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Haiti: muitos casos de trauma para poucos dias

Cirurgião vascular fala sobre seu trabalho nos primeiros dias em projeto de MSF em Tabarre
16/12/2015

Em três dias com Médicos Sem Fronteiras em Tabarre, no Haiti, eu vi mais casos de trauma por arma de fogo e acidente de carro do que no último ano no Rio de Janeiro, no Brasil. O trânsito aqui é tão caótico, que, obrigatoriamente, os carros andam muito devagar. O capacete parece não ser obrigatório, porque ninguém usa!

 Em função da baixa velocidade, temos muitos acidentes considerados de baixa energia cinética. Explico: quanto maior a velocidade em que o veículo se encontra, maior o número de óbitos no local do acidente (realidade do Brasil); aqui, a maioria das pessoas chegam vivas ao hospital após as colisões, necessitando de todo tipo de atendimento. Geralmente, são casos de múltiplas fraturas associados, por vezes, a lesões internas dos órgãos abdominais. Após estabilização inicial são levados à sala de cirurgia. Tenho visto muitos casos graves, mas deve haver casos mais simples. Infelizmente, esses casos mais simples não são referenciados de Martissant para cá.

Tenho muita dificuldade de comunicação com os pacientes porque não falo francês ou criolle (o idioma local). Felizmente, temos, durante o dia, três tradutores muito bons que traduzem bem do criolle para o inglês. Sem eles eu estaria perdido! Mas como somos muitos médicos que não falam francês, às vezes, precisamos fazer rodízio com os tradutores. Aprendi poucas frases em criolle para iniciar as conversas, como ‘como você está?’ ou ‘isso dói?’. Grande parte da equipe médica fala inglês, o que facilita o trabalho no dia a dia do centro cirúrgico. 

Hoje, operei meu primeiro caso puramente vascular. Nos últimos dias, havia operado apenas casos da cirurgia geral com os profissionais locais. Tratava-se de uma jovem mulher de 22 anos, dançarina, que havia sido alvejada por um projétil de arma de fogo durante um tiroteio entre gangues rivais em Martissant (uma área bastante violenta de Porto Príncipe). O projétil entrou pelas costas, na altura do ombro, ficando alojado na parte anterior do pescoço. A paciente apresentava um grande edema na região lateral do pescoço, o que indicava uma possível lesão vascular parcialmente contida. Indiquei uma exploração cervical, que consiste em fazer uma incisão na parte lateral do pescoço para localizar a possível lesão vascular. Com isso, foi possível identificar uma pequena lesão na veia jugular interna, facilmente controlada com alguns pontinhos. Felizmente, não havia lesão na artéria carótida, o que seria muito mais grave e de difícil controle! Tenho a minha disposição na emergência um aparelho portátil de ultrassom com doppler, e como a paciente estava estável clinicamente tive tempo de fazer o exame ultrassonográfico do pescoço antes de realizar a cirurgia, o que permitiu que eu me preparasse um pouco mais para o procedimento.

Nem sempre consigo comer e, às vezes, durmo muito pouco, especialmente quando me acordam na madrugada solicitando minha presença no hospital. Nada disso me desanima, muito pelo contrário: espero trabalhar muito e operar muito, principalmente porque só vou ficar aqui um mês e o hospital realmente precisa de um cirurgião vascular o tempo todo. Estou feliz, porque já me informaram que após a minha partida chegará um novo cirurgião vascular para me substituir.