite para mudar de projeto. Aceitei de imediato. Na segunda-feira, peguei o avião em direção a Butembo. Butembo era uma cidade comercial importante no leste do Congo, estava agora amedrontada pelo vírus Ebola. Cheguei sem ter a certeza se saberia o que fazer. Como ajudar as pessoas contaminadas por um dos vírus mais mortais do mundo? Como trabalhar e viver sem encostar em ninguém? As perguntas não eram poucas.

No meu primeiro dia, o promotor de saúde me levou ao centro de tratamento de Ebola (CTE) e me pediu ajuda para coordenar a equipe de apoio psicossocial e me responsabilizou pelos funerais seguros. Eu, que até então tinha ido a pouquíssimos funerais na minha vida, estava agora organizando uma média de dois por dia.  

Eu, junto com a equipe psicossocial nacional, precisava comunicar às famílias que o enterro tradicional – em que elas são incumbidas de lavar o corpo do morto e envolvê-los em panos – não poderia ser realizado, por causa do risco de contaminação. O corpo seria exposto por um tempo limitado, pois os higienistas não aguentavam ficar muito tempo dentro do equipamento de proteção individual, que são aquelas roupas que parecem astronauta. O corpo sairia dali com o caixão fechado e não poderia mais tocar o solo. Porém, todos os familiares podem estar presentes e um representante religioso pode fazer a celebração necessária. O momento da notícia não era nada fácil; no Congo, as mulheres se jogavam no chão e andavam por alguns metros se rastejando. Ao contrário de nossa cultura, o choro é muito bem visto, o que fazia do momento da exposição do corpo algo até meio teatral aos nossos olhos. Muitas mulheres berrando e até saindo carregadas. O processo de luto me pareceu algo muito mais compartilhado e aceitado.

Entrar na zona de alto risco, que era onde ficavam os pacientes, pela primeira vez veio acompanhada de muita ansiedade. Hesitei por um tempo. Falar com um paciente crítico na zona de confirmados? O que eu poderia falar? Qual era o estado em que ele se encontraria? Estaria sentindo dor? Sangrando? Gemendo? A fantasia que se passava na minha cabeça se misturava com o medo de tirar a roupa de astronauta. “E se na hora de tirar a roupa eu encostar em alguma parte que ficou exposta? E se eu bloquear? Ninguém pode me ajudar a tirá-la”. Convencida pela equipe de que meu papel era importante e que não haveria dificuldade para a retirada do equipamento, me despi do medo e fui. Falei com dois pacientes. O estado era grave, mas muito menos de onde tinha me levado minha fantasia.

A população não se conformava com o vírus, acreditavam que eram os profissionais humanitários que estavam levando a doença para lá. Anunciar um falecimento muitas vezes vinha acompanhado de apedrejamento e anunciar um caso positivo, de ameaças. Mas participar da celebração que era ter um paciente curado saindo do CTE era gratificante. E o que eram para ser duas semanas se tornaram dois meses.

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