Dr. Christos Christou, presidente 

Christopher Lockyear, secretário-geral 

Em cada um dos mais de 75 países onde Médicos Sem Fronteiras (MSF) prestou assistência médica em 2024, testemunhamos pessoas atuando com solidariedade em defesa da dignidade e da humanidade. Quer se trate de uma sala de cirurgia na República Democrática do Congo, de uma sessão comunitária de educação nutricional na Nigéria ou de uma manifestação exigindo que uma empresa farmacêutica na África do Sul reduza os preços de seus medicamentos, as pessoas devem unir-se para que essas coisas funcionem. Somos gratos a todos que se uniram em 2024, permitindo-nos servir comunidades em todo o mundo. 

Em julho, concluímos o maior processo de consulta já realizado por MSF, para entender como devemos evoluir como movimento. Essa consulta aproveitou a experiência de nossa rede de humanitários para definir as principais prioridades para os próximos anos, como melhorar nossa abordagem de cuidado centrada no paciente e melhorar a colaboração interna. O trabalho já começou para transformar esse intercâmbio significativo em ação concreta, para que possamos nos tornar a organização que as comunidades que servimos precisam e querem que sejamos. Em 2024, fizemos a transição da Campanha de Acesso, que defendia o acesso a medicamentos e diagnósticos, para um novo modelo organizacional de trabalho de MSF, focado em ampliar o acesso a produtos de saúde. Essa nova entidade, MSF Access, estará mais próxima de nossas operações nos países, para permitir que alcancemos nossa maior ambição de melhorar o acesso a medicamentos e produtos de cuidados de saúde. 

Apesar de estarem separadas por milhares de quilômetros, nossas equipes que trabalham em meio a conflitos no Sudão e na Palestina testemunharam graves violações do direito internacional humanitário (DIH). Em ambos os conflitos, as pessoas enfrentaram ataques implacáveis; crianças morreram de fome durante os bloqueios; bombas foram lançadas sobre áreas civis; e hospitais foram alvejados por disparos. Em vez de utilizar o DIH como um marco para limitar sua barbárie na guerra, vimos indiferença e apatia das partes em conflito e seus apoiadores em relação a esses tratados em muitos conflitos em todo o mundo. 

Nossos princípios nos impulsionam a enfrentar desafios excepcionais. Um desafio crescente é a resistência antimicrobiana. À medida que os micróbios se adaptam para garantir a própria sobrevivência, estamos agora diante de uma crescente taxa de infecções resistentes a medicamentos em todo o mundo. Reconhecendo o grave risco de resistência antimicrobiana — uma ameaça que pode transformar pequenos cortes e doenças que antes tinham tratamento em causas de morte —, expandimos nossos programas de gestão de antimicrobianos em 2024. No Chade, em Essuatíni, no Irã e na Síria, iniciamos o treinamento de equipes médicas na utilização de antibiótico, e medidas de prevenção e controle de infecções. Até o final do ano, estávamos implementando programas de gestão da resistência antimicrobiana em 42 países. 

MSF atua em um ecossistema de organizações humanitárias, todas com o objetivo comum de ajudar pessoas em situação de necessidade. Foi encorajador ver uma reação humanitária coesa em oposição às ações de Israel para desmantelar e impedir o trabalho da UNRWA, a maior distribuidora de ajuda e prestadora de cuidados de saúde em Gaza. Dado que a comunidade humanitária como um todo enfrenta obstáculos crescentes para fornecer ajuda de forma imparcial e em conformidade com os princípios humanitários fundamentais, precisamos constantemente lembrar os governos de seus compromissos com o DIH, pressionando-os a apoiar a comunidade humanitária no sentido de trazer uma tábua de salvação aos habitantes de Gaza. 

Graças à dedicação de nossa equipe, à confiança de nossos pacientes e ao apoio de nossos doadores privados, MSF é capaz de fornecer ajuda aos mais necessitados. Podemos participar de iniciativas de grande visibilidade, como a campanha de vacinação contra a poliomielite em Gaza, assim como vacinar crianças contra o sarampo de forma mais discreta na Somália e no Afeganistão. Essas ações simultâneas são possíveis graças aos milhões de doadores de MSF. Partilhamos a convicção de que as crianças merecem estar protegidas contra doenças evitáveis e agimos juntos com base nessa crença. 

Neste momento crítico para o humanitarismo, quando a solidariedade global está enfraquecendo — como evidenciado pelos cortes generalizados de financiamento a outras organizações —, gostaríamos de expressar nossa profunda gratidão por permanecerem conosco, comprometidos com o humanitarismo. Por trás de cada solução intravenosa administrada em uma enfermaria de cólera, de cada rede mosquiteira distribuída a famílias deslocadas e de cada comprimido entregue para tratar a tuberculose, existe um movimento de pessoas, apoiado por milhões, agindo em solidariedade por nossos princípios comuns. 

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