Por Dr. Ahmed Abd-elrahman, Akke Boere, Renzo Fricke, William Hennequin, Dr. Sal Ha Issoufou, Kenneth Lavelle, Mari Carmen Viñoles Ramon - Diretores de Operações de MSF 

Em 2024, milhões de pessoas em mais de 75 países continuaram a ser afetadas por surtos de doenças, exclusão do acesso à saúde e crises como guerras, conflitos e catástrofes naturais. Cerca de 67 mil profissionais de Médicos Sem Fronteiras (MSF) prestaram assistência onde e como puderam. 

Conflitos no Oriente Médio 

Após os ataques do Hamas, em 7 de outubro de 2023, a ofensiva em curso das forças israelenses contra o povo em Gaza, Palestina, continuou a ter um impacto devastador na vida dos palestinos. A guerra intensificou as tensões e a insegurança em grande parte do Oriente Médio, agravando também os conflitos no Líbano e no Iêmen. 

Começando pelo norte da Faixa de Gaza, as forças israelenses desencadearam uma campanha implacável de ataques aéreos e incursões terrestres, avançando em direção à fronteira sul e destruindo bairros inteiros. Nossas equipes trataram milhares de pacientes com ferimentos de guerra, diarreia e doenças de pele, além de traumas psicológicos. Atenderam também gestantes e crianças. Contudo, os esforços para ampliar as atividades foram dificultados pelas forças israelenses, que colocaram a Faixa sob cerco e impuseram rigorosos controles administrativos e logísticos aos suprimentos que entravam em Gaza. Como resultado, caminhões transportando suprimentos médicos essenciais eram frequentemente bloqueados. Enquanto isso, a insegurança nos obrigou a interromper atividades, evacuar e, em seguida, reiniciar, tendo que nos adaptarmos à situação em constante mudança. Infelizmente, 11 colegas de MSF foram mortos desde o início da guerra; sentimos a falta deles e lamentamos sua perda. 

Após bombardeio israelense, muitos feridos foram levados ao hospital Al-Aqsa, na Faixa de Gaza. 8 de junho de 2024. Palestina. ©Karin Huster / MSF

Comunidades em toda a Cisjordânia, Palestina, também enfrentaram o fardo da guerra em Gaza. As forças israelenses infligiram níveis estarrecedores de violência a campos de refugiados e comunidades, destruindo casas e matando ou mutilando pessoas durante incursões que duravam dias. Durante esses períodos, as forças israelenses impuseram severas restrições aos movimentos das pessoas, o que significava que elas não podiam sair de seus bairros, nem mesmo para buscar — ou oferecer — cuidados de saúde. Apesar dessas medidas desumanas, nossas equipes fizeram todo o possível para alcançar as pessoas necessitadas. 

As hostilidades que vinham se intensificando entre Israel e o Hezbollah, no Líbano, desde os ataques de outubro de 2023, eclodiram no final de setembro de 2024. As forças israelenses invadiram o Líbano e lançaram ataques aéreos generalizados, inclusive na capital, Beirute. Embora a campanha tenha sido curta, foi extremamente angustiante para a equipe e os pacientes, que frequentemente precisavam deixar os locais para escapar de incursões ou bombardeios. Em resposta, ampliamos nossas atividades nas áreas onde tínhamos acesso, realizando clínicas móveis e doando suprimentos. 

No início de dezembro, o regime de Assad, na Síria, entrou em colapso na sequência de uma ofensiva das forças da oposição. No final do ano, nossas equipes exploravam maneiras de aumentar a oferta de cuidados de saúde em áreas do país que eram inacessíveis a MSF há mais de uma década. 

Guerra civil no Sudão 

Em 2024, o conflito no Sudão entrou em seu segundo ano, com as Forças Armadas Sudanesas e as Forças de Apoio Rápido travando combates em extensas partes do país. A burocracia e as restrições de segurança impostas pelas partes em conflito dificultaram nossa capacidade de resposta. As limitações impostas significaram que não fomos capazes de responder às imensas necessidades das pessoas na escala exigida. A ausência de outras organizações humanitárias e a falta de ajuda em muitas áreas significaram que algumas situações que envolviam deslocamentos em massa, fome e violência fossem negligenciadas ou recebessem apoio insuficientes. 

Muhab recebe alimento terapêutico no centro de nutrição terapêutica de MSF no acampamento de Zamzam. Sudão. Agosto de 2024. ©Mohammed Jamal

Em Darfur, o cerco imposto ao campo de deslocados de Zamzam e à cidade próxima de El Fasher, desde maio, significou que quase nenhum material médico ou alimento terapêutico pudessem ser entregues. A desnutrição no campo aumentou a tal ponto que a fome foi declarada em agosto,i mas a falta de suprimentos nos obrigou a suspender o tratamento ambulatorial da desnutrição em outubro. Durante o ano, a insegurança, incluindo o bombardeio de hospitais, obrigou-nos a evacuar El Fasher. 

