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Iraque: “Sobreviver à guerra é apenas uma das batalhas”

O médico Andrei Melo fala sobre o trabalho no vilarejo de Hammam al-Alil, onde MSF montou um hospital de campanha para atender feridos na batalha pelo controle de Mossul
16/05/2017
Iraque: “Sobreviver à guerra é apenas uma das batalhas”

Foto: MSF

A experiência de trabalhar próximo a Mossul provoca uma mistura de sentimentos em relação à humanidade. Eu vi os piores ferimentos causados por seres humanos – explosões; tiros pelas costas contra civis, incluindo mulheres e crianças; amputações traumáticas em decorrência da detonação de minas terrestres; e queimaduras graves que atingem mais da metade do corpo são alguns exemplos dos casos graves que recebemos diariamente. 

Em nosso centro de traumatologia em Hammam al-Alil, no último mês, recebemos entre 10 e 50 feridos por dia. O número de pacientes é imprevisível, visto que não sabemos quando ou onde os ataques vão acontecer. Vinte pacientes podem chegar ao mesmo tempo, e isso requer um trabalho de equipe muito bem coordenado a fim de salvar a maior quantidade de vidas possível.

Meu trabalho aqui no Iraque é bem diferente do anterior, no Paquistão. Lá, o projeto já dura anos e MSF é conhecida na comunidade. É um contexto mais estável, com estrutura, e a maioria dos profissionais foi treinada por anos. Meu trabalho ali era melhorar a qualidade do atendimento oferecido aos pacientes e gerir a equipe, além de coordenar a situação em caso de ingresso de muitas vítimas ao mesmo tempo, o que era raro.  

No Iraque, por outro lado, estamos a 20 minutos de distância da frente de batalha, e todos os dias podemos receber muitos feridos simultaneamente. O hospital foi montado com tendas e contêineres como uma resposta de emergência, e a equipe foi formada para atender as necessidades imediatas da população. Ainda que esse hospital tenha sido aberto há apenas três meses, é incrível o quanto já foi feito, e quantas pessoas pudemos ajudar. Nada disso seria possível sem o apoio da comunidade e do grupo nacional de profissionais, composto por clínicos, cirurgiões, tradutores, enfermeiros, maqueiros e faxineiros, cuja motivação e bom humor contagiante mantêm o espírito de equipe sempre vivo.

Há momentos em que a guerra dá uma trégua, e outros casos chegam à nossa estrutura. Crianças desnutridas, pacientes com doenças infecciosas vindos de campos de deslocados internos, pessoas que perderam suas casas e filhos e que estão mentalmente despedaçadas. 

Há poucos dias, três crianças chegaram ao nosso portão; a mais velha tinha 14 anos. Elas procuravam ajuda para a mãe, que estava em uma cadeira de rodas. A mulher havia sofrido um trauma sem corte na cabeça havia mais de um mês, quando um morteiro atingiu o telhado da casa em que viviam. Desde então ela não consegue andar e tem dificuldades para falar. Outros quatro irmãos e o pai morreram. Os que estavam ali eram os únicos que restavam da família. Depois de ficar sob sítio, eles só conseguiram chegar a nosso hospital agora.

Tratamos os ferimentos e oferecemos roupas e kits de higiene. Infelizmente, não pudemos fazer muito pela mãe. Ela provavelmente vai ficar de cama, e as crianças terão que cuidar dela no acampamento de deslocados internos. Outro problema surgiu quando fomos dar alta à paciente: a família não tinha dinheiro para voltar ao campo. Isso foi imediatamente resolvido por um médico iraquiano, que deu a eles uma boa quantidade de dinheiro para transporte, num gesto de generosidade sincera. Na saída, o maqueiro levantou levemente as rodas da frente da cadeira da mãe. Ele acelerou um pouco e a mãe sorriu. As crianças riram.

Para essas pessoas, sobreviver à guerra é apenas uma das batalhas no longo caminho rumo a uma vida decente. Nesses momentos, vemos que as necessidades da população são bem maiores que o dano direto causado por balas e explosões. Mesmo assim, a generosidade dessa gente pode ser ainda maior. E eu também estou aprendendo.

Atualmente, MSF está trabalhando em seis unidades médicas em Mossul e arredores, oferecendo serviços de emergência e cirúrgicos, incluindo saúde materno-infantil. A organização também oferece cuidados pós-operatórios e de reabilitação, além de tratamento para crianças desnutridas, cuidados de saúde primária e saúde mental.