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Seis meses de muito trabalho em Shabunda, na RDC

Após encerrar sua participação em projeto de MSF, farmacêutica relembra histórias e desafios vividos em campo
28/06/2016
Seis meses de muito trabalho em Shabunda, na RDC

Foto: Arquivo Pessoal

Data: 03/05/16

Fim de minha participação no projeto de Médicos Sem Fronteiras (MSF). Seis meses em Shabunda, pequeno vilarejo no meio da floresta na República Democrática do Congo (RDC). Só existem duas formas de chegar lá: de avião, meio mais fácil e também muito caro, ou por uma "estrada", um caminho difícil e tortuoso que leva dias a partir de Bukavu, capital da província de Kivu do Sul. Dezenas de caminhões quebram no caminho e as chuvas constantes deixam a estrada impraticável na maior parte do tempo.

Então, o meio de transporte escolhido muitas vezes para transportar pessoas, alimentos, os "pagne" (tecidos coloridos utilizados pela população para roupas, levar os bebês entre diversas outras utilidades) e medicamentos é o avião. Tudo fica mais caro quando transportado de avião...

Sou farmacêutica e trabalhei na farmácia de um projeto que apoia oito estruturas diferentes: o Hospital Geral de Referência de Shabunda, o centro de saúde Mbangayo nessa região, um centro hospitalar em Matili (outra pequena vila que faz parte da área de saúde de Shabunda, mas fica a cerca 30 km), quatro centros de saúde na periferia de Matili e o centro de saúde de Tchombi, a cerca de 10 horas de caminhada de Shabunda. O apoio consiste na presença de médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde nas estruturas, doação de medicamentos e produtos hospitalares e todo o suporte de logística necessário. Uma equipe enorme trabalhando em parceria com o sistema de saúde local para garantir o acesso da população a cuidados de saúde, principalmente tratamento para malária e desnutrição, e acompanhamento de gestantes. Uma das maiores causas de morte na região é a malária grave em pacientes desnutridos.

Foram muitos desafios durante esse tempo e a equipe da farmácia trabalhou com força total para atender às necessidades de medicamentos e de outros produtos para a saúde para todas as estruturas, vencendo problemas tão simples em outros contextos, mas tão complexos em uma região tão isolada e no meio da floresta: acesso, temperaturas elevadas e umidade chegando a 87% em alguns lugares.

Motociclistas de MSF levando medicamentos para Matili, na RDC (Foto: arquivo pessoal)Depois de dois meses no projeto, mais um grande desafio: a estrada que liga Shabunda à Matili fica impraticável devido às chuvas e aos caminhões que quebram e ficam presos no caminho por vezes durante semanas. Não podíamos mais ir de carro, e cinco estruturas de saúde esperavam nosso apoio. E nessa região o avião também não pode pousar. Quando pensamos na ação de organizações como Médicos Sem Fronteiras pensamos nos médicos e enfermeiros cuidando dos pacientes, mas não temos ideia da estrutura necessária para fazer esse trabalho possível, do envolvimento da equipe de logística. A solução: motos! Não só para as pessoas, mas para as toneladas de medicamentos necessárias a cada mês para todas as estruturas. Na primeira grande entrega, mais de 20 motos levando toda a doação mensal para apenas uma das estruturas. Motos, condutores, farmácia, logística, administração, todo mundo envolvido. Todos trabalhando em conjunto, todos pensando juntos para resolver os desafios, todos com o mesmo objetivo: facilitar o acesso aos cuidados de saúde para centenas de “watoto” e “mamas” (como chamamos as crianças e mamães em suaíle, língua falada nessa região).

Na minha última semana em Shabunda saímos, como todas as semanas, para levar o alimento terapêutico nutricional para o programa ambulatorial de desnutrição no centro de saúde Mbangayo. Pelo caminho a mesma situação de sempre: o carro MSF passando e dezenas de crianças ao nosso redor... Olele! Olele! Cada uma olhando para o carro com uma expressão diferente. Umas espantadas, outras desconfiadas... até que uma pequenininha vem gritando e sorrindo em direção ao carro! Para cada uma, basta um sorriso. E o sorriso que você tem em troca é tão cheio de alegria e esperança que é uma experiência única, sem igual.

No programa ambulatorial temos todas as mamas e os watoto juntos com a equipe do centro de saúde lutando para vencer a desnutrição. São feitas atividades de estímulo para as crianças com músicas, instrumentos e jogos para ajudar no desenvolvimento das que estão em tratamento; além disso, elas são pesadas, têm seu grau de desnutrição avaliado e passam por uma rápida consulta para ver sua evolução ao longo da semana. Mais uma vez, a relação com as crianças e as mamas são uma experiência particular. Cada uma ao entregar a criança para ver o peso tem em seu olhar uma esperança curiosa... E os watoto, cada um com uma reação diferente: uns olham espantados, outros levam sua mãozinha para tentar tocar e outros abrem o berreiro! E, depois, palmas e canções para as crianças que melhoraram e saíram dos níveis críticos de desnutrição, conversas sérias com as mamas cujos filhos não apresentaram melhora – elas devem seguir o tratamento como explicado – e alguns encaminhamentos para o programa hospitalar. Essas crianças que não conseguem melhorar, que apresentam piora ou ainda outros problemas, terão um tratamento especializado e acompanhamento da sua evolução.

Infelizmente, o sistema de saúde nessa região não consegue fornecer os cuidados necessários para a população e nosso trabalho acaba sendo essencial para ajudar cada um deles. Como as comunidades muitas vezes estão longe dos centros de saúde, muitas pessoas caminham horas para chegar até o centro mais próximo. Com seus bebês nas costas, as mamas deixam seus afazeres e muitas vezes seus outros filhos em casa para conseguir esses cuidados, muitas vezes básicos.

Foram seis meses de muito trabalho, mas o que mais me marcou foi a certeza de que todo nosso trabalho é muito necessário e faz muita diferença nessa região.