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Mães que vivem com HIV em Serra Leoa – Parte 1

A médica Ana Paula Cavalheiro fala sobre as dificuldades do sistema de saúde do país e seu trabalho em Magburaka
01/11/2018
Mães que vivem com HIV em Serra Leoa – Parte 1

Foto: Giuseppe La Rosa/MSF

Estive por um mês na cidade de Magburaka, em Serra Leoa. O país tem a mais alta taxa de mortalidade materna do mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Além disso, uma em cada nove crianças irá morrer antes de completar dos 5 anos de idade.

As famílias são muito pobres (mais de 60% da população vive com menos de 1,25 dólar – cerca de 4,50 reais – por dia, segundo dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) e têm dificuldade para se deslocar até o centro de saúde, tanto por motivos financeiros, quanto pela distância. A falta de conhecimentos sobre saúde também é um fator importante. Muitas vezes as pessoas percebem tarde demais que uma situação é grave e necessita de acompanhamento médico.

Em relação ao HIV, apesar da orientação nacional de que todas as pessoas com o vírus devam receber terapia antirretroviral, isso ainda é uma realidade que está longe de ser alcançada: estima-se que apenas 20% das pessoas que precisam de tratamento estejam recebendo os medicamentos. E isso inclui mulheres grávidas que ainda não foram diagnosticadas ou que não estão recebendo tratamento em um momento crucial não só para a sua saúde, mas também para evitar que o vírus seja transmitido para o bebê.

Além desses desafios, entre 2014 e 2016 o país foi fortemente atingido por uma epidemia de Ebola. MSF estima que cerca de 10% dos profissionais de saúde do país estavam entre as 3.950 pessoas que morreram por causa do vírus, sobrecarregando um sistema de saúde já em dificuldades.

Eu vim para Serra Leoa trabalhar em um projeto focado em saúde materno-infantil. Através desse programa, começamos a oferecer tratamento de HIV para crianças e mulheres que estão grávidas ou amamentando, com atenção especial à prevenção da transmissão do vírus da mãe para o bebê.  

Como parte do projeto, tivemos reuniões com o Programa Nacional de Controle do HIV e com outros responsáveis pelo tratamento no distrito onde trabalhamos, para entender quais eram as principais deficiências e decidir qual seria a melhor forma de MSF ajudar.

Monitorei de perto o atendimento no hospital e nos centros de saúde, procurando entender o que estava funcionando bem e o que era necessário melhorar, tanto para quem vive com o HIV ter acesso a tratamento de boa qualidade, quanto para evitar novas infecções.

Então, levando em consideração a situação local, formulamos um plano de ação para ser seguido pelas próximas semanas e meses. E uma das primeiras atividades foi um treinamento dos profissionais locais sobre as últimas recomendações para o tratamento de HIV e para a prevenção da transmissão do vírus.