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Rep. Democrática do Congo: primeiras impressões

Um (não tão...) novo caminho
10/06/2016
Rep. Democrática do Congo: primeiras impressões

Foto: Arquivo Pessoal

20/05/2016 - Depois de um longo percurso (e alguns imprevistos) de 13 dias em direção a Lulimba, na região de Kivu do Sul, na República Democrática do Congo, eu cheguei!

Sou Ananda, brasileira, 35 anos. Minha especialidade é desenvolvimento comunitário, tema com o qual venho trabalhando há cerca de 13 anos e pelo qual sou apaixonada. Desta vez, estou voltando para a área de ajuda humanitária e é nela que pretendo seguir desenvolvendo minha carreira. Também já trabalhei com educação, pesquisa acadêmica, comunicação social e licenciamento socioambiental.

Já estive em outros países africanos (Guiné e Angola) e esta é a minha 7a vez no continente, sempre a trabalho. Comecei há um mês a minha terceira participação de quatro meses em um projeto com Médicos Sem Fronteiras em Kivu do Sul. Também realizei um estudo para MSF no Brasil em 2013.

Fotos: arquivo pessoalFui muito bem recebida por aqui pelos colegas, nacionais e internacionais.

Sou consultora de Informação, Educação e Comunicação (IEC) de dois projetos, entretanto, estou focada apenas em um deles por enquanto. Aqui, MSF apoia um hospital desde 2011 (em Lulimba) e três centros de saúde na região (em Lulimba, Misisi e Lubondja), além de nove postos de atendimento (os centre de soins), que estão mais concentrados na luta contra a malária. Todas essas estruturas estão sob a responsabilidade do Escritório Central do Ministério da Saúde da RDC.

Comecei o projeto passando pouco mais de uma semana em Bukavu, a capital da região de Kivu do Sul. Lá tive diversas reuniões, de transferência de informações de meu cargo e da contextualização sobre o projeto.

As necessidades em relação à minha área aqui são muitas e se traduzem em promover a saúde junto à população. As carências em relação ao HIV/Aids são significativas e o projeto atribui uma atenção especial ao tema. Em Msisi, a maior cidade da região, MSF realiza um trabalho mais profundo com pacientes portadores de HIV e tuberculose dando apoio ao centro de saúde. Em paralelo, uma clínica chamada Jamaa Letu (‘nossa família’, em suaíli) com foco na saúde da mulher foi estabelecida em 2014 também com o apoio de MSF em Misisi, uma necessidade importante na região. Misisi é conhecida pela atividade minerária, o que reforça a circulação de população e, por consequência, o número de casos de HIV junto a grupos mais vulneráveis (mineiros, profissionais do sexo, dentre outros). Há também uma recorrência importante de casos de violência sexual e a dificuldade de abordar o tema junto à população.

Também estou desenvolvendo o plano de comunicação do projeto, que inclui o reforço das mensagens em relação à transferência da gestão do hospital em Lulimba de MSF para o Ministério da Saúde. Depois de quase cinco anos, a hora de realizar este repasse chegou, e nunca é fácil responder às perguntas da população sobre essa mudança de estratégia. Após a transferência da gestão do hospital, MSF continuará a apoiar essa estrutura de forma limitada e com foco especial nos pacientes mais vulneráveis. Os centros de saúde e os postos de atendimento seguem também com nosso apoio, inclusive com algumas previsões de expansão. É  importantíssimo que a comunicação em torno deste processo seja feita com cuidado e que envolva todas as esferas da população local, para que exista também a compreensão da natureza do trabalho humanitário, que volta as ações de MSF para contextos de maior urgência. A equipe IEC tem realizado uma série de reuniões, encontros e apresentações teatrais com diferentes grupos sociais, comunitários e também com as autoridades locais para reforçar este momento, esclarecer dúvidas e manter a comunicação aberta. A reputação de uma instituição, seja ela humanitária ou não, repousa em sua história e em sua postura junto à população local, nos momentos bons e de desafios.

Em um mês de projeto, posso dizer que a perspectiva de tempo é super intensa e que tenho, mais uma vez, a impressão de uma imersão. Entretanto, vivenciar esta segunda experiência de campo com Médicos Sem Fronteiras faz uma grande diferença em como lidar com este contexto todo novo: tem sido mais doce me adaptar culturalmente, entender o tempo do outro, morar e viver com os colegas de trabalho, respeitar os desafios de um novo contexto social e saber divertir-se também. Sempre podemos crescer com plenitude… É um aprendizado e, em seguida, uma escolha de cada um de nós.