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Desafios

10/10/2014

De tempos em tempos, a vida nos desafia. Quando a gente acha que as coisas se acalmaram, de repente, o sonho que você vem tentando se negar bate fortemente em sua porta. Mas, desta vez, você se permite senti-lo e, calmamente, se reconectar com ele.


Lutei comigo mesma durante anos, tentando me convencer de que me candidatar para trabalhar com MSF era exatamente aquilo que a maioria das pessoas dizia ser: loucura! Eu tinha um emprego ótimo, estava indo bem no consultório e tinha uma empresa, com outros dois amigos, que estava em ótimo momento. O que mais eu poderia querer para minha vida profissional? A coisa é que, para mim, a vida precisa ser muito mais do que estabilidade profissional. Eu queria muito mais do que isso!


Esperei mais de um ano para, finalmente, fazer parte de um dos projetos de MSF. Uma longa espera... Não é difícil imaginar a pressão social que tive de enfrentar antes de aceitar o projeto. Ir contra uma multidão não é tarefa fácil. É uma carga pesada, já que a maioria das pessoas prefere ficar em sua zona de conforto e não entende propriamente as escolhas alheias. Mas dar voz a um sonho que estava vivendo em silêncio compensa tudo!


Foi no avião, a caminho de Cabul, que senti que estava no Afeganistão. Fiquei impressionada; a paisagem é simplesmente sedutora! De todo jeito, o contexto é tão diferente daquele com o qual estou habituada que tive de aprender a olhar para ele. Meus olhos continuavam buscando cores esverdeadas, enquanto o marrom estava bem ali, mostrando silenciosamente sua beleza excepcional na silhueta das infinitas montanhas deste lugar.


Bem, honestamente, não foi só a paisagem que me impressionou. Eu estava enlouquecendo! Como conseguiria manter a vaidade, a feminilidade, sem desrespeitar a cultura ou a mim mesma? Como seria viver em confinamento por seis meses? Quão difícil seria trabalhar com saúde mental com um tradutor? Como eu me sentiria tendo de me cobrir, sem poder mostrar meus braços, pescoço ou cabelo?


Vai ser difícil esquecer o olhar do que parecia ser uma adolescente afegã quando, chegando ao aeroporto, coloquei o lenço. Ela continuou me encarando, franzindo o rosto e falando com uma mulher mais velha. Fiquei com tanta vergonha que não consegui para de pensar no que eu estava fazendo errado. Ter tido parte da equipe comigo no avião facilitou o manejo dessa minha insegurança. Ouvir aquelas palavras mágicas “está tudo bem, você vai ficar bem” fez com que eu me restabelecesse.


Não sou (e jamais serei) afegã, nunca tinha ido a Kunduz ou Cabul nem nunca tinha usado um lenço com aquele propósito. E, sim: é minha primeira vez com MSF!