Nossas equipes no Sudão, assim como nos países vizinhos, Chade e Sudão do Sul, para onde muitos sudaneses fugiram, trataram pacientes com ferimentos por explosões traumáticas que mudam vidas, além de violência sexual extrema e doenças que se propagam rapidamente em contextos de conflito e deslocamento, como cólera, malária e hepatite E. 

Crises esquecidas 

A violência entre grupos armados e a polícia se intensificou ainda mais na capital do Haiti, Porto Príncipe, tornando-a um dos lugares mais perigosos do mundo para a atuação de nossas equipes. O colapso do sistema de saúde forçou muitas pessoas a viverem em locais de deslocamento informal, com acesso limitado a água potável e serviços de saneamento. Após ataque a uma ambulância de MSF pela polícia e por grupos de autodefesa em meados de novembro, no qual dois pacientes foram executados e membros da equipe que os acompanhavam foram atingidos com gás lacrimogêneo e ameaçados, suspendemos temporariamente todas as atividades em Porto Príncipe. No final do ano, porém, começamos a retomar algumas delas. 

Foto após conflito entre grupos armados e força policiais em Porto Príncipe, Haiti. Março de 2024. © Corentin Fohlen/Divergence

O conflito em curso no estado de Rakhine, Mianmar, causou deslocamentos e sofrimento generalizados, mas quase não atraiu a atenção internacional. Vidas e propriedades foram deliberadamente destruídas, e muitas pessoas foram recrutadas à força para o serviço militar. Após os repetidos ataques a nossas instalações, trabalhamos arduamente para prestar cuidados, adotando estratégias alternativas sempre que possível, como teleconsultas. 

A partir de janeiro, houve intensificação dos combates entre o exército congolês e o grupo rebelde M23, além de outros grupos armados, nas províncias de Kivu do Norte e Kivu do Sul, República Democrática do Congo (RDC), com pessoas e instalações médicas frequentemente atingidas pelo fogo cruzado. MSF prestou assistência médica e humanitária em vários locais, incluindo áreas ao redor de Goma, capital do Kivu do Norte, onde se estimava que até maio 1 milhão de pessoas deslocadas haviam procurado refúgio. 

Nos países do Sahel — como Mali, Burkina Faso e Níger —, nossas equipes continuaram a responder, sempre que possível, às necessidades das comunidades, que enfrentam a violência contínua e a desnutrição recorrente. No entanto, enfrentamos restrições crescentes nas atividades e no acesso, além de insegurança por parte tanto dos Estados quanto dos grupos armados. 

Ataques ao sistema de saúde 

Em 2024, registramos aumento significativo, em comparação com os últimos anos, nos incidentes de segurança, que afetaram o pessoal, as instalações e a infraestrutura de MSF. Isso foi um indicativo de que as operações de MSF estão mais próximas das linhas de frente dos conflitos armados e da situação de segurança volátil em muitos dos locais onde trabalhamos, incluindo Palestina, Haiti, Sudão e RDC. Alguns desses eventos — tiroteios, explosões, invasões a nossas instalações por grupos armados, ataques a nossas ambulâncias — nos levaram a suspender algumas atividades médicas ao longo do ano. A decisão de cancelar nossos serviços, mesmo que por um breve período, é sempre tomada após muita reflexão. No fim das contas, são as comunidades locais que perdem o acesso a cuidados de saúde, extremamente necessários. 

No entanto, esses eventos não se limitam a MSF. Eles refletem as experiências das pessoas que ajudamos e da comunidade humanitária em geral. Atualmente, grupos armados estatais e não estatais violam cada vez mais de forma flagrante o direito internacional humanitário — que deveria proteger os profissionais de saúde e a infraestrutura médica — e reduzem o espaço necessário para que a ajuda humanitária atue com segurança. 

Violência sexual 

A violência sexual predomina em muitos locais onde atuamos, especialmente em contextos de conflito, como no Sudão, onde é usada como arma de guerra. Os números são particularmente elevados na RDC. Em 2023, nossas equipes trataram duas vítimas ou sobreviventes de violência sexual por hora — um total de mais de 25 mil pessoas atendidas ao longo do ano em cinco províncias. De forma alarmante, essa tendência aumentou em 2024. Só nos campos de deslocados ao redor de Goma, na província do Kivu do Norte, tratamos quase 17.500 pacientes nos primeiros cinco meses. 

Nossas equipes que atuam na região de Darién, entre Colômbia e Panamá, e em outros pontos da rota migratória da América Central, como México e Guatemala, atenderam muitas mulheres e meninas que foram estupradas ou sofreram abusos sexuais por parte de gangues criminosas em 2024. 

Pessoas em deslocamento 

Em dezembro, fomos forçados a interromper as atividades de busca e salvamento no Mediterrâneo Central com nosso navio, o Geo Barents, em razão do clima político hostil e das novas leis de migração na Itália, que tornaram nosso modelo operacional inviável. Essa decisão ocorreu após o Geo Barents ter sido submetido a múltiplas ordens de detenção de 60 dias. Juntamente com a União Europeia, as leis e políticas da Itália refletem um genuíno desrespeito pelas vidas das pessoas que buscam refúgio e segurança. 

