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O dia a dia no Sudão do Sul

Andrêza Trajano fala sobre sua rotina em Bentiu e sobre o cotidiano das mulheres no campo de refugiados
16/02/2018
O dia a dia no Sudão do Sul

Foto: Acervo pessoal

O maior desafio do Sudão do Sul é não se atentar à realidade. Muito antes de vir para cá, já sabia o quão desafiador seria o trabalho e a qualidade de vida.

O nosso compound é composto por barracas e no momento cada um tem sua própria. Os banheiros não estão bem num padrão ocidental e se parecem com a antiga vida na roça. Não há muita privacidade, pois durante o dia o calor escaldante não permite ficar nas barracas e um dos poucos lugares que tem ar-condicionado é a sala de jantar que não comportaria 25 pessoas.

Fui até o campo visitar duas organizações parceiras que oferecem saúde básica para mulheres durante gestação, parto e pós-parto. Como gerente obstetriz no hospital de referência, é sempre bom entender o que os outros oferecem.

O que chamou minha atenção foi o campo em si, as condições de vida de todas as mulheres e crianças, que normalmente são as que mais sofrem. Acesso ao banheiro, água potável ou mesmo para lavar roupas é desafiador. O sabão é fornecido por outras ONGs e isso não ocorre há 3 meses.

Muitas sofrem violência sexual durante o percurso de ida ou volta do campo de refugiados, pois precisam de lenha para cozinhar e se aquecer nas noites frias de dezembro a fevereiro. Em 10 dias, atendi 10 casos de estupro entre meninas e mulheres que estavam à procura de lenha. Todas receberam cuidados médicos, principalmente para evitar gestação e prevenir contra HIV entre outras doenças sexualmente transmissível.

Nesse mesmo dia em que visitei algumas clínicas, ao retornar, fui informada que uma mulher que estava fora do campo havia parido e o bebê estava morto. De carro, fomos até o lugar onde ela se encontrava. No hospital, ela recebeu os cuidados básicos do pós-parto, mas o bebê não sobreviveu.

Quando penso no meu dia a dia longe da família/amigos e na minha qualidade de vida, paro de olhar feio para meu banheiro de roça. Vivemos todos num acampamento diário, no hospital que promove cuidados a crianças desnutridas, cirurgias, pronto socorro, acompanhamento e tratamento pra HIV/TB, maternidade, neonatalogia e pediatria.

E no começo e fim de cada dia sou grata por poder ser parte desse acontecimento.
 

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