Frontes de batalha retrocederam para fora da cidade, mas bombardeios nas proximidades continuam fazendo feridos
© MSF
22 de junho de 2011 - Após um cerco de quase três meses de duração, os conflitos no centro de Misrata (oeste da Líbia) acabaram. A fronte de batalha retrocedeu para fora dos limites da cidade. No entanto, ainda que a situação tenha mudado desde que a primeira equipe de Médicos Sem Fronteiras (MSF) chegou, no dia 18 de abril, os bombardeios continuam próximos e fazem muitas vítimas. No dia 10 de junho, conflitos violentos a oeste da cidade feriram 150 pessoas, das quais 51 sofreram graves ferimentos.
No dia dessa ofensiva, a equipe cirúrgica de MSF trabalhando no hospital de Kas Ahmed tratou 33 pacientes vindos de Dafnya (oeste da cidade). Os outros feridos foram levados para o hospital de Al Hikma, especializado em trauma, ou para o hospital de Abbad. Os meses de cerco deixaram um rastro enorme de destruição, incluindo uma farmácia central que é agora uma pilha de escombros. No entanto, a cidade ainda tem instalações médicas e infraestrutura.
Existem algumas necessidades médicas bastante específicas – por exemplo, o sistema de encaminhamento de pacientes não é bem organizado, e os feridos são frequentemente transferidos para o hospital em carros normais, sem assistência médica adequada.
Para responder a essa necessidade, MSF começou a trabalhar com as equipes médicas líbias nos postos de saúde avançados montados próximos às frontes de batalha, com o objetivo de estabilizar os feridos antes de transferi-los a um hospital. Concretamente, isso significa melhorar o equipamento médico nos postos avançados de saúde, treinando equipes para estabilizar os feridos e equipando ambulâncias e postos com aparelhos de radiocomunicação.
No dia 10 de junho, pacientes feridos que haviam sido estabilizados no posto de Dafnya foram transferidos diretamente para o hospital de Kas Ahmed. Equipes locais foram treinadas por MSF para fazer cirurgia de emergência. MSF demonstrou como gerenciar e organizar cirurgias de trauma para um público de cerca de 40 funcionários do hospital de Kasr Ahmed, incluindo cirurgiões, médicos, anestesistas e estudantes de medicina.
Além de cirurgias de trauma, MSF realiza cirurgias de revisão e enxertos de pele em pacientes que receberam tratamento emergencial. MSF também trabalha com emergências cirúrgicas no hospital de Kasr Ahmed. Aumentar a capacidade deste hospital é uma questão crucial, já que muitos moradores da cidade procuraram refúgio na região, que é menos exposta ao conflito.
No entanto, MSF tem vários desafios para levar essas atividades adiante. O primeiro deles é o transporte de suprimentos, que tem que ser feito por via marítima. As estradas estão inacessíveis porque atravessam as frontes de batalha. Equipes de apoio, assim como materiais médicos e logísticos, são enviadas em barcos que saem de Malta, em uma jornada de quase 36 horas.
Também há falta de profissionais de enfermagem. "A maioria dos enfermeiros, sanitaristas e outros funcionários era formada por estrangeiros, vindos principalmente das Filipinas, Paquistão, Egito e outros locais", disse Fouad Ismael, coordenador geral de MSF em Misrata. "Eles fugiram do país quando a guerra começou". Estudantes de medicina voluntários estão substituindo as equipes de enfermagem após receberem treinamento básico em enfermagem – como avaliar e monitorar sinais vitais – de MSF.
O cerco a Misrata e os bombardeios incessantes criaram um forte sentimento solidário na população. "Um dia nós tivemos que descarregar um barco cheio de suprimentos e muitas pessoas se voluntariaram para ajudar", conta Ismael. "Eles encontraram alguns contêineres e trabalharam com muita rapidez. Todos queriam participar do esforço humanitário".
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