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Atividades intensas durante as estações chuvosas

11/05/2013

Bo, 11 de maio de 2013

Quarto mês começando e as atividades na farmácia estão cada dia mais corridas, porque agora estamos nos aproximando da estação de pico, ou seja, a alta temporada de malária e outras doenças. As chuvas já começaram e estamos superpreparados em todos os sentidos: suprimentos, logística, recursos humanos. Tendas estão sendo erguidas para recebermos mais pacientes: tem a tenda da malária, a da tuberculose, a das grávidas. Parece cenário de filme. É até engraçado, ao mesmo tempo em que é assustador, e, se você não está preparado para lidar com tal realidade, é fácil largar tudo e voltar correndo pra casa.

Já estamos atingindo nossa capacidade máxima de leitos por dia e estamos tendo que usar outras alas para alojar alguns pacientes. A UTI está lotada e não tem como admitirmos mais pacientes ali porque não há oxigênio para todos. Por isso, eles são monitorados na emergência, até folgar um leito. Os severamente desnutridos também estão sendo alocados nas outras alas infantis, o que não é bom nem correto, porque estão tão frágeis e doentes que em contato com outras crianças doentes, podem facilmente pegar uma infecção e piorar. Mas estamos aqui, fazendo de tudo para salvar vidas. E estamos fazendo toda a diferença.
Comecei neste mês a dar suporte aos enfermeiros dentro de cada unidade. A ideia é ajudá-los a promover um melhor gerenciamento dos medicamentos e materiais médicos em seus departamentos. A falta de um bom gerenciamento resulta em pedidos de emergência todo o santo dia, vários por dia, o que atrapalha a vida de todo mundo, principalmente dos enfermeiros e médicos que precisam sair de suas alas para pegar material na farmácia. Às vezes, me vejo resolvendo cinco coisas ao mesmo tempo e, quando acho que terminei tudo direitinho, chega alguém aqui para me pedir algo mais, e assim o dia corre.

Se por um lado estou feliz com bons resultados relacionados à farmácia, por outro, supertriste com o aumento diário do número de pacientes graves. E como agora estou trabalhando pertinho deles, vejo a real gravidade da condição em que se encontram. Há dias em que tenho que sair para tomar um ar, porque é difícil ouvir os gritos desesperados dos “pacientinhos” queimados durante a limpeza e troca dos curativos. Ou, então, os desnutridos com aquele olhar triste, sem forças nem para esboçar alguma reação quando você sorri para eles. Eu converso com eles, procuro animá-los, mas é tanto sofrimento que não sei se consigo fazer com que se sintam melhor ou não. Também acompanhei algumas tentativas de ressuscitação. E quando perdemos alguma criança, as mães saem em peregrinação pelo hospital, chorando e cantando alto com o bebê enrolado num pano... E é assim todo dia, o que deixa todo mundo muito sensibilizado.
O time de profissionais estrangeiros está sendo todo renovado por aqui; muitos foram embora e outros tantos chegaram para continuar o trabalho. Essa semana chegou um epidemiologista que ficará um ano desenvolvendo pesquisa e estatística. Temos ainda dois novos pediatras, um novo obstetra e uma nova parteira.

Amanhã é dia das mães e, mais uma vez, estou longe da minha. Mas me sinto feliz por estarmos aqui, salvando vidas e trazendo esperança para muitas mamães que sofrem por seus pequeninos.