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Cuidando de adultos em meio a uma “fábrica de bebês”

Fátima Cardoso fala sobre seu trabalho com recursos humanos em Khost, no Afeganistão
23/11/2018
Cuidando de adultos em meio a uma “fábrica de bebês”

Foto: Arquivo pessoal

Estou no Afeganistão, onde vim passar nove meses no projeto em Khost que ficou conhecido como “fábrica de bebês”. A maternidade aqui tem uma média de 80 nascimentos por dia.

Trabalho com recursos humanos (RH). Isso inclui diversas áreas, entre elas cuidar da qualidade de vida dos 17 profissionais internacionais. Busco atender suas necessidades dentro do possível, pois não podemos sair do complexo em que moramos e trabalhamos. Também cuido dos voos internacionais e nacionais, uma logística complicada com as poucas opções que existem. Também sou responsável por toda parte de RH dos 431 profissionais nacionais (afegãos) que contratamos: controle de férias, ausências, folha de pagamento, relatórios mensais, controle orçamentário. Cuido ainda da administração do complexo, no que diz respeito ao uso dos quartos, limpeza e conservação, compras de alimentos, produtos de limpeza, entre outros.

Os desafios que encontramos são inúmeros. O contexto do local, uma das cidades mais conservadoras do país; a questão da violência contra a mulher; o grande número de gravidezes por mulher, que são cobradas a ter o maior número possível de filhos; segregação de gênero; etc. Muitos profissionais locais não falam nada de inglês, apenas pashtun. O recrutamento para postos mais elevados é difícil e existem lacunas mesmo na equipe de profissionais internacionais porque muita gente não consegue chegar por conta dos problemas de segurança. Algumas explosões de bombas muito perto da maternidade nos assustaram, mas não nos atingiram. Não somos visados aqui.

Inicialmente, essa minha primeira vez em um país muçulmano foi um grande impacto. Por mais bobo que pareça, usar um lenço na cabeça o dia todo é um desafio para mim. Vou aos poucos tentando conhecer a cultura, mesmo não podendo sair do complexo. Também aos poucos fui conhecendo os profissionais nacionais e ficando mais próxima da minha equipe, composta por assistentes, tradutores e todos os postos de apoio.

A relação nem sempre é tranquila, principalmente entre as parteiras, que são mais de 120. Tenho a impressão que, em uma sociedade em que as mulheres têm pouco espaço, aqui no trabalho é onde elas sentem que podem reivindicar. Com frequência trazem reclamações à administração. Temos que ter paciência, mas tudo é aprendizado e minha experiência aqui está valendo muito a pena.