Profissional de MSF trabalha na transferência de pessoas resgatadas sem vida no Mar Mediterrâneo. Junho de 2024 ©

A maioria das pessoas que atravessam o Mediterrâneo embarca na Líbia, onde são submetidas a violência e abusos extremos. Nesse país, MSF tratou pessoas com traumas mentais e físicos causados por sequestro, tráfico, agressão e abuso sexual, bem como com doenças exacerbadas por condições precárias de vida e pela falta de atendimento médico. Nesse contexto, negociamos com sucesso a evacuação de pessoas na Líbia que precisavam de tratamento médico urgente. Elas foram levadas para a Itália, onde receberam cuidados. 

As pessoas na rota migratória do Sul para a América do Norte continuam sujeitas a abusos físicos e mentais. Em resposta, fornecemos durante o ano tratamento médico e de saúde mental em Panamá, Costa Rica, Honduras, Guatemala, México e Estados Unidos. 

Além de atender às necessidades das pessoas deslocadas pela violência por meio de atividades em grande escala em RDC, Sudão do Sul e Sudão, também atuamos junto a populações em locais como Mali e Moçambique. Em Niafunké, oferecemos cuidados de saúde às pessoas que fugiam do conflito entre grupos armados não estatais e o exército do Mali. Em Moçambique, a violência contínua na província de Cabo Delgado força as pessoas a abandonarem suas casas. 

Respondendo a crises médicas 

Desde 2022, nossas equipes têm respondido a um ciclo contínuo de grandes surtos de cólera, inclusive em Iêmen, Sudão, Sudão do Sul e RDC — países marcados por conflitos e deslocamentos, que são os principais impulsionadores da disseminação dessa doença altamente contagiosa e potencialmente fatal. Em 2024, também iniciamos atividades em outros locais, como Comores, onde nunca havíamos atuado antes; Zâmbia, para onde retornamos pela primeira vez desde 2018; e Tanzânia. A falta de vacinas contra a cólera dificultou nossa resposta a esses surtos intensos e prolongados, em parte pela elevada procura e pelo fato de que um dos dois principais fabricantes da vacina oral interrompeu a produção. 

Maryam Muhammad, supervisora de promoção de saúde de MSF, em uma atividade para prevenção da desnutrição no estado de Kebbi, na Nigéria. Janeiro de 2024. ©Georg Gassauer/MSF

Ao longo do ano, as equipes de MSF trataram um número elevado de pessoas desnutridas, principalmente crianças, mas também mulheres, em especial no Afeganistão e no Iêmen. Nossas equipes testemunharam níveis catastróficos de subnutrição em partes de Darfur, Sudão, e no estado de Zamfara, noroeste da Nigéria. Um rastreio em massa realizado em junho revelou que, em duas áreas, uma em cada quatro crianças abaixo de 5 anos estava subnutrida. Essa crise foi exacerbada pela redução global no financiamento para a desnutrição, reduzindo a disponibilidade de alimentos terapêuticos prontos para uso, tanto para prevenção quanto para tratamento. 

Em 2024, um surto de Mpox — a varíola dos macacos, uma doença viral contagiosa, que pode ser fatal se não tratada — começou a se espalhar na RDC e posteriormente em outros países africanos. Em agosto, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou-o uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional. Nossas equipes responderam ao surto de varíola dos macacos na RDC, na República Centro-Africana (RCA) e em Burundi. 

Espaço reduzido para ajuda humanitária 

Após 32 anos, fomos obrigados a encerrar nossas atividades médicas na Rússia, em agosto, quando o Ministério da Justiça russo decidiu cancelar o registro da seção de MSF que gerenciava nossas operações. Esse foi um golpe para as pessoas que atendíamos no país, incluindo pacientes com tuberculose na região de Arkhangelsk; pessoas vivendo com HIV, em Moscou e São Petersburgo; e refugiados e deslocados internos afetados pela guerra na Ucrânia. Gostaríamos de retornar à Rússia, se e quando as autoridades permitirem. 

Nos últimos anos, o financiamento para a ajuda humanitária diminuiu, como evidenciado pelas crescentes lacunas nos cuidados de saúde e pelas necessidades crescentes nos países onde atuamos. Infelizmente, essa tendência continuou em 2024 e 2025, com muitos países cortando ou redirecionando recursos destinados à ajuda humanitária. Embora não sejamos diretamente afetados em termos financeiros por esses cortes de fundos, estamos profundamente preocupados. É evidente que nenhuma organização pode preencher a enorme lacuna no sistema de ajuda internacional. No entanto, continuamos empenhados em fornecer ajuda médica e humanitária independente e imparcial às pessoas necessitadas. 

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