Sensibilidade materna

O cirurgião Rodrigo Cata Preta relata a história de um atendimento no projeto de MSF em Agok, no Sudão do Sul, onde atuou entre junho e agosto de 2019.

“Fui chamado para avaliar uma criança de 18 meses na enfermaria pediátrica. Como cirurgião no projeto, eu não a acompanhava desde o início da internação, foi um atendimento pontual. Ela estava criticamente desnutrida e apresentava extensa lesão de pele semelhante a uma queimadura, que acometia grande parte do corpo. A mãe, acompanhada de outra criança de cinco anos no mesmo leito, estava apreensiva. Os três estavam cobertos pela tela de mosquiteiro. No calor do Sudão do Sul, era a época de aumento dos casos malária, muito comum na região.

Percebi, durante o atendimento, que a mãe ficava um pouco ansiosa com a manipulação da criança. Ficava incomodada, mas respeitava muito toda a equipe e os esforços para tentar salvar a criança. Por mais que fizéssemos a analgesia [medicamentos utilizados para aliviar a dor] e tomássemos todos os cuidados, há certo grau de desconforto e de dor na hora de fazer os curativos. A pele da criança estava em condições muito difíceis, estava bastante exposta.

Atendi a pequena, fizemos um curativo para proteger as lesões sob analgesia e, durante o delicado processo, a mãe continuava distante. O curativo foi trocado no dia seguinte sem novidades. Apesar da analgesia, sempre havia certa dor ao contato com a criança. O choro era fraco, mas contundente. Refleti muito sobre a mãe. Parecia que ela, naquele momento, já pensava somente no alívio de qualquer dor da criança. Já pensava que mesmo todos os esforços e melhores cuidados não mudariam o curso daquela vida.

No dia seguinte, encontrei a mãe com melhor fisionomia, menos angustiada. Ela cantava uma canção leve no idioma de sua comunidade em frente ao leito da filha. A criancinha havia partido havia instantes. A desnutrição foi o fator agravante que levou ao seu óbito. O Sudão do Sul passa por altos níveis de insegurança alimentar, e as crianças são particularmente afetadas pela desnutrição e complicações associadas. A sensibilidade materna daquela mulher que acompanhava a criança, tão importante, já sinalizava a partida da filha desde o início do nosso contato. Mesmo com todos os esforços das equipes, ela se foi”.

Rodrigo Cata Preta atuou como cirurgião em Agok, no Sudão do Sul, entre junho e agosto de 2019. O hospital de MSF de 180 leitos na cidade fornece cirurgias, cuidados neonatais e pediátricos, além de tratar pessoas contra picadas de cobra e doenças como HIV, tuberculose, malária e diabetes.

Compartilhar
Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp
Share on print