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O que faz um promotor de saúde em MSF?

Tamara Jurberg explica como a informação pode mudar a vida dos sobreviventes de violência sexual na RDC
31/08/2018
O que faz um promotor de saúde em MSF?

Foto: MSF

No Brasil, quando contava para as pessoas que partiria para trabalhar em um projeto de Médicos Sem Fronteiras (MSF), a primeira pergunta que me faziam era: “Mas você não é médica, como vai trabalhar com MSF”? Pois bem, para surpresa de muita gente, MSF é uma organização médico-humanitária internacional que trabalha com emergências. Por isso depende, em grande parte, de médicos e enfermeiros. No entanto, para que um projeto seja implementado, também necessitamos de profissionais de logística, suprimentos, administração, recursos humanos e finanças, entre outras áreas. Uma dessas outras áreas, talvez menos conhecida, é a promoção de saúde.

E foi com esse papel que vim parar na República Democrática do Congo (RDC), em um projeto que se divide em dois: violência sexual na cidade de Kananga e desnutrição infantil na vila de Tshibala. Hoje vou contar um pouco melhor a minha experiência em Kananga.

MSF chegou à cidade de Kananga, na Província do Kasai Central, em março de 2017, por conta de um conflito local. Inicialmente, o projeto foi instalado para atender os feridos no conflito, principalmente os casos cirúrgicos. Em maio de 2017, começaram a aparecer também vítimas de violência sexual que, aos poucos, foram aumentando, ao passo que o conflito terminava e os casos cirúrgicos diminuiam.

Enquanto em agosto de 2017 nós tivemos por volta de 20 casos, em novembro e dezembro chegamos a cerca de 150-200. Por causa disso, MSF decidiu fechar a ala cirúrgica do hospital em dezembro, mas manter o projeto de atendimento a sobreviventes de violência sexual.

No hospital, MSF oferece gratuitamente consultas e exames médicos, vacinação e, se a vítima chega em até 72 horas após o caso de violência, conseguimos evitar a gravidez, contaminação por HIV/AIDS e outras doenças sexualmente transmissíveis. Além disso, os sobreviventes também contam com apoio psicosocial individual e em grupo. A questão da gratuidade é extremamente importante para a realidade congolesa. Como aqui não há sistema de saúde gratuito, muitas vítimas deixam de procurar o médico por não terem como pagar a consulta.

As atividades de promoção de saúde são importantes para sensibilizar a comunidade. Fazemos sessões em escolas, igrejas, ONGs locais, mercados, entre outros. Em primeiro lugar, apresentamos o que é MSF e contamos o que fazemos, já que muita gente não nos conhece. Em seguida, explicamos o que é violência sexual. Infelizmente, a estigmatização das vítimas é muito grande. Parte da população acredita que violência sexual é a mesma coisa que traição. E isso é um dos grandes fatores que leva a um alto índice de divórcio. Em números, 80% dos casos de violência sexual acabam em separação.

Então, grande parte do nosso trabalho consiste em explicar que a violência sexual não foi uma escolha e que fazemos todos os exames médicos para assegurar que a vítima não tenha contraído nenhuma doença. Por fim, também explicamos que violência sexual não acontece apenas com mulheres, mas que homens também podem sofrer com esses atos.

O mais gratificante e significativo é começar a ver os resultados do nosso trabalho. Em 2018, passamos a receber de 200 a 300 casos por mês, número bem mais alto do que havíamos previsto inicialmente. Se por um lado é duro ver um aumento dos casos, o que demonstra que, mesmo após o conflito, eles continuam acontecendo, por outro causa um alívio saber que a população está conseguindo receber serviços médicos gratuitos e de qualidade. E  constatar que a promoção de saúde surte efeito quando as vítimas começam a chegar com até 72 horas após o caso de violência e quando passamos também a receber homens que foram violados, não apenas mulheres. Com informação, apesar do forte estigma, as pessoas criam coragem para receber o atendimento que evitará consequências médicas drásticas no futuro.