Você está aqui

É chegado o atarantado mês de agosto

31/07/2013

31 de julho de 2013

Agosto, mês em que completo seis meses de projeto (só faltam mais seis!), mês do meu aniversário, mês de muita chuva e de muito trabalho. As atividades de Médicos Sem Fronteiras (MSF) em Bo não param de crescer e no auge da estação das chuvas o trabalho se intensifica e alguns problemas começam a aparecer. Chegamos ao limite máximo de admissões permitidas em nosso hospital. Além das unidades permanentes, já foram montadas quatro novas tendas com mais de 30 leitos no total para que novos pacientes possam receber atendimento. Mas, agora, não temos mais espaço físico para novas instalações, nem dispomos de profissionais nacionais qualificados para se juntarem à equipe – acho que todos os enfermeiros deste país já trabalham nesse hospital.  

Recém-nascidos dividem a mesma cama na unidade intensiva neonatal. Como a maioria dos pacientes estão em estado grave, torna-se difícil a liberação médica para que possam ir para casa – e, assim, liberar um novo leito. Com isso, a única alternativa que nos resta é a criteriosa seleção durante a admissão dos pacientes, quando eles dão entrada na emergência, o que para mim, sinceramente, tem sido uma das cenas mais difíceis de encarar por aqui. Mais difícil ainda é para o médico que faz a escolha e que tem que dar a notícia de que “infelizmente seu filho não será admitido, pois temos casos mais graves do que o dele para atender”. É de partir o coração porque sabemos que quando em outras unidades de saúde terão que pagar pelo atendimento e tratamento e a maioria não tem mínimas condições para isso.

Porém devemos continuar animados e olhar para os números do mês anterior, que mostram o intenso e dedicado trabalho realizado por aqui. Em junho, o serviço de ambulância de MSF respondeu a 420 chamadas das diferentes bases de apoio localizadas em distritos próximos para atendimento e transporte dos pacientes até o hospital. Nesse mesmo mês foram admitidos 773 novos pacientes (menores de 15 anos) em estado gravíssimo de saúde. É só estando aqui para ver o quão grave eles chegam ao nosso hospital. Acho que nem por foto seria possível retratar a realidade como ela verdadeiramente é. A malária continua sendo a principal causa de morbidade e mortalidade e, geralmente, vem acompanhada de anemia severa seguida de infecção generalizada. Na clínica foram realizadas 2.474 consultas (de crianças com até cinco anos de idade), sendo que 75% dos casos testaram positivo para malária. Muitas das crianças estavam com desnutrição severa num estágio absurdamente inaceitável. Tenho gravado em minha memória o rostinho de cada um deles, que ficarão comigo para sempre. Mas seguimos firme dia após dia, salvando quantas vidas forem possíveis salvar.

Quanto a mim, passei de farmacêutica do projeto para a posição de farmacêutica da missão. Significa que, além do hospital, agora sou responsável pelos pedidos da clínica e das ambulâncias, pelo estoque dos kits de grandes emergências (que fica na capital), além da clínica que temos, oferece atendimento médico para profissionais nacionais e internacionais. Na verdade, eu gerencio, analiso e aprovo todos os pedidos, mas se isso for comparado às minhas demais responsabilidades, acho que é o mais simples de ser feito (risos). Porque, além disso, é o farmacêutico que prepara o pedido internacional com todas as necessidades do projeto para os próximos quatro meses. Esse pedido é aprovado pelo coordenador médico e mandado para o departamento de suprimentos de MSF em Bruxelas, e é de lá que vem todos os medicamentos/materiais/equipamentos para serem utilizados no projeto. Ou seja, se o cálculo for mal planejado, teremos sérias consequências futuras. Para mim, os próximos meses serão os mais importantes. Tenho esse pedido internacional para fazer, a lista de padronização de todos os insumos para o próximo ano (quais medicamentos deverão ser incluídos e/ou excluídos do projeto), a projeção da quantidade total de itens que serão consumidos em 2014, com base no orçamento que será disponibilizado para o projeto, dentre outras atividades que exigirão muito empenho de minha parte.

Mas, como eu disse, agosto é o mês que completo meus 32 anos de vida. E só tenho a agradecer a chance de estar aqui, realizando algo tão maravilhoso. Esse já é o meu maior presente.
 
Francelise Bridi Cavassin