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A força da população sul-sudanesa

O promotor de saúde Diogo Galvão fala sobre seu primeiro projeto no terreno com MSF
25/05/2018
A força da população sul-sudanesa

Foto: MSF

Não vou falar de mim neste diário de bordo, mas das comunidades nas quais estou inserido e de onde vêm também meus companheiros de trabalho. Nunca conheci seres humanos tão fortes e resistentes. Vivem a vida no agora, para hoje. Porque amanhã não se sabe o que acontecerá. Planos são difíceis de se fazer por conta do conflito e das diversas crises que existem no Sudão do Sul, desde muito antes de se tornar o mais novo país do mundo.

São jovens vítimas da violência que, carregados por companheiros durante toda madrugada, chegam em uma das nossas 10 clínicas espalhadas pelo estado de Unity. São mulheres de 20 anos que também procuram pelos nossos serviços em nossa maternidade na cidade de Bentiu, em Unity, para seu terceiro parto, que pode muito bem ser fruto de violência sexual.

Mas se não conseguem vir a nós, nós vamos a eles. Incluo a mim nisso tudo, pois sou promotor de saúde de Médicos Sem Fronteiras. E este é nosso papel: dar acesso a cuidados de saúde e transformar determinado comportamento de risco, de forma a reduzir ou prevenir doenças. A eficiência é garantida por sempre respeitarmos a cultura e a tradição locais.

Nossa equipe de 61 promotores de saúde facilitam o acesso a cuidados médicos primários para comunidades mais vulneráveis. Eles podem caminhar mais de quatro horas até chegar em determinado vilarejo, cruzando pântanos e animais selvagens, caminhando e remando. Educam e engajam a comunidade, empoderando-a para ela mesma conseguir combater e se prevenir de certas morbidades.

São mais de 8 mil pessoas em média que tratamos por mês em nossas clínicas, sendo a malária, diarreia aguda e complicações respiratórias as principais enfermidades (os casos são muito variados, desde pacientes com HIV até alguém mordido por uma hiena). Clínicas essas que consistem em tapetes cuidadosamente colocados nas preciosas sombras das árvores. Tivemos que nos adaptar à realidade local e, com esse formato, conseguimos sempre estar muito próximos da comunidade em que atuamos.

Não importa para onde nossos pacientes tenham que se deslocar, nós iremos junto com eles. Mas o sucesso nisso tudo é devido a esse povo. Resistem a uma realidade cruel, que jamais imaginei que pudesse existir. Realidade e sofrimentos esses que precisam ser conhecidos. Nada mais justo do que dar a voz a quem realmente merece.