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O pior e o melhor da Humanidade

O médico Andrei Melo fala sobre sua experiência como emergencista em Mossul, no Iraque
20/04/2018
O pior e o melhor da Humanidade

Foto: Acervo pessoal

Em março de 2017, após ter passado seis meses no Paquistão em meu primeiro projeto num contexto de pós-conflito, vi que tinha encontrado um propósito para minha vida. Descansei por algumas semanas e não hesitei em estar aberto a novas propostas de trabalho junto a MSF no terreno.

Em poucos dias, recebi um e-mail da minha gestora de carreira de MSF que dizia: “Olá, Andrei. Precisamos urgentemente de um médico emergencista por dois meses para atender vítimas de guerra em nosso projeto no Iraque. Aguardamos sua resposta”. Meu coração bateu mais forte em um misto de entusiasmo e medo por não saber exatamente o que me esperava.

Após ler os documentos do projeto, começo a entender o contexto. Uma operação militar em que uma coalizão de países apoia o governo iraquiano na retomada de Mossul, naquele momento dominada pelo grupo Estado Islâmico. Eu iria trabalhar num hospital de campanha localizado a 10km da frente de batalha recebendo vítimas do conflito. Aceitei a proposta e em duas semanas estava embarcando para essa nova experiência que iria marcar para sempre minha vida.
Em meados de abril, chego no final da tarde em Hamam-al-Alil, a cidade que foi minha base durante esse período. Logo na minha chegada, percebo dezenas de ônibus vindo na direção contrária e pessoas andando na estrada carregando malas acompanhadas de crianças com pés descalços. O motorista me explica que são os deslocados internos. Pessoas que foram forçadas a fugir de Mossul, levando o que poderiam carregar, deixando suas casas para trás por causa do risco de serem atingidas por um conflito da qual elas não faziam parte. As crianças sorriem e acenam com um sinal de paz e amor. Ele logo me explica que as pessoas sabem que somos parte de uma organização internacional que veio para ajudá-las.

A chefe da equipe médica, Hanna, me leva para conhecer o hospital no momento em que a equipe estava tratando uma mulher com um sangramento vaginal vigoroso devido a uma gravidez sem acompanhamento. Logo ali entendo que vítimas de guerra não são só aquelas atingidas por balas e explosões. Um sistema de saúde arruinado faz com que as pessoas possam ser vítimas de todas as mazelas, inclusive uma gravidez não acompanhada por falta de serviços de saúde primária. Hanna me fala que eu havia chegado num dia calmo e, portanto, estávamos fazendo um treinamento com a equipe local sobre atendimento de vítimas em massa. Sou calorosamente recebido por todos, expatriados e iraquianos. Recebo minha escala de plantões e ela me fala para eu descansar da longa viagem porque o meu trabalho começaria no dia seguinte.

Ao contrário do dia, a noite não foi tão calma. Pela primeira vez, tentei dormir ao som de tiros e explosões. O restante da equipe, já no projeto há dias, pouco se afeta com os ruídos. Uma das enfermeiras que também não estava de plantão, já prevendo, me diz: “Assusta no início. Mas fica tranquilo que em uma semana você se acostuma. O cansaço ao longo do projeto também ajuda a pegar no sono”.

Nas semanas seguintes, compreendi o que ela havia dito. Recebemos múltiplas vítimas quase que diariamente, 50 a 70 casos por dia, muitas vezes chegando ao mesmo tempo, o que exigia uma excelente coordenação da equipe para que pudéssemos salvar o máximo de vidas possível. Vítimas de explosões, tiros, desmoronamentos e queimaduras constituíam a maioria dos pacientes.

Nos raros dias em que a guerra dava uma trégua, éramos procurados pelas mais variadas razões. Dentre elas, a que mais me chocava era a desnutrição grave. Crianças com 3 anos pesando seis quilos, o peso ideal de uma criança de 3 meses; bebês sem acesso a leite materno porque a mãe havia falecido; e até mesmo relatos de pessoas que precisaram comer grama para sobreviver. Fazíamos o que podíamos e transferíamos os pacientes para outro hospital de MSF, um pouco mais longe da frente de batalha, que era especializado no atendimento de desnutrição.

Entretanto, também compartilhamos momentos de descontração nos quais conversávamos bastante com os profissionais locais. Médicos, enfermeiros, maqueiros, muitos que por decisão própria decidiram ficar por perto para ajudar as pessoas da sua cidade natal, pela qual ainda nutriam um amor e esperança imensos. Por vezes, ao acordar cansado e desanimado após um plantão noturno movimentado, chegando ao hospital, os encontrava sempre sorrindo e motivados para mais um dia de trabalho. Eu pensava que direito eu tinha de estar cansado quando iria passar apenas dois meses ali enquanto eles, que tinham essa vida cotidiana, estavam com o coração cheio de esperança. E assim, trabalhamos durante toda o meu tempo no projeto, um dia após o outro, nos ajudando mutuamente e prestando cuidados aos que ali chegavam.

Em Mossul, eu vi o que há de pior na humanidade, mas eu vi também o que há de melhor. A esperança, a resiliência e o amor ao próximo que não desaparecem em meio ao caos. Muito pelo contrário, eram exacerbados. As pessoas que conheci, os pacientes que atendi e o sentimento humanitário que vivenciei ali é o que eu levarei comigo.