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COVID-19: um medo que é novo para mim

Gabriela Roméro fala sobre a atual pandemia e a coragem que encontra ao lembrar dos colegas de MSF
03/04/2020
COVID-19: um medo que é novo para mim

Foto: Arquivo pessoal

Escrevo este texto sentada no sofá da minha casa. Perto de mim está meu marido, que vem trabalhando remotamente há duas semanas. De vez em quando, nosso gato passa por um de nós e mia pedindo carinho, satisfeito por ter os dois em casa por tanto tempo. Nós dois estamos seguindo a medida de distanciamento social, a estratégia que tem se mostrado a mais efetiva no combate à pandemia de COVID-19, a doença provocada pelo novo coronavírus.

Em fevereiro, voltei da República Democrática do Congo (RDC), onde trabalhei como gerente de comunicação de emergência para o projeto de resposta à epidemia de Ebola. Posso garantir que, quando você aceita ir para um projeto de Ebola, a pergunta que você mais ouve é se não sente medo. A resposta é mais complexa do que sim ou não. No meu caso, eu tinha  consciência dos riscos, sabia que estaria numa cidade onde não havia mais casos de Ebola e recebi a vacina – o melhor instrumento de proteção contra a doença até agora – antes de chegar à RDC. E, talvez o mais importante para mim, eu sabia que, acontecesse o que acontecesse comigo, a minha família estava protegida no Brasil.

É exatamente por isso que nunca senti medo como sinto agora. A pandemia de COVID-19 que se impõe a todos nós ameaça, principalmente, as pessoas que eu amo. Sim, eu sei que estatisticamente meu marido e eu, jovens e sem doenças crônicas, temos poucas chances de ter uma forma mais grave da doença. O que me assusta todos os dias é o que pode acontecer com meus pais. Minha mãe tem 68 anos e passou há pouco tempo por uma quimioterapia bastante dura. Meu pai tem 88 anos e, como grande parte dos idosos, parecia ter alguma resistência a entender como o distanciamento social é importante neste momento. O meu medo é que, pela primeira vez, minha família corre o mesmo risco (ou mesmo um risco maior) do que aquele que me dispus a correr.

Resolvi escrever este texto quando me dei conta de que este medo pode ser novo para mim, mas ele é velho conhecido dos nossos colegas contratados localmente para os nossos projetos. Dos mais de 43 mil profissionais que trabalham com Médicos Sem Fronteiras (MSF) em campo, mais de 39 mil são pessoas recrutadas no próprio país onde está o projeto. Isso significa mais de 90% dos recursos humanos que tornam possível o trabalho de MSF. O que talvez nem sempre fique evidente é que essas pessoas frequentemente têm a sua vida pessoal atingida pelos mesmos problemas que levaram MSF a decidir atuar no país.

Quando estive na resposta de emergência ao ciclone Idai em Moçambique em 2019, todos os profissionais moçambicanos com quem trabalhei na cidade da Beira tinham algum relato traumático sobre a madrugada de 15 de março. Escutei histórias de falta de acesso à água por semanas e colegas que haviam perdido, literalmente, o teto de suas casas. De um deles, que estava a trabalho em Maputo no dia do ciclone, ouvi que ele ficou dias sem saber se a mulher e os filhos estavam vivos, depois que toda a rede de telecomunicação e de transportes para a cidade da Beira foi interrompida. Nunca vi nenhum deles deixar de trabalhar com toda a garra para garantir que os cuidados de saúde que oferecemos fossem reestabelecidos depois da catástrofe, mesmo quando eles mesmos encaravam desafios privados que eu não sentia na pele.

Hoje, segura na minha casa e sempre tendo notícia dos meus pais, penso mais uma vez em nossos colegas locais que estão no terreno. Com as restrições de voos, mais do que nunca serão eles a levar adiante nossos projetos em mais de 70 países. Eles, que muitas vezes já enfrentam contextos de conflito ou de outras epidemias, terão um enorme desafio adicional com o avanço da COVID-19. Serão eles na linha de frente cuidando dos mais vulneráveis, com todo o risco inevitável que isso implica.

Nessa hora, lembro também que a epidemia de Ebola na RDC está muito perto do fim, já há um mês sem nenhuma nova pessoa infectada pela doença. É um recomeço que ajuda a não desanimar. Enquanto isso, sigo trabalhando de casa, torcendo para que o novo coronavírus deixe o menor rastro possível de destruição na vida de todos os atingidos. Quando as restrições que a pandemia nos impôs tiverem passado, não vejo a hora de voltar ao terreno, colete de MSF no peito e uma vontade enorme de contar as histórias das pessoas que atendemos em nossos projetos. No dia em que isso acontecer, minha admiração será maior do que nunca por aqueles colegas que estarão ao meu lado.

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