Emoção de poder abraçar uma paciente curada do Ebola

Área de tratamento do Ebola durante surto da doença em 2014, na Guiné. ©Sylvain Cherkaoui/Cosmos

A médica brasileira Rachel Soeiro compartilha histórias comoventes de pacientes atendidos em Telimelé, na Guiné, durante o surto de Ebola em 2014. 

Hoje* demos mais uma alta no nosso centro de tratamento de Ebola. Foi bem especial. A paciente chama-se Lamarana. É uma jovem de 17 anos da mesma família que Yakouba, um menininho que saiu na semana passada, e Malik, o primeiro a receber alta e que agora é nosso promotor de saúde. 

Lama, como nós a chamamos, é linda, está sempre sorrindo. Ela tem deficiência auditiva. A história dela está ligada a um dos nossos primeiros casos, o de uma moça chamada Mariama, que morreu antes da minha chegada. Mariama tinha um bebê de nove meses de vida, que também adoeceu. 

Pelo fato de Lama ser jovem e solteira, após a morte de Mariama, a família a designou para tomar conta do bebê. Ela realmente o fez e acabou se contaminando. Em torno de três dias antes da minha chegada, Lama e o bebê foram hospitalizados. A criança faleceu 24 horas depois, nos braços de Lama. 

Apesar de tudo, o lindo sorriso de Lama estava sempre presente, até mesmo na hora de tomar os comprimidos que detestava. Pelo fato de ter tido uma boa evolução, ela foi uma das primeiras que testamos, para saber se ainda estava com a doença. O teste veio ligeiramente positivo. Ficamos decepcionados, a explicamos a situação e dissemos que ainda não poderia sair. A cada três dias, fazíamos o teste e sempre vinha esse resultado decepcionante de ligeiramente positivo. 

Há dois dias realizamos seu teste novamente – pela quarta vez. Finalmente deu negativo. Claro que vibramos muito.  

Uma pessoa da equipe comprou uma roupa de festa e creme hidratante para a pele para darmos de presente para Lama. 

Outra médica se encarregou do procedimento do banho, e eu fiquei do lado de fora para abraçá-la. Foi super emocionante. Assim que Lama saiu do banho, ela já estava chorando, e eu com lágrimas nos olhos.  

Foi muito bom poder abraçá-la quando passou pela cerca que separa o isolamento. Nem ela acreditava. Todos nós fizemos muita festa. Malik e Yakouba também estavam lá para recepcioná-la. 

Ontem comecei um novo desafio: agora faço a busca ativa de casos (chamada de outreach”, em inglês). Funciona da seguinte forma: o pessoal do Ministério da Saúde local passa todos os dias nas casas das pessoas que estão na lista de contato (todos aqueles que tiveram contato com um paciente positivo para a doença do Ebola), aferem a temperatura e checam se elas têm algum problema de saúde. Em caso de febre ou da aparição de algum sintoma, nos chamam, e nós partimos para checar. Se a suspeita for altalevamos a pessoa para o hospital. 

A diferença é que, como se trata de um ambiente aberto ou da casa de uma pessoa, precisamos estar atentos para nos protegermos bem e não corrermos risco de nos contaminar.  

O caso em questão era a cunhada de um motorista de táxi que transportou Mariama para o hospital. Essa senhora cuidou do motorista de táxi assim que ele adoeceu, antes de ir para o hospital, e agora ela se sente muito cansada e está com febre. Por isso, a trouxemos para o hospital, a isolamos no quarto para casos suspeitos e já fizemos o teste para a doença do Ebola. Amanhã teremos o resultado. Se for positivoela passa ao isolamento na parte dos casos confirmados. Se negativo, recebe alta. Também estamos recebendo muitas crianças com febre que tiveram contato longínquo com pacientes com a doença do Ebola positiva. 

Como agora é tempo de chuvas, também é o período da malária, por causa do aumento dos mosquitos. Então há muitas crianças com febre, vômito, diarreia (que são todos sintomas da doença do Ebola). Felizmente, até agora, o único novo caso confirmado de uma criança com a doença do Ebola desde que eu cheguei foi o pequeno Malik. Ele é filho de Mbalia, que já estava na área dos pacientes confirmados e chorou quando viu o menino chegar comigo. 

Mesmo com a suspeita de um provável caso de malária, não podemos deixar ninguém que entrou em contato com um paciente com a doença do Ebola voltar para a casa com febre. Temos que fazer o teste para a doença do Ebola. E o recomendável é que a criança não tenha um acompanhante externo, porque essa pessoa pode se contaminar dentro do centro. 

Então, a nossa estratégia é deixar o acompanhante ficar do lado de fora da cerca de isolamento, em frente ao quarto onde a criança estará. Mas não é tarefa fácil. 

Ainda bem que fui instruída por uma colega que já trabalhou com Ebola a trazer balas, isso acaba sendo um atrativo para as crianças. Outra coisa interessante é que, apesar de estarmos vestidos assustadoramente como astronautas, as crianças nos olham com curiosidade, e fica mais fácil convencê-las a deixar suas mães e entrarem no isolamento conosco. Sem falar que conseguimos comprar brinquedos, cadernos e canetinhas para as crianças, para que se distraiam durante o isolamento. Na verdade, acho que nós, equipe médica, sentimos mais pena das crianças do que elas mesmas. 

Enfim, mais uma semana que começa. Felizmente, há cerca de seis dias não temos mais nenhum resultado positivo para a doença do Ebola, e a última morte foi há uma semana. Nossos pacientes estão melhorando pouco a pouco. E espero poder dar mais altas esta semana. 

*Relato escrito em 16 de junho de 2014. 

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