Você está aqui

Plantando as sementes para o futuro

O pediatra Carlos Lima fala sobre seu trabalho em Serra Leoa e o treinamento dos profissionais locais
18/05/2018
Plantando as sementes para o futuro

Foto: acervo pessoal

Kushe!*

Minha chegada ao projeto

Em 30 de janeiro cheguei a Baama, uma vila adorável e bastante quente nesta época do ano, onde se encontra a sede do projeto. A população é extremamente simpática e sempre se alegram e cumprimentam quando veem alguém de MSF – o que não é difícil de identificar, já que somos os únicos “pumuwi” (homem branco em krio) das redondezas. Em pouco mais de uma semana muitas pessoas já me chamavam pelo nome, em especial as crianças! A língua oficial do país é o inglês, mas no dia-a-dia a maioria da população fala principalmente o krio (uma “versão africana” do inglês), mende ou tenme; 20 línguas diferentes coexistem em Serra Leoa.

No momento, além de mim, há outros oito profissionais internacionais de MSF de diversas nacionalidades. Nos dividimos em duas casas, a “farm house” (casa da fazenda) e a “city house” (casa da cidade), que apesar dos nomes se encontram a menos de 200 metros de distância uma da outra. Diferente do que eu imaginava antes de conhecer MSF, eu sou o único médico entre os profissionais internacionais; há também um enfermeiro (meu supervisor) e um obstetriz. Arrisco dizer que não seja diferente na maioria dos projetos: para que nosso trabalho aconteça, precisamos do suporte e expertise de inúmeros outros profissionais das mais diversas áreas não-médicas, como especialistas em RH, economistas, epidemiologistas, antropólogos, arquitetos, sejam eles profissionais internacionais ou nacionais.

Panorama da saúde em Serra Leoa

Depois de 11 anos (1991-2002) de guerra civil, Serra Leoa teve a infelicidade de sofrer mais um golpe do destino durante um surto de Ebola entre 2014 e início de 2016, com pouco mais de 14 mil casos confirmados e 3.955 mortes. Entre os mortos se encontravam 10% dos profissionais de saúde do país à época, o que ajudou a minar ainda mais o já frágil sistema de saúde. Em 7 de março de 2016, felizmente, o país foi considerado livre da doença.

Muitas das organizações internacionais que viram seu papel cumprido no combate à epidemia saíram de cena após a erradicação do vírus. O país, entretanto, precisou continuar a “tocar o barco” e, dessa forma, contar com o sistema de saúde que, se outrora era cronicamente problemático, agora estava em frangalhos. Nesse contexto, MSF, que tem estado presente em Serra Leoa desde 1986, implementou dois projetos na tentativa de ajudar na reconstrução e melhoria no longo prazo dos serviços de saúde no país. Em Kenema, segunda maior cidade do país, MSF está construindo um hospital materno-infantil com previsão de ficar pronto até o fim deste ano; e em Baama, onde agora me encontro, MSF dá suporte às atividades do Ministério da Saúde.

O acesso grátis à saúde em Serra Leoa foi implementado pelo governo apenas em 2010, eximindo mulheres grávidas, lactantes e crianças com idade inferior a 5 anos de quaisquer taxas de pagamento durante consultas, partos, acesso a medicamentos ou vacinas. Para os cidadãos que não se encaixam nesses critérios, a saúde é sempre paga. Dessa forma, as pessoas se acostumaram a adiar a ida aos centros de saúde e hospitais, preferindo recorrer a remédios caseiros, farmácias privadas ou curandeiros locais – a crença de que as doenças estão dentro de um contexto espiritual é muito forte mesmo entre diferentes religiões. Infelizmente, em alguns casos a procura por ajuda médica acontece quando já não há muito o que fazer pelo paciente.

