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O fim de cada dia num projeto no Sudão do Sul

A obstetriz Andrêza Trajano narra sua chegada a Bentiu e como é um dia de trabalho
26/01/2018
O fim de cada dia num projeto no Sudão do Sul

Foto: Acervo pessoal

Após dois projetos e 18 meses como obstetriz com MSF, finalmente cheguei à África. Estou no Sudão do Sul, uma das nações mais jovens do novo milênio e país por onde temos espalhados vários dos nossos projetos. No dia 28 de dezembro, me despedi da família e dos amigos no extremo norte do Brasil para uma longa jornada até Bentiu. O nosso hospital fica dentro do campo de refugiados numa área protegida pela ONU. É o único projeto de MSF com essa configuração e meu novo lar até julho de 2018.

A população flutua entre 120 e 250 mil pessoas, dependendo da época do ano. Agora, estamos no verão, que é seco e tem 16% de umidade. É preciso muito óleo de coco e hidrante labial para manter a pele hidratada, pois não haverá chuva até junho e a única tempestade que acontece aqui é de areia!

Fui muito bem recebida pelos 25 colegas que dividem barracas, tendas e refeitório. Mas foi o time de obstetrizes – parteiros e parteiras – que me abraçou, já que passamos 24 horas e sete dias da semana conectados. Ao todo, são 23 parteiras trabalhando na maternidade que é a única referência para gestação e parto de alto risco na região. Recebemos mulheres que viajam sete dias a pé à procura de atendimento ou são transferidas por avião.

Sobre 24hs numa sexta-feira de janeiro

Estava de plantão noturno, mas não recebia nenhuma chamada no rádio desde 1 da manhã. Quando estava começando meu café da manhã, às 7:30, uma gestante em trabalho de parto foi admitida, mas o bebê estava pélvico (sentado). Esse é considerado um parto de alto risco, na grande maioria das vezes porque ninguém aprende o que fazer. No caso do Brasil, boa parte deles vão para cesariana agendada.

Ela já tinha tido sete partos normais e tudo ia bem, mas a bebê ficou presa pela cabeça. Seguindo um novo protocolo de atendimento, a bebê nasceu. Após reanimação e alguns dias na ala neonatal, ela finalmente foi para casa com sua mãe.

Depois desse parto, estava checando todas as mulheres e bebês para dar possíveis altas. A equipe sabe bem o que fazer e a supervisão diária é para encorajar e manter uma boa qualidade de atendimento. Entre arrumar a escala com a supervisora e solicitar a medicação diária para a maternidade, recebemos mais uma mulher em trabalho de parto que foi transferida de outra clínica. O batimento do bebê estava aquém do normal, 70 por minuto. Era sua oitava gestação e ela já estava há algum tempo empurrando o bebê. Com o auxílio do vacuum, desprendemos a cabeça do menino, que se chamará Bentiu. Ela veio de avião de outro vilarejo e quis homenagear o lugar que salvou seu bebê.

Foi uma sexta-feira mais tranquila, comparada ao dia anterior. Nele, tive gêmeos que nasceram com prematuridade extrema e um deles faleceu. Outro bebê que estava internado por sepse também faleceu. Nesses casos, a conversa com a mãe e a família é sempre muito difícil, pois não há muito o que dizer.

Um dos meus hobbies favoritos aqui é observar o pôr do sol. Sempre um laranja intenso. Bem-vinda ao Sudão do Sul!