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Emoção de poder abraçar paciente curada de Ebola

16/06/2014

Télimelé (Guiné), 16 de junho de 2014 - Hoje demos mais uma alta no nosso centro de tratamento de Ebola e foi bem especial. A paciente chama-se Lamarana. É uma jovem de 17 anos da mesma família Yakouba (o menininho que saiu semana passada e Malik, o primeiro a receber alta e que agora é nosso promotor de saúde).

Lama, como nós a chamamos, é linda, está sempre sorrindo e é surda e muda. A história dela está ligada a um dos nossos primeiros casos, o de uma moça chamada Mariama. Ela morreu antes de eu chegar. Mariama tinha um bebê de nove meses que também adoeceu.

Pelo fato de Lama ser jovem e solteira, após a morte de Mariama, a família a designou para tomar conta do bebê e ela realmente o fez, tão bem que acabou se contaminando e, uns três dias antes de minha chegada, ela e o bebê foram hospitalizados. O bebê morreu 24 horas depois, nos braços de Lama.

Felizmente, ela nunca esteve tão mal, pelo menos não demonstrava, seu sorriso lindo estava sempre presente mesmo na hora de tomar os comprimidos que ela detestava. Pelo fato de ter tido uma boa evolução, ela foi uma das primeiras que testamos e seu teste veio ligeiramente positivo. Ficamos decepcionados, a explicamos e dissemos que ainda não poderia sair. A cada 3 dias fizemos o teste e sempre vinha esse resultado decepcionante de ligeiramente positivo.

Há dois dias fizemos seu teste novamente - pela quarta vez. Desta vez, finalmente deu negativo. Claro que vibramos muito, uma pessoa da equipe comprou uma roupa de festa e creme hidratante para a pele para darmos de presente para Lama.

A outra médica se encarregou do procedimento do banho e eu fiquei do lado de fora para abraçá-la. Foi super emocionante, assim que ela saiu do banho, ela já estava chorando e eu com lágrimas nos olhos. Foi muito bom poder abraçá-la quando ela passou pela cerca que separa o isolamento. Nem ela acreditava. Todos nós fizemos muita festa. Malik e Yakouba também estavam para lá para recepcioná-la.

Ontem também comecei um novo desafio, agora faço a busca ativa de casos (eles chamam de outreach). É assim: o pessoal do Ministério da Saúde passa todos os dias nas casas das pessoas que estão na lista de contato (todos aqueles que tiveram contato com a pessoa positiva para Ebola) medem a temperatura e checam se eles não têm nenhum problema de saúde, em caso de febre ou de terem algum sintoma nos chamam e nós partimos para checar e, se a suspeita é forte, trazemos a pessoa para o hospital.

A diferença é que, como se trata de um ambiente aberto ou da casa de uma pessoa, precisamos estar atentos para nos protegermos bem e não corrermos risco de nos contaminar. O caso em questão era a cunhada de um motorista de táxi que transportou Mariama para o hospital. Essa senhora cuidou do motorista de táxi assim que ele adoeceu antes de ir para o hospital e agora ela se sente bem cansada e está com febre, por isso a trouxemos para o hospital, a isolamos no quarto para os suspeitos e já fizemos o teste para Ebola, amanhã teremos o resultado. Se for positivo ela passa ao isolamento na parte dos casos confirmados, se negativo ela recebe alta. Também estamos recebendo muitas crianças que tiveram contato longínquo com pacientes com Ebola positivo com febre.

Como agora é o período das chuvas, significa, o período da malária por causa do aumento dos mosquitos e muitas crianças com febre, vômito, diarréia (que são todos sintomas do Ebola) e somos obrigados a interná-las na área dos suspeitos. Felizmente, até agora, o único novo caso de uma criança que foi confirmada com Ebola depois que eu estou aqui foi o pequeno Malik – aquele garotinho filho de Mbalia, que já estava na área dos pacientes confirmados e que chorou quando viu seu filho chegar comigo.

O problema, é que, mesmo que saibamos que provavelmente a criança só tem malária, não podemos deixar ninguém que teve em contato com um paciente com Ebola voltar para a casa com febre. Temos que fazer o teste para Ebola e, o recomendável é que a criança fique sozinha porque um acompanhante saudável pode se contaminar dentro do centro.
Então, a nossa estratégia é a de deixar o acompanhante ficar do lado de fora da cerca de isolamento, em frente ao quarto onde a criança estará, mas não é tarefa fácil.

Ainda bem que fui instruída por uma colega que já trabalhou com Ebola a trazer balas e isso acaba sendo um atrativo para as crianças. Outra coisa interessante é que, apesar de estarmos vestidos assustadoramente como astronautas, as crianças nos olham com curiosidade, como se fossemos super-heróis ou algo de gênero e fica mais fácil convencê-los a deixar suas mães e entrarem no isolamento conosco. Sem falar que conseguimos comprar brinquedos, cadernos e canetinhas para as crianças, assim elas não se sentem tão sozinhas. Na verdade, acho que nós, equipe médica, sentimos mais pena das crianças do que elas mesmas.

Enfim, mais uma semana que começa, felizmente há uns seis dias não temos mais nenhum resultado positivo e a última morte foi há uma semana. Nossos pacientes estão melhorando pouco a pouco e, espero, poder dar mais altas esta semana.

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