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Meus colegas de quarto

O promotor de saúde Diogo Galvão fala sobre o difícil cotidiano no Sudão do Sul e a necessidade de ajuda mútua
06/07/2018
Meus colegas de quarto

Foto: Arquivo pessoal

Gatuak, Matchuok, Nyakuoth. Depois se juntaram a eles Phar e Nyadyll. Era tarde da noite quando eu vi o trio pela primeira vez. Logo em seguida, o quinteto foi formado. Achei que poderia ser uma gangue. Não esperava tão cedo em minha chegada me deparar com isso e ainda ter que dividir o quarto com eles e elas. Como sou eu o estrangeiro, ocupei o menor espaço possível. Mas logo de início me confortaram e hoje me permitem utilizar todo o espaço que desejo.

Durante o dia, se escondem nas sombras. Após a minha primeira semana no Sudão do Sul, eu já estava fazendo o mesmo. É tamanho o poder do sol, que o máximo que podemos fazer é nos esconder. Ainda mais eu, branco, cheio de sardas, totalmente feito para outro clima. Até mesmo os sul-sudaneses sofrem com esse calor. A terra fica infértil e tão dura que nem mesmo cavar para dignamente enterrar seus falecidos familiares e amigos é possível. Deixam-nos sobre o solo, desenhado com profundas fissuras e rachaduras, servindo como mesa de banquete para as hienas que aparecem durante a noite.

Os mesmos desenhos também podem ser vistos nas sofridas peles dos sul-sudaneses. Possuem crostas, carapaças bastante machucadas por essa vida, injusta e sofrida. Essa resistência que os permite carregar o pesado saco de sorgo por horas, que será sua alimentação, a mesma, pelo próximo mês. Sem ela, não conseguiriam viver com tão pouca água (possível de ser bebida) ou caminhar entre pântanos, por dias e noites seguidas.
 
O calazar, doença também conhecida como leishmaniose visceral, consegue tornar essa grossa crosta em algo tão fino, de se assustar. Após certo tempo, percebi que meu sentimento era de indignação. Finos, a se comparar com estreitos galhos de árvores que, na aparência, você julga como frágil. Mas, da mesma forma que alguns desses galhos são muito difíceis de serem rompidos, acontece com aqueles que sofrem da doença. Ainda resiste uma força interna, que luta pela sobrevivência.

Para mim, uma das coisas mais difíceis nisso tudo é de me manter saudável, para então conseguir aliviar o sofrimento desses seres humanos que, apesar de resistentes, precisam da nossa ajuda. Apesar desse cenário tão mórbido, cinza e árido, há muita vida internamente, logo após essas carapaças. Corações batendo forte, corpos que acompanham o ritmo da dançante música africana; gargalhadas são possíveis de se escutar de longe. Um que ajuda o outro, e que ajuda o outro, e assim sobrevivem por mais um dia.

Esses meus cinco companheiros que dividem o quarto comigo sabem do que estou falando, apesar de serem morcegos. Reconhecem diversas diferenças em mim, se assustam comigo cada vez que entro no quarto, por conta da carapaça que eu carrego comigo. Mas também me respeitam e assim, um que ajuda o outro, que ajuda o outro, e assim sobrevivemos mais um dia por aqui.