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Os campos de morangos da Palestina

A médica Raquel Bandeira fala sobre sua experiência na Faixa de Gaza
23/08/2019
Os campos de morangos da Palestina

Foto: Arquivo pessoal

A Faixa de Gaza é um pequeno e barulhento pedaço de terra, de 41 km de comprimento. Quando paro um pouco das minhas atividades para respirar, tomar um café ou escrever esse diário escuto o som que vem da rua. Distante um caminhão de gás toca “Pour Elise” e suas notas se misturam aos sons de drones, buzinas e vozes de crianças brincando. No começo o barulho me deixava louca, mas sei que sentirei saudade em breve.

Ao cruzar os muros que separam o lado de Israel e a Faixa de Gaza me sinto entrar numa prisão. Muros altos, arame farpado e soldados armados. Tenho a mesma sensação de quando trabalhava como voluntária em um presídio em Belo Horizonte e escutava o barulho da tranca da cela fechando atrás de mim. Como se por um segundo o coração parasse de bater, a respiração falhasse e o chão se abrisse. Descrença na humanidade, na capacidade de amar o próximo, de conviver com o mistério das coisas e a beleza da vida, é assim que me apresento a esse pequeno pedaço de terra: despida de ilusões e encantamento.

Quase todos palestinos que conheci se lembram dos bombardeios de 2008, 2012, 2014, 2018 e 2019, que custaram a vida de civis e causaram danos até hoje irreparáveis a infraestruturas da cidade e das almas. Em conversas de um almoço cotidiano, na lanchonete perto do hospital, meus colegas médicos palestinos me contam com sombras nos olhos a dor de ter que escolher quem vive e quem morre. Porque, por mais que deem tudo de si, nada disso basta se faltam material cirúrgico, remédios e leitos de hospital.

Pensando assim, seria de se construir a imagem do palestino como um povo duro e frio. Estranhamente, é o oposto. Poucas vezes experimentei tanta doçura. Não passa um dia em Gaza que eu não ganhe um presente de algum dos meus colegas palestinos. Um chocolate, uma bala, um lenço. Comentei sem pretensão que gostava de cappuccino e agora sempre que atendo no ambulatório de osteomielite de umas das clínicas de MSF tomo uns quatro cappuccinos até o fim do expediente. Todos os dias, me esforço para dizer um bom dia em árabe com um terrível e carregado sotaque só para ter como resposta um sorriso aberto.

A faixa de Gaza está sob bloqueio israelense há 11 anos. Possui cerca de 65% da sua população abaixo da linha da pobreza e 1,2 milhão de pessoas que vivem em condições sub-humanas. Energia elétrica apenas quatro horas por dia e o combustível é escasso. Devido à crise de abastecimento é necessário priorizar serviços de saúde, o que torna praticamente inexistentes serviços essenciais como incubadora neonatal, ventiladores mecânicos, máquinas de hemodiálise e laboratório de microbiologia, entre outros. Banco de sangue também não existe devido à incapacidade de guardar os produtos em decorrência das constantes quedas de energia elétrica. O fornecimento de água também é precário: apenas de três a cinco horas por dia. Em 2020, 100% do aquífero de Gaza estará  indisponível para consumo, porque o mar está invadindo as reservas de água e não há dinheiro para reparação da estrutura. Devido ao bloqueio israelense e à crise financeira, 40% dos medicamentos essenciais da lista da Organização Mundial de Saúde (OMS) estão com seus estoques zerados. Faltam insulina, leite pediátrico, antibióticos, medicamento para dor e depressão.

Associado a essas péssimas condições de vida, no dia 30 de março de 2018, começou uma série de protestos palestinos  intitulados “Marcha do Retorno”. Como citei anteriormente, a Faixa de Gaza  é murada em toda sua extensão, como um presídio, a saída do mar também é cercada  por navios de guerra que permitem uma faixa para pesca que varia de 2 a 12 kms e o “ar”  é controlado por drones.

Toda sexta-feira, civis palestinos vão até o muro para protestar contra o bloqueio. Em resposta às pedras lançadas pelos palestinos, snipers israelenses atiram com munição de verdade. Foram mais de 190 mortos e mais de 6.500 feridos por armas de fogo, atingidos principalmente nas pernas.

É aí que entra meu trabalho. Sou médica infectologista e me dedico atualmente ao tratamento de infecções ortopédicas e resistência bacteriana. Quando o osso recebe um tiro com uma arma tão potente como um fuzil, ele espatifa e entra em contato com o meio ambiente contaminado. A taxa de infecção de uma fratura exposta grave é de cerca de 40% e, caso essa infecção não seja tratada a tempo, o risco de amputação é altíssimo. Junto com ortopedistas e cirurgiões plásticos, a nossa luta é para salvar os membros e evitar sequelas e amputações.

Mas voltemos aos campos de morangos. Quando recebi a confirmação de que eu iria para a Faixa de Gaza, já imaginei a privação de comida e conforto. A imagem que temos de fora é extremamente preconceituosa e reduzimos e definimos aquele pequeno território às guerras e aos conflitos que lá ocorreram. No meu primeiro dia, na mesa da cozinha da residência de MSF, havia uma cesta de frescos morangos vivos e vermelhos. Para ser sincera, o melhor morango que eu já comi. Indo para Khan Yunis (cidade ao sul da Faixa de Gaza), onde fica um dos hospitais onde MSF trabalha, cruzo dezenas de campos de morangos, à beira mar. E como são lindos... E quem poderia imaginar campos de morango em uma zona árida, marcada pela pobreza e pela guerra.

Para mim, o povo palestino e a Faixa de Gaza são como esses surpreendentes campos de morangos que resistem e rompem o solo árido e seco em belos horizontes à beira-mar. Eu amo o cheiro desse lugar, o pôr-do-sol na praia, o café com cardamomo, o barulho ensurdecedor que vem da rua, o “ Pour Elise” do caminhão de gás... Amo ainda mais um povo: os palestinos.  Desejo profundamente retornar a Gaza e anseio ainda mais por um tempo de paz e liberdade.

“Não esquecer que por enquanto é tempo de morango. Sim.”, Clarice Lispector.

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