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República Centro-Africana

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Havia esperança para a paz na República Centro-Africana (RCA) após tentativas de reconciliação em maio, mas episódios esporádicos de violência persistiram no país e ganharam intensidade em setembro em Bangui. Isso fez aumentar a necessidade de ajuda humanitária urgente.

A crise política que desencadeou o conflito violento em 2013 ainda não foi resolvida e intensificou as situações emergenciais humanitárias e de saúde já existentes. Grupos armados continuaram em atividade e estima-se que haja 447 mil deslocados internamente no país, com dezenas de milhares de pessoas vivendo em abrigos superlotados e improvisados, como escolas e igrejas, sem alimentação, água, saneamento nem cuidados de saúde adequados. Mais de 70% das instalações de saúde foram danificadas ou destruídas e há uma escassez de profissionais de saúde treinados. Muitos temem viajar até os poucos centros de saúde que restaram, ou não podem arcar com o custo do tratamento.

Médicos Sem Fronteiras (MSF) e outras Ongs são responsáveis pela maior parte dos serviços de saúde, mas sua atuação sofre a repetida interferência de grupos armados e do crime organizado. Neste ano, clínicas móveis, atividades de apoio e campanhas de vacinação tiveram suas atividades interrompidas várias vezes nas regiões de Kabo, Bambari e Boguila, e as instalações de MSF e de outras Ongs foram roubadas, atacadas e saqueadas. Foi difícil manter o abastecimento de materiais médicos em meio ao clima de falta de segurança. Em Batangafo – localizada na frente de batalha entre as áreas controladas por diferentes milícias e uma das regiões mais perigosas da RCA – MSF continuou a oferecer cuidados básicos e especializados na instalação de referência e em cinco postos de saúde, incluindo consultas ambulatoriais, intervenções cirúrgicas e cuidados materno-infantis. Batangafo também é onde fica um dos maiores campos de deslocados do país, com população superior a 30 mil. Mais de 10 mil pessoas buscaram proteção no complexo hospitalar após a eclosão de confrontos violentos em outubro na cidade.

Apesar de tais incidentes, MSF continuou a manter um programa de cuidados de saúde básicos e emergenciais para as comunidades com necessidades urgentes em 13 províncias e 15 locais, tanto nos hospitais de MSF quanto nas instalações públicas de saúde. Equipes conduziram campanhas de vacinação, operaram clínicas móveis e ofereceram cirurgia de emergência, serviços de maternidade, atendimento especializado para vítimas de violência sexual e tratamento para desnutrição, HIV e tuberculose.

Resposta às necessidades das crianças

A malária ainda é a maior causa de óbito no país e também a principal causa de morte entre as crianças com menos de 5 anos de idade. Três rodadas de tratamento preventivo para a malária foram realizadas em Ndele, Kabo e Batangafo entre julho e novembro, alcançando cerca de 14 mil crianças. A alta incidência de desnutrição e a baixa cobertura de vacinação também prejudicam a saúde das crianças, abreviando suas vidas. Apenas 13% dos bebês com menos de um ano recebem o pacote completo de imunização. Em julho, MSF lançou em 13 províncias uma campanha com um ano de duração, voltada para 220 mil crianças com menos de cinco anos e oferecendo a elas vacinação abrangente contra difteria, tétano, coqueluche, pólio, Haemophilus influenzae tipo B, hepatite B, pneumococo, febre amarela e sarampo.

Cuidados de saúde em Bangui

Na capital, Bangui, a violência é generalizada, e MSF se concentra nos serviços emergenciais oferecidos no hospital geral da cidade. Em 2015, a equipe realizou 4.100 intervenções cirúrgicas e prestou atendimento médico e psicológico a 675 vítimas de violência sexual. Um novo hospital cirúrgico para emergências está em construção e deve inaugurar em 2016. MSF também ofereceu 37 mil consultas no enclave PK5