A mortalidade materna e infantil em Serra Leoa é elevadíssima, sendo a primeira estimada em 1900/100.000 nascidos vivos e a segunda em 120/100.000 nascidos vivos. Para efeito de comparação, a OMS (Organização Mundial de Saúde) preconiza uma taxa de mortalidade materna menor que 70/100.000 e de mortalidade de menores de 5 anos abaixo de 25/100.000. Não à toa essas são as populações-alvo do Ministério da Saúde e de MSF. As crianças morrem principalmente devido à malária (endêmica no país) e suas complicações, assim como doenças respiratórias e diarreia. Além da demora na procura pelos serviços de saúde, o acesso, mesmo que grátis, nem sempre é fácil, seja pela distância, seja pela péssima condição da maioria das estradas nas vilas mais afastadas da capital.

Por que Baama?

A escolha de Baama como sede para o projeto de MSF foi estratégica. Ela é uma vila que se situa estrategicamente entre de duas chefaturas, Gorama-Mende e Wandor, bem como a meio caminho das nove unidades de saúde primária da região. A 15 minutos andando da nossa casa, a “farm house”, fica o Centro Comunitário de Saúde, uma estrutura também de atenção primária, mas com um pouco mais de recursos para o manejo de casos mais complicados e graves. Neste centro, acontecem as consultas (adultos e crianças); vacinação; atendimento e estabilização de pacientes graves; diagnóstico e seguimento de pacientes com tuberculose, HIV/Aids e desnutrição; além de cuidados com ferimentos. Em uma estrutura anexa, a maternidade, são realizadas as consultas de pré-natal, planejamento familiar e os partos de baixo risco. Recebemos pacientes transferidos de outras Unidades de Saúde Primária e transferimos os pacientes mais graves que necessitam de cuidados hospitalares para os hospitais secundários da região.

Meu principal objetivo como pediatra é capacitar e trabalhar junto aos profissionais de saúde locais para que eles consigam, de forma sustentável e tecnicamente adequada, continuar a oferecer seus serviços à população após o encerramento do projeto, que está previsto para 2021. Atualmente trabalho com mais quatro pessoas, todas contratadas do Ministério da Saúde, com foco nas crianças menores de 5 anos, mulheres grávidas e lactantes. Não há hierarquia entre nós, sendo uma relação essencialmente horizontal e de mútuo aprendizado e troca de experiências.

Como formar um médico é caro – aqui as faculdades são todas pagas, mesmo as públicas – e requer certo tempo – sete anos de graduação, segundo soube –, a maioria das unidades de saúde primária contam com um CHO (Clinical Health Officer – algo como profissional de saúde clínica), profissionais que durante dois anos recebem treinamento técnico em medicina, focado principalmente nas doenças prevalentes no país. Quanto ao CHO com quem trabalho, creio que será bastante útil ajudá-lo na melhoria de suas habilidades quanto à triagem, exame físico, elaboração de diagnósticos diferenciais, tratamento e transferência.

Me adaptei muito bem à equipe e acho que o contrário também aconteceu. Desde o início eles ficaram bastante satisfeitos por verem alguém colocando a mão na massa ao invés de apenas dar ordens. Sinto que consegui conquistar um pouco da confiança dos meus colegas.

Nos 3 meses que estou aqui tive vários casos de pacientes graves que necessitaram de transferência para o hospital do governo, a maioria com malária grave, mas também com pneumonia e desnutrição grave. Felizmente muitos pacientes retornam após a alta e nem parecem que estiveram doentes recentemente. Algo sempre me encantou na pediatria: a capacidade de recuperação das crianças, de “sair pulando” do hospital. E por falar em crianças, andar nas ruas de Baama é uma delícia porque por todos os lados as crianças começam a acenar e gritar “hello” (olá) quando nos veem, sempre acompanhado de um “what is your name?” (qual o seu nome?), mesmo os bem pequenos que mal sabem falar. Os maiores também curtem um “high five” e vez ou outra pedem para ser fotografados.

Às vezes é difícil segurar a ansiedade, principalmente vindo de uma pessoa com formação em emergência pediátrica como eu, que geralmente precisa de tudo “pra ontem”... Mas “slow-slow” (devagar, devagar), como se diz aqui, vou tentando plantar algumas sementes para que os frutos sejam colhidos num futuro próximo, mesmo depois de eu ter ido embora.

A de go naw!**

* “Olá” em krio
** “Agora vou embora” em krio