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A oportunidade do recomeço

A farmacêutica Milena Radaelli conta sobre a reconstrução do hospital de MSF em Mocha, no Iêmen, atingido por um ataque aéreo
06/02/2020
A oportunidade do recomeço

Foto: Arquivo pessoal

Em agosto de 2019 embarquei para o meu terceiro projeto como farmacêutica com a organização Médicos Sem Fronteiras (MSF). Foi minha primeira experiência no Oriente Médio, precisamente em Mocha, no Iêmen. Meus dois primeiros projetos foram, respectivamente, no Sudão do Sul e em Guiné-Bissau, situados no continente africano.

O projeto de MSF em Mocha foi aberto em agosto de 2018 e surgiu da necessidade urgente de tratar pacientes que precisam de cirurgia de emergência, devido ao total colapso do sistema de saúde público do país, já que a guerra no Iêmen se arrasta por anos. Os casos admitidos mais comuns são ferimentos de guerra, pacientes que sofreram acidentes de trânsito e mulheres que necessitam de cesariana para salvar suas vidas e dos seus bebês. O hospital funciona em tendas, 24 horas por dia e 7 dias por semana.

A cidade de Mocha é localizada na costa do mar Vermelho, no oeste do país, e é altamente militarizada. Na região há muitos depósitos de armamento e minas espalhadas pelo interior do distrito.

Como farmacêutica, minha principal função neste projeto era auxiliar o supervisor farmacêutico local na gestão do estoque para garantir que todos os suprimentos médicos estivessem prontamente disponíveis para a equipe cirúrgica do hospital e que o suporte necessário fosse dado para que os pacientes recebessem atendimento de qualidade ao receber um medicamento ou qualquer outro insumo.

Foram três meses de muito progresso e êxito nas atividades. No entanto, quase no fim do meu projeto, em novembro de 2019, o hospital sofreu um ataque aéreo por míssil. Felizmente, nenhum funcionário ou paciente ficou ferido, todos foram retirados e transferidos com segurança. O hospital não era alvo e, sim, um armazém de munição localizado na proximidade. Os escritórios e a farmácia ficaram totalmente destruídos. Perdemos todos os medicamentos e insumos.

Não sei explicar o que senti naquele momento. Ver todo o nosso trabalho destruído foi muito impactante para mim e para a nossa equipe. No entanto, precisávamos de ânimo para reconstruir. Os pacientes necessitavam que reabríssemos o quanto antes, pois o hospital cirúrgico mais próximo fica a cinco horas de carro de Mocha e muitos deles não sobreviveriam à longa viagem.

Sem medicamentos e materiais era impossível exercemos qualquer atividade. Toda a equipe trabalhou muito, dia e noite, sete dias por semana, para reabrirmos o hospital: logística na reparação das estruturas, administração na recuperação de documentos perdidos e a equipe médica transferindo os pacientes para o hospital mais próximo.  Felizmente, com a ajuda de outros projetos do MSF no Iêmen, conseguimos um estoque de medicamentos básicos para recomeçarmos.

Duas semanas depois do incidente o hospital foi reaberto. Fizemos uma festa para comemorarmos essa conquista. Depois da tristeza veio o sentimento de gratidão, principalmente por ter tido a oportunidade de trabalhar com uma equipe tão motivada, empática e comprometida como aquela. Ter visto os pacientes chegando e recebendo um tratamento de qualidade, as mães tendo seus bebês em segurança e os funcionários locais com um grande sorriso no rosto não têm preço. Certamente foi um projeto que jamais irei esquecer.

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