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Seis meses de saudades e de um trabalho recompensador

19/12/2011

Parte 3- Guidam Roumdji, 19 de dezembro de 2011

É inacreditável que já estamos em dezembro. Só agora percebi que já estou no Níger há praticamente 6 meses mas, se me ponho a pensar em tudo o que fiz nesses últimos 6 meses, tenho a impressão de que se passou somente um mês. Estou sempre aqui em casa ou no hospital, vejo as mesmas pessoas todo dia, isso me faz ter a impressão de estar parada no tempo. Em todos esses meses aqui, tenho amigos que casaram, que deram a luz a lindos bebês que ainda não pude conhecer. Vários aniversários que acabei esquecendo (me desculpem), a festa de aniversário da minha afilhadinha que perdi. Enfim, às vezes tenho a impressão de que todos estão vivendo suas vidas e eu estou aqui estagnada neste fim de mundo.

Confesso que este mês está bem difícil. No Brasil, dezembro é um mês especial. Fazemos várias festas de confraternização, tudo está enfeitado cheio de luzes, as pessoas tentam ser mais simpáticas. Talvez se estivesse no Brasil, estaria pensando que é uma coisa insuportável a fila para entrar no shopping, as lojas lotadas, o supermercado parecendo um formigueiro. Mas aqui, não tenho nada disso e dias 24, 25, 31 e 01 são dias normais. A sorte é que será de fim de semana e não trabalharei domingo, mas sábado será como qualquer outro dia. Aqui em casa, apenas eu e Stefano (coordenador do nosso projeto no Níger, que é italiano) temos o hábito de comemorar o Natal. Hannah (a outra pediatra, que é alemã), diz que detesta esta data e os outros são muçulmanos, praticantes ou não.

De qualquer forma, estou tentando organizar uma festa aqui em casa, espero que dê certo.

Quanto ao trabalho, as duas últimas semanas foram super puxadas. Estamos fazendo a campanha de vacinação, MSF patrocina o esquema vacinal para as crianças da nossa região. Veio a especialista em vacinas de Bruxelas e uma enfermeira coordenadora das campanhas de vacina de MSF pra treinar o pessoal.  Além do fato de termos tido visitantes durante 3 semanas, tivemos várias reuniões para organizar tudo.

Dia primeiro começamos a utilizar um medicamento novo para a Malária aqui no hospital.  É o que tem de mais moderno no mercado e Guidam Roundji foi escolhido o projeto piloto. Como tudo que é novo, tivemos que formar a equipe do hospital para isso, não foi fácil.

Nem acredito que passou....

Quanto ao meu trabalho no CRENI (Centro de Nutrição Intensiva), estou adorando. Claro que não é fácil. Temos várias dificuldades. Supervisionar cansa muito mais do que dar plantão. O tempo todo penso se os enfermeiros estão entendendo realmente a importância de seu trabalho. Tem alguns que têm um dom nato e boa vontade, tem alguns com muita boa vontade e alguns sem nenhuma vontade. Não é nada fácil gerenciar todo esse povo.

A melhor coisa é que, como as crianças levam em média 7 dias para ter alta, acabo conhecendo bem todas elas. Também é lá que percebemos se a criança não ganha peso e partimos para investigação.  Sempre procuramos tuberculose ou HIV. Nestas últimas 6 semanas, iniciamos o tratamento de tuberculose para 11 crianças e diagnosticamos 3 como HIV positivas. É muito recompensador ver a resposta dessas crianças ao tratamento: o apetite volta, elas começam a brincar, as que não andavam começam a andar.... Quando começamos o tratamento, as crianças precisam ficar pelo menos 14 dias internadas para vermos a evolução e nos assegurarmos de que elas não terão efeitos colaterais. Claro que acabo conhecendo todas as crianças pelos nomes e, como médica de família, não tem coisa melhor do que poder fazer um acompanhamento de verdade dessas crianças. Nossa Unidade de Cuidados Intensivos é super interessante, mas as crianças estão mal, não podem interagir e quando melhoram já vão para as outras fases.

Há 2 semanas, tinha 7 crianças internadas na fase 2 em tratamento de tuberculose. Um deles tinha 3 anos e nem falava quando chegou (ele ficou 40 dias internado) e no final, falava com todo mundo e queria me acompanhar nas consultas das outras crianças. Outro de 2 anos, com um retardo psicomotor e tuberculose na coluna, nem sentava. Eu lhe ensinei a bater palmas e mandar beijo, quando eu chegava ele já começava a me mandar beijo de longe. Em uma semana de tratamento ele começou a sentar e quando foi embora já estava dando passinhos com a nossa ajuda.

Uma outra menininha não tinha apetite nenhum. Após 3 dias de tratamento de tuberculose, seu apetite voltou  e, na última semana, cada vez que eu chegava para consultá-la, ela estava debaixo da cama brincando com seu vizinho também em tratamento para tuberculose.

O mais bonito disso tudo é que, quando as mães voltam para a consulta (nos primeiros 2 meses de tratamento, a consulta é a cada 15 dias), elas vêm me procurar para mostrar como as crianças estão lindas.

Bom, comecei este e-mail meio deprimida, com muitas saudades de casa, da família e dos amigos, mas quando falo das crianças entendo porque estou longe de tudo que amo. O sorriso dessas mães e dessas crianças compensa o sacrifício.

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