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República Centro-Africana: um país que deixa marcas (parte 2)

16/12/2014

Escondendo-me das balas dentro do hospital

No mês de junho, a situação securitária da cidade de Carnot tornou-se muito precária e a troca de tiros na cidade era muito frequente, de dia e de noite. Por várias vezes, fomos obrigados a fechar o escritório e diminuir as atividades no hospital, esperando que a situação se acalmasse. Houve noites em que fomos obrigados a passar horas dentro do “safe room”, uma sala na nossa casa cercada por duas paredes, equipada com rádio satélite, água e comida pra uma semana. Depois de uma dessas noites agitadas, cedo pela manhã eu tinha que saber como estava o clima na cidade, pois uma equipe de 60 pessoas e mais de 100 pacientes esperavam a confirmação de que as atividades do hospital poderiam ser retomadas normalmente. A única forma de saber se a cidade estava mais calma era ligar para as autoridades e para os grupos armados e, em seguida, dar uma volta para “medir a temperatura” da situação.

Numa dessas manhãs, após várias tentativas fracassadas de falar com os grupos armados, resolvi dar uma volta de carro na cidade, para sentir o clima. Começamos pelo mercado de Carnot, lugar geralmente agitado, com muito movimento. Ninguém no lugar, todas as lojas fechadas. Fomos então à igreja, onde estavam os muçulmanos. A rua onde fica essa igreja é uma das mais movimentadas da cidade. Nesse dia, não havia ninguém. Havia, porém, barreiras das tropas da União Africana, muitos homens armados até os dentes, carregando caixas e mais caixas de munição em suas picapes. Enquanto passava por ali, um grupo de dez soldados da União Africana para o meu carro e mostra um deles feridos por bala no braço. Estavam muito nervosos e diziam que iriam contra-atacar. Péssimo sinal. Naquele momento, mandei uma mensagem por rádio para nossa central pedindo para que ninguém saísse de casa, que o escritório não funcionasse pela manhã e que todo o movimento de veículos fosse cancelado. Antes de ir para casa, quis passar no hospital, que ficava a 300 metros dali, para ver se entre os pacientes que haviam chegado baleados da noite anterior, algum era membro ou combatente dos anti-Balaka. Essa informação era de suma importância, para saber se corríamos o risco de uma invasão no hospital. Durante essa visita rápida, enquanto percorria a sala de urgência junto com o chefe do hospital e conhecia os pacientes, uma rajada de metralhadora muito próximo dali nos faz pular de susto. Durante uns cinco segundos, queríamos acreditar que não tinha sido tão perto, e que não iria continuar. Infelizmente, não foi assim. Durante os dez minutos seguintes, fomos obrigados a deitar no chão do hospital – médicos, pacientes e funcionários. Nesse momento, eu estava em uma parte alta do terreno do hospital e tinha a visão geral do lugar. Eu nunca vou esquecer a cena que hoje me passa em câmera lenta na cabeça, de ver todos correndo de um lado pro outro, mães com filhos no colo, enfermeiros de jaleco, crianças, e também os moradores da vizinhança, que corriam em direção ao gramado do hospital em busca de segurança. Toda essa correria acompanhada por uma sinfonia de rajada de metralhadoras, tão próxima que fui obrigado a aumentar o volume do meu rádio ao máximo para poder me comunicar com a central e com meu outro colega que estava escondido na pediatria. Eu me sentia um pouco anestesiado ao ver aquilo tudo, como se o surrealismo daquela cena me fizesse duvidar que aquilo estivesse realmente acontecendo. Senti-me como se estivesse em um daqueles filmes e documentários de Ruanda em 1994, quando uma onda de genocídio assolou o país. Depois de alguns minutos de muitos tiros, fechamos as portas do hospital, fugimos de carro para casa à toda, onde nossa equipe nos aguardava ansiosamente para nos receber com abraços aliviados. Soubemos depois que o tiroteio não tinha sido dentro do hospital, mas na rua logo atrás dele, e tinha acontecido entre soldados da União Africana e milícias anti-Balaka.

Um pedido de cessar-fogo em meio ao fogo cruzado

Após três dias de intensos tiroteios na cidade entre as milícias anti-Balaka e as tropas da União Africana, o número de pacientes feridos por bala se acumulava em nosso hospital. Dois deles precisavam de cirurgias complexas que não poderíamos fazer no nosso bloco cirúrgico. Eles tinham que ser transferidos de avião até Bangui, caso contrário morreriam em nossos leitos. O transporte desses pacientes até o aeródromo da cidade era muito arriscado, pois a estrada que levava até lá passava pelos lugares mais perigosos da cidade: a igreja e o mercado. Com as ruas da cidade vazias e com o tiroteio intenso, esse transporte era impraticável. Foi aí que a coordenadora-geral do projeto, baseada em Bangui, me sugeriu por telefone pedir um cessar-fogo aos dois lados combatentes no período entre o pouso e a decolagem do avião, que viria de Bangui. No primeiro momento, achei que ela estava louca de sugerir algo desse tipo; achei que eles ririam da minha cara e que aquele plano nunca iria funcionar. Pois bem, eu tentei. Liguei primeiro para o capitão das tropas da União Africana e pedi que durante o período entre 12h00 e 13h00 recuassem seus homens para fazermos o transporte de dois pacientes por avião. Para minha surpresa, ele me disse que se eu falasse com a milícia anti-Balaka e eles também estivessem de acordo com o cessar-fogo, ele recuaria seus homens. Além disso, ofereceu escolta da ambulância até o aeródromo, oferta que educadamente recusei. MSF não aceita qualquer tipo de proteção armada. Em seguida, liguei para o chefe dos anti-Balaka pedindo o mesmo. Para minha surpresa ainda maior, ele também não hesitou em nos conceder o cessar-fogo e também ofereceu escolta! Claro que tive que recusar, com muita diplomacia e explicações. Nos preparamos, então. Tudo tinha que ser muito bem coordenado: o pouso do avião, o transporte dos dois pacientes e os veículos. Não tínhamos tempo a perder nem podíamos admitir atrasos ou falhas. Às 11h30 estávamos no hospital, já com os pacientes dentro da ambulância, esperando o sinal de rádio do piloto do avião para começarmos o trajeto até o aeródromo de forma coordenada. A ideia era chegarmos ao mesmo tempo que o avião ao aeródromo, para evitarmos uma exposição excessiva e, principalmente, para não passarmos do horário das 13 horas, fim do cessar-fogo que nos fora concedido.

Quando o avião nos avisou por rádio que chegaria em 15 minutos, começamos o trajeto de 3 km mais longo da minha vida. Éramos obrigados a andar muito devagar, pois os pacientes estavam muito sensíveis e as ruas esburacadas poderiam piorar o estado de saúde deles. Na cidade de Carnot, ninguém nas ruas, nem sequer uma galinha. Um silêncio assustador. Talvez mais assustador que os próprios tiros dos fuzis. Percorremos o trajeto lentamente. Passamos em frente à igreja, onde normalmente há muitos soldados, e não havia ninguém. Em seguida, percorremos o caminho do mercado, onde em geral há muito movimento, e não havia nenhuma alma viva. Chegamos então ao aeródromo, no horário exato, em perfeita coordenação com o piloto. Ao pousar, o avião sequer desliga as hélices; apenas abre a portinhola lateral tempo suficiente para que pudéssemos subir os pacientes em macas e colocá-los de forma segura dentro da aeronave. Uma operação que não durou muito mais do que dez minutos. Em seguida, a portinhola se fecha e o avião decola rapidamente em direção a Bangui. Olho em torno da pista onde geralmente há muitos curiosos, principalmente crianças, e hoje não havia sequer uma pessoa. Uma cena estranha de se ver. Subimos, então, em nossos veículos e partimos diretamente para casa, dessa vez o mais rápido possível, pois essa operação só poderia ser considerada um sucesso depois que estivéssemos todos sãos e salvos em casa. Felizmente, tudo deu certo. Não escutamos nenhum tiro, ninguém nos perseguiu e nem houve ameaça à nossa ambulância. Chegamos em casa aliviados e contentes de termos salvo duas vidas com um pedido improvável de cessar-fogo. Infelizmente, algumas horas depois, os dois lados desse conflito retomaram suas atividades de rotina e tivemos uma noite repleta de muito tiroteio. Apesar disso, para nós ficou claro o respeito que MSF tem na cidade, de todos os lados. A partir desse dia, apesar da situação muito tensa na cidade, sabíamos que estávamos, de certa forma, imunes a esse conflito, que éramos respeitados por todos, e que poderíamos trabalhar com segurança, na medida do possível.

A cólera coletiva e um massacre no hospital

Já quase no fim da minha permanência no projeto, vivi um dos dias mais tristes desde que entrei para MSF. Em uma manhã que se mostrava calma, um muçulmano decidiu sair da igreja onde estava para ir ao mercado. No caminho, encontrou jovens anti-Balaka e sofreu agressões com golpes de machetes no meio da rua. Felizmente, seus ferimentos foramsuperficiais e nossos médicos conseguiram curá-lo rapidamente com alguns pontos no hospital. Ao mesmo tempo, do outro lado da cidade, as tropas da União Africana acabavam de atirar em um combatente anti-Balaka. Esse homem é transportado também para o nosso hospital e, infelizmente, sucumbe aos ferimentos e morre alguns minutos depois. A presença de muçulmanos e combatentes anti-Balaka ao mesmo tempo no hospital é sempre algo muito delicado. Ao sabermos da morte do combatente anti-Balaka em um de nossos leitos, resolvemos dar alta ao paciente muçulmano, que já tinha tomado os pontos e estava pronto para sair. Ele entrou em nossa ambulância para ser transportado de volta à igreja junto aos outros deslocados. Infelizmente, foi tarde demais. Quando nossa ambulância começava a andar, o motorista foi surpreendido por um grupo de 100 pessoas que acabavam de entrar no hospital. Estavam muito nervosos com a notícia da morte do companheiro anti-Balaka. Resolvem, então, vingar a morte do amigo. Param a ambulância, abrem a porta e retiram nosso jovem paciente muçulmano, que não tinha nada a ver com a história. Com golpes de pau, pedra e pontapés, ele é linchado ali mesmo, na frente de nossos colegas, dentro do hospital. Enquanto o paciente agonizava, um dos agressores usa uma enorme pedra e esmaga a sua cabeça, acabando de vez com sua vida. Ficamos todos muito abalados e chocados, não só pelo nível de violência, pois o linchamento coletivo é comum na RCA, mas pelo fato de o grupo ter violado o espaço humanitário do hospital e da ambulância. Era a primeira vez que isso acontecia no país. Até então, por mais violento que fosse o conflito, ainda não havia relatos de massacres de pacientes hospitalizados ou em ambulâncias. Depois desse incidente macabro, resolvemos fechar o hospital durante três dias em sinal de protesto, e fizemos visitas a todos os bairros da cidade pedindo a conscientização da população para respeitar o espaço humanitário.

Após esse acontecimento, Sylvain, o chefe anti-Balaka com quem mantive contato por todo esse tempo, foi preso pelas tropas da União Africana e enviado para outra parte do país. Algumas semanas depois, recebi notícias dele, que estava em nosso hospital em Bangui. Fora torturado, ficou cego de um olho e teve os tendões das pernas cortados, impedindo que caminhasse para o resto de sua vida. A coordenadora-geral do projeto em Bangui me disse que ao encontrá-lo no hospital ele perguntara por mim, queria saber se eu estava bem. Eu tive um sentimento confuso ao saber que uma pessoa com quem eu tive um contato intenso durante todos esses meses estava naquele estado. Confuso pois estava triste com a notícia. Essa relação entre duas pessoas que estão ali representando diferentes instituições pode se tornar afável e beirar uma amizade nos momentos em que esquecemos das brutalidades que esses grupos armados cometem.  

Hoje eu carrego, e sempre vou carregar, a incompreensão sobre tamanha violência em tamanha escala, pois Carnot é apenas uma pequena amostra do que se passa no resto do país. Durante seis meses, eu tentei ao menos me colocar no lugar deles, dos combatentes, tentando, nem que por um segundo, compreender tamanho ódio. Não consegui, nem por um segundo, e creio que nunca vou conseguir. Aprendi nesse projeto a apertar a mão do diabo e saber conviver com ele, aceitando que sua existência e seus atos vão além do meu controle e que nós, de MSF, estamos ali para os pacientes e a população desamparada. Nossos sentimentos pessoais estão em segundo plano, e aprendi que não posso mudar o mundo.

A República Centro-Africana é um país que marca, que deixa feridas abertas, que talvez nunca sejam fechadas, e perguntas, que talvez nunca sejam respondidas.