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República Centro-Africana: um país que deixa marcas

16/12/2014

Depois de ter passado pelo Haiti e pela Síria, desembarquei na República Centro-Africana por seis meses para a minha terceira participação em projeto de MSF, em março de 2014. Com certeza, seria a mais desafiadora delas, pois, além de tocar a administração do projeto, tive que fazer o papel de coordenador após a saída precoce da nossa coordenadora.

A República Centro-Africana sempre foi um país muito pobre e politicamente instável e que hoje vive um dos piores conflitos étnicos religiosos do mundo. O país está, a grosso modo, divido entre cristãos e muçulmanos. Cada lado representado por sua milícia armada. Os Seleka do lado dos muçulmanos e os anti-Balaka do lado dos cristãos, ambos conhecidos pela extrema brutalidade com que atuam. Esses dois grupos estão em guerra há quase dois anos e entre estupros, decapitações e chacinas de vilarejos inteiros, os relatos de barbárie são inúmeros. A cidade de Carnot, onde fiquei, é de predominância cristã, por isso os anti-Balaka são maioria. Os muçulmanos que não conseguiram fugir da cidade hoje vivem em condições insalubres e sub-humanas nas dependências da igreja católica da cidade graças à coragem do padre local, que arriscou sua própria vida para proteger esse grupo de mais ou menos mil pessoas.

O cenário no país é desolador. Instituições governamentais são inexistentes ou funcionam de maneira muito precária. Na cidade de Carnot, não havia mais tribunal nem prisão, que fora incendiada e os presos fugiram. A polícia era composta de seis homens para uma cidade de 50 mil pessoas. Apenas quatro tinham armas. O prefeito da cidade ia à pé da prefeitura à sua casa por falta de veículo. A cidade não tinha energia elétrica, nenhuma mesmo, nunca. O único hospital de Carnot era mantido por MSF. Para reforçar a segurança, as tropas da União Africana estavam na cidade com seus tanques e suas Kalashnikovs de gatilho ligeiro estacionados em frente à igreja para evitar mais um massacre.

Enquanto coordenador de projeto de MSF, fazia parte da minha rotina estar em contato com todos esses atores, as autoridades locais – prefeitos e governadores, por exemplo - e também todos os grupos armados, sejam eles considerados dentro ou fora da lei. Em meio a um conflito selvagem como esse, é importante estar bem informado sobre a situação de segurança da cidade. Além disso, passar a mensagem de neutralidade e imparcialidade de MSF é uma atividade constante e incessante, uma vez que, em um país divido em dois, tratar pacientes de ambos os lados do conflito pode gerar muita frustação para os grupos armados. É preciso muita diplomacia e uma comunicação intensa com todos os grupos.

O meu primeiro encontro com os anti-Balaka

 Logo nos primeiros dias em que assumi interinamente o papel de coordenador de projeto em Carnot, uma casa onde moravam três colegas MSF foi invadida no meio da noite por um grupo de anti-Balakas armados. Eles acusavam os colegas de esconderem muçulmanos na casa, e queriam entrar para executá-los. Um dos colegas, depois de muita conversa, convenceu o grupo de que não tinha ninguém escondido na casa, e eles acabaram indo embora. Não dava mais para enrolar; eu tinha que encontrar o chefe desses caras antes que algo pior acontecesse com minha equipe. Na manhã do dia seguinte, resolvi enfrentar a fera e desembarcar no “escritório” anti-Balaka de Carnot para me apresentar. No caminho para lá, eu me perguntava o que diabos estava fazendo ali. Poderia estar em Minas, tomando um cafezinho e comendo um bolo de fubá, olhando as montanhas verdes do meu estado. Mas não. Estava, por livre e espontânea vontade, onde Judas perdeu as botas, em um dos países mais desconhecidos da África, prestes a encarar um grupo armado conhecido pela sua brutalidade – ainda não encontrei a resposta por essa pergunta, por sinal. Entretanto, essa reflexão foi rapidamente postergada, pois tinha chegado ao local e precisava de toda a concentração do mundo. Estava ali para transmitir a mensagem correta como representante de MSF, ser firme e diplomático ao mesmo tempo, e tudo isso em francês. Coração a mil por hora. No meio de uma favela de Carnot, chego em frente ao barraco onde funcionava o escritório anti-Balaka. Na porta, uns 20 homens, até então desarmados que com aspecto nada amigável, olhavam curiosamente o que aquele branco esquisito estava fazendo ali. Apresento-me, digo que represento MSF e peço para ver o chefe. Sem muita hesitação, me levam para dentro do imóvel. Entro numa sala escura, com paredes encardidas e com uma grande bandeira centro-africana pendurada. Na sala, havia uns 15 homens, duas motos que escondiam alguns fuzis de caça e umas kalashnikovs encostadas na parede, além de um grande banco de madeira e um sofá mais confortável, onde se sentava o chefe. Seu nome era Sylvain. Ele vestia um terno, um colar de ouro e óculos escuros tipo aviador made in China. Pediu-me pra sentar ao seu lado. Obedeci como um hóspede bem educado. A sala inteira me olhava. Começamos uma conversa bastante protocolar, cada um se apresentando com frases prontas que definiam nossos respectivos grupos. Eu: “Bom dia, meu nome é Fábio, sou coordenador de MSF na cidade. A organização está aqui para dar assistência humanitária à população de maneira neutra e imparcial, etc, etc. Ele: “Bom dia, meu nome é Sylvain, sou chefe dos anti-Balaka dessa cidade e nosso grupo está aqui para limpar a região dos falsos centro-africanos, etc, etc.”

Fez questão de me apresentar cada combatente do seu grupo e iniciamos uma conversa franca. Eu disse que era inadmissível que os empregados de MSF fossem incomodados e tivessem suas casas invadidas, que não escondíamos ninguém em casa e que nosso único objetivo era tratar as pessoas e fazer funcionar o único hospital da cidade. Ele concordou totalmente e me prometeu que aquilo não iria mais acontecer, pois MSF já tinha salvo muitas vidas da sua família e de seus combatentes também. Além disso, afirmou que nossa presença era fundamental na cidade e que não me preocupasse mais com esse tipo de deslize. Dali em diante, o papo ficou um pouco mais descontraído, falamos um pouco de futebol (um brasileiro na África não escapa desse tipo de conversa, em nenhuma situação), apertamos as mãos e fui embora, são e salvo. Esse foi o primeiro de muitos encontros que eu teria com o chefe dos anti-Balaka ao longo da minha permanência na RCA.