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Primeiras impressões de Bo, em Serra Leoa

02/04/2013

Bo, 2 de abril de 2013

E, então, começou meu segundo projeto com Médicos Sem Fronteiras, em Bo, Serra Leoa.
No início, estava um pouco apreensiva para saber o que iria encontrar quando chegasse aqui e, é claro, não foi nada muito diferente daquilo que imaginava: pobreza e mais pobreza... Pra ser sincera, demorei a escrever porque não sabia como colocar em palavras os meus sentimentos; não queria passar uma ideia de coisas muito tristes. Mas, infelizmente, estamos em um lugar onde a mortalidade infantil é uma das mais altas do mundo e, segundo um documentário exibido pela BBC há alguns meses, "Serra Leoa é o pior lugar para se nascer no mundo". Ou seja, como que eu vou tentar passar uma imagem distorcida daqui se a realidade é essa?

O hospital onde trabalho (GRC – Gondama Referral Centre) foi inaugurado em abril de 2003 e, desde então, fornece cuidados de saúde de emergência, tanto pediátrico quanto obstétrico. Hoje, com mais de 225 leitos, 550 profissionais nacionais e 30 estrangeiros, fica aberto 24 horas por dia, sete dias por semana e presta assistência secundária e terciária a gestantes, neonatos, crianças de até 15 anos - todos com problemas gravíssimos de saúde – e, ainda, vitimas de violência sexual. O GRC também oferece reabilitação nutricional em casos de desnutrição severa, por meio de um Centro de Alimentação Terapêutica.

A maioria das crianças admitidas no GRC chega inconsciente (em choque) por causa da malária grave - ou cerebral. Primeiramente, elas são atendidas na sala de emergência e, estabilizadas e, então, são transferidas para outras unidades: TFC (desnutridos severos), C1 (0 a 1 ano), C2 (1 a 2 anos), C3 (2 a 3 anos), C4 (3 a 4 anos), C5 (4 a 5 anos), neonatos e ICU (cuidados intensivos). No caso das gestantes, elas são encaminhadas para o centro cirúrgico obstétrico. Para atender à demanda, nossa equipe conta com um médico intensivista, 4 pediatras, 2 enfermeiras pediátricas, 3 obstetras e toda a equipe paramédica que fornece suporte à equipe médica - e é aí que eu me incluo. É gente de todos os cantos do mundo: Chile, México, Brasil, Canadá, EUA, Espanha, Alemanha, Bélgica, França, Inglaterra, Itália, Noruega, Dinamarca, Burundi, Quênia, Paquistão, Filipinas, Indonésia... Mas, daqui a pouco, tudo muda; uns vão, outros vêm...

Nosso dia a dia é uma loucura! Em janeiro, foram admitidos 898 pacientes e a estação das chuvas ainda nem começou... A previsão é de recebermos em média 2.000 pacientes a partir do mês que vem. Como eu disse, os casos mais graves que atendemos são relacionados à malária e desnutrição, mas a maioria dessas crianças não tem só malária. É, na verdade, uma mistura de coisas... Como são mal nutridas, o organismo não consegue se defender sozinho e, então, é superfácil terem algum tipo de infecção, principalmente pneumonia, HIV, tuberculose, meningite... Tudo isso + malária = sérias complicações. A equipe trabalha muito, dia e noite, lidando sempre com situações bem extremas, muitos casos entre vida e morte. E, no meu caso, mesmo não trabalhando diretamente com o paciente, fica impossível não me envolver ou vivenciar algumas dessas situações. De certa forma, faço parte e acompanho de pertinho essa dura realidade.

Mas eu amo estar aqui, onde me sinto absolutamente realizada, oferecendo o melhor de mim e da minha profissão. Eu não sou a única farmacêutica do projeto, mas a única do hospital. O outro farmacêutico trabalha no escritório e é responsável pelo estoque geral do projeto (que inclui outras instalações além do hospital). E, assim, posso dedicar todo o meu tempo às atividades relacionadas ao GRC. E é exatamente isso que eu mais amo!

Estou aqui para assegurar que medicamentos de qualidade cheguem a todos os nossos pacientes, que não haja ruptura ou falhas no estoque do hospital, bem como organizar os pedidos mensais para reposição desse estoque. Além disso, é minha responsabilidade prover todo o suporte técnico, o que inclui treinamentos e visitas frequentes a todas as unidades com o objetivo de garantir o bom gerenciamento na distribuição e no correto uso de medicamentos e correlatos. E todos adoram as minhas visitas! Assim podem esclarecer dúvidas, propor melhorias... É mais fácil encontrarmos soluções juntos e, de quebra, posso estar perto dos ‘pacientinhos’ de que tanto gosto. Diariamente, passo pelas alas mais críticas para dar bom dia para os pequenos e suas mamães. Às vezes, saio com lágrimas nos olhos, mas, no fundo, fico feliz por estar ali fazendo a diferença.

Diferentemente de Nagaland, aqui as crianças são loucas pelos 'pumwi' (homem branco) e quando nos vêem na rua correm como uma avalanche pra cima da gente; querem pegar nas nossas mãos, beijá-las, e seguem agarrados assim por longos metros. E, quando desgrudam, logo aparece outro time pra fazer o mesmo. Uns amores! Esses dias cruzei um campinho de futebol pra cortar caminho e acho que devia ter umas 10 crianças agarradas nas minhas pernas, cinturas e mãos... Pena que eu não estava com a minha câmera para registrar o tal momento... Foi bem divertido!

Não tenho a menor dúvida de que o trabalho que MSF desenvolve aqui é de uma importância sem fim. Esse é o único hospital especializado em saúde de emergência de nível secundário e terciário e o mais importante: totalmente gratuito.

Um grande abraço e até a próxima!
Fran