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O sentido que faz

Lia Gomes relata uma experiência como promotora de saúde junto a um grupo de lactantes na Nigéria
12/08/2017
O sentido que faz

Foto: Acervo pessoal

Todo dia tem alguma coisa, aquela centelha, que fica na gente. Sim, claro. Tem que ser assim, senão viver perde intensidade e não dá pra ser mesmice. Há que se agarrar a isso, mesmo quando se está longe do óbvio esperado, se o trabalho é com promoção de saúde. "Mudança de comportamento no longo prazo", a gente diz. Mas o hoje foi incrível. Não teve necessariamente mudança, mas teve sentido. E resposta ali, imediata.

Esta semana foi a Semana Internacional da Amamentação - ou do aleitamento, de repente. Não estou acompanhando como se traduzem esses nomes todos para o Português mais. Não tinha como programar algo expressivo, que demandasse uma superprodução. É Médicos Sem Fronteiras e a gente realmente não reserva toda aquela grana para pequenos eventos. A criatividade precisa voar, mas nem muito longe. Uma coisinha simples, intimista, pra elas. Uma sessão com um filme educativo e uma roda de conversa entre mulheres. Sem expectativas, pelo menos de minha parte. Interessante o tanto que a gente tenta se educar a vida inteira para não se deixar levar pelas expectativas, o tempo que se investe nisso. Quando vê que, naturalmente, elas deixaram de estar ali, nem que por um só instante, é libertador. E a gente ganha asas dessa liberdade.

Sentadas ali, nos tapetes coloridos e tão respeitados por todos aqui, muitas com suas crianças no colo ou amarradas às costas, superatentas. Perturbadas por um ou outro choro estridente, mas ali, presentes. A projeção tímida, improvisada em uma lousa branca na tentativa de um pouco mais de nitidez, hipnotizava. As cabeças acompanhando, acenando positivamente com entendimento, e as mãos tocando os seios, se entendendo parte daquilo tudo. Tantas perguntas. Sorte ter uma pediatra ali, um palpite assertivo. Acaba a sessão, mas não as perguntas. Amamentar logo que nasce o bebê pode? Deve. Engravidar enquanto amamenta pode? Pode. Amamentar enquanto grávida pode? Pode. Meu primeiro leite grosso é ruim? É lindo e o mais importante. Misturar água com leite materno antes dos seis meses pode? Não pode, gente. Mas e se a gente não tiver leite suficiente? Tem que complementar com fórmula. E se não tiver dinheiro pra comprar? Vem até aqui que a gente arruma. Aí, ó. Resultado imediato. Não só porque a gente tem uma solução, mas porque a gente tem respostas para as perguntas. E recomendações, e colo - pra elas e para as crianças. Duas foram parar comigo durante a sessão. É dividir. E isso alivia. Fica evidente nas feições, o máximo passível de minha avaliação por agora. Me esforço, mas ainda não entendo as palavras todas. O alívio me pega também. Transbordou recompensa da gente. Hoje fez sentido.

Lia Gomes trabalha como promotora de saúde em Maiduguri, capital do estado de Borno, na Nigéria, desde junho de 2017, coordenando atividades de educação em saúde em dois centros de nutrição no sul da cidade. Além disso, é responsável pela equipe de agentes comunitários que monitoram a situação nutricional da população na região, encaminhando crianças desnutridas para tratamento, e levantam informações sobre vulnerabilidade.
MSF atua em Maiduguri desde agosto de 2014. Ali, a organização concentra seus esforços na oferta de cuidados materno-infantis, incluindo atenção nutricional, e monitora o acesso a alimentos, abrigo, água e cuidados médicos.