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Há um antes e um depois de Kunduz

28/09/2016
Carta da Dra. Joanne Liu, presidente internacional de MSF, sobre o bombardeio ao centro de trauma de MSF no Afeganistão
Há um antes e um depois de Kunduz

Foto: Paulo Filgueiras

Durante nossas vidas, há poucos eventos que nos marcam profundamente, a ponto de lembrarmos o que estávamos fazendo no momento em que eles aconteceram. Esse foi o caso quando ouvi as notícias sobre o ataque a Kunduz. Eu estava voltando do Sudão do Sul. Olhei meu celular durante uma escala na Turquia e soube que Kunduz tinha sido atacado na noite anterior.

Foi como se o céu tivesse ficado escuro de repente. Senti falta de ar e parecia que minha cabeça ia explodir. Eu não conseguia acreditar no que havia acontecido, e procurava mais informações tentando entender. Ainda em 2015, eu havia passado dias em Kunduz, fazendo rondas com a equipe nas alas do hospital. Ao retornar de lá, relatei que o Centro de Trauma de Kunduz era a joia do nordeste do Afeganistão. Um lugar em que os pacientes se sentiam seguros e privilegiados por estarem recebendo cuidados de saúde. Eu estava muito bem impressionada com a qualidade do atendimento, tanto em termos técnicos como humanos.

Minha leitura pessoal sobre os conflitos e as regras de conduta das partes envolvidas sempre será dividida entre o antes e o depois de Kunduz. Embora eu saiba que os conflitos estão cada vez mais descolados das leis da guerra, o ataque contínuo a Kunduz ainda me parece particularmente extremo.

MSF pediu uma investigação independente dos fatos. Muitas investigações não independentes foram realizadas: elas levantaram mais perguntas do que respostas. Todo o movimento MSF se uniu em atos de protesto a esse ataque e a uma série de outros similares que se seguiram. Falamos ao Conselho de Segurança da ONU em maio de 2016, pedindo que ‘parem esses ataques’. Uma resolução do conselho foi aprovada com esse objetivo, mas, até agora, nada mudou muito. Continuamos pedindo a aplicação dessa resolução, incessantemente conduzidos pela memória de Kunduz. Além dos danos imediatos e da intensa tragédia que todo ataque causa, um preço mais alto está sendo pago: os cuidados de saúde são negados a populações que vivem em zonas de conflito.

Nossa trajetória para descobrir como pôr um fim aos ataques a instalações médicas, pacientes, cuidadores e profissionais de saúde está longe de acabar – os interesses políticos são enormes. Mas não vamos desistir. Depois de um ano desse ataque devastador, hoje é um dia para lembrar.

E eu me lembro de todos:
Abdul Maqsood, Abdul Nasir, Abdul Salam, dr. Abdul Satar Zaheer, dr. Aminullah Bajawri, Lal Mohammad, dr.Mohammad Ehsan Osmani, Mohibullah, Najibullah, Naseer Ahmad, Shafiqullah, Tahseel, Zabiullah, Ziaurahman.

Eu me lembro de sua dedicação ao oferecer cuidados médicos a centenas de milhares de afegãos no nordeste do Afeganistão, atendendo quem quer que estivesse precisando. Eu continuo lamentando essas perdas.

Eu me recordo, também, da coragem dos profissionais do Centro de Trauma de Kunduz, que, na noite fatídica de 3 de outubro, cuidaram um dos outros de forma heroica. Eles eram uma inspiração – um símbolo do real significado dos cuidados médicos e da solidariedade.

Eu homenageio o Centro de Trauma de Kunduz expressando a todos vocês minhas mais profundas condolências, e com as lembranças eternas daqueles que perdemos.

Dra. Joanne Liu, presidente internacional de MSF