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Convivendo com as diferenças no Haiti

Grupo de profissionais de MSF mistura hábitos e culturas, tanto profissionalmente quanto nos momentos de lazer
22/01/2016

Ao longo dessas duas semanas aqui, fui chamada algumas vezes à noite para avaliar pacientes no hospital. Pacientes vítimas de lesões por arma de fogo e acidentes de trânsito são os mais comuns. Mesmo andando de carro à noite, na zona amarela – existe uma escala de vermelho, amarelo e verde para graduar a periculosidade de cada local. O amarelo indica alguma periculosidade e, por isso, Médicos Sem Fronteiras não nos permite andar a pé pelo local -, não me senti insegura nenhuma vez. Os motoristas conhecem todos os caminhos e estão sempre nos esperando no hospital, para nos levarem para casa.

Além das cirurgias e atendimentos de pacientes, que são muitos, faz parte do trabalho da equipe internacional estimular a troca de experiências. Nós somos convidados a apresentar casos e dar aulas sobre os temas mais importantes junto com os médicos locais. A troca de informações é muito enriquecedora. Nós discutimos os casos mais difíceis ou mais interessantes nas sessões clínicas diárias, mas alguns colegas internacionais apresentam casos que ocorreram em seus países de origem, e que valem a pena serem mostrados, pois não são tão comuns. Não é uma surpresa ver que existem limitações em todos os lugares do mundo e acho que isso, para os médicos locais, não deixa de ser um estímulo.

De vez em quando, passamos no supermercado depois de sair do hospital. Na primeira vez em que fui, encontrei dois carros da ONU e um da Cruz Vermelha (esses encontros são frequentes) no estacionamento, e foi uma surpresa ver a bandeirinha do Brasil na farda do exército da MINUSTAH nas viaturas da ONU. Não me controlei, fui falar com eles, dar um “oi”. Mania de brasileiro. O exército brasileiro é a força que encontro mais aqui, mas existem outras nacionalidades também.

Na segunda semana, fomos liberados para ir à praia no final de semana. Pela alegria demonstrada pelos profissionais internacionais mais antigos, tinha tempo que o passeio estava limitado! Ir à praia é uma viagem! São duas horas para ir e duas para voltar, independentemente da direção (norte ou oeste). A praia mais interessante a que fomos foi a do oeste, em Taina. Não pela praia em si, mas pelo trajeto até lá. Tivemos que passar pela Cité Soleil (zona vermelha, área que não devemos transitar normalmente e onde fica o hospital de Martissant) para pegar os outros colegas internacionais. Cité Soleil é uma área completamente diferente de Tabarre e Pétion Ville, bairro relativamente mais abastado e próximo a Tabarre por onde podemos andar, pois é considerado zona verde. Vi muito lixo na rua e foi o que mais me impressionou. As pessoas andam, comem, vendem comida e vivem em meio ao lixo. Vende-se de tudo: carvão, gelo, comida, frutas, roupas, água, pasta de dente, pilhas, remédios, garrafas, pão, etc. Tudo na rua. Em um outro dia, perguntei a um dos funcionários locais do hospital e fiquei sabendo que não há serviço público de coleta de lixo. Quem pode pagar contrata empresas privadas que despejam na área mais pobre. Em uma das noites em Tabarre choveu muito e a rua virou um mar de lixo.

Passando a parte mais pobre, a paisagem é outra. Verde (pálido, mas é verde!) e mar com a cor do Caribe. A praia tem água quentinha e não tem areia, somente pedrinhas e “pedrões”.

A comida é bem gostosa. Tudo com muita pimenta! O arroz que eles comem é o que eles chamam de arroz haitiano (arroz branco que é feito com um pouco de feijão mulatinho e pimenta, é claro). Sou suspeita pois amo arroz, mas achei uma delícia. Aqui tem muita berinjela, banana frita e abobrinha. Tem também o tal do Lambi. Não sei explicar direito o que é, mas sei que é um fruto do mar, e é bem gostoso.

As saídas com os colegas internacionais acontecem às vezes, principalmente quando o horário de recolher passou para a meia-noite. É possível encontrar profissionais de diversos escritórios de MSF e também pessoas que trabalham nas embaixadas e moradores estrangeiros, além dos locais, é claro. A dança típica aqui se chama Compas, e é uma mistura de salsa com merengue, lambada e zumba, entre outros ritmos.

As noites na casa são bem animadas, pois tínhamos um violão e sempre algum colega “arranhava” uma musiquinha.  Os italianos eram os mais animados. Mais ou menos no meio da minha participação no projeto, o pessoal internacional mais antigo começou a ir embora para chegarem novos, com outras histórias e outros costumes. Não foram embora todos de uma vez, mas aos pouquinhos. Dá uma “tristezinha”, mas sempre tem gente nova para animar tudo de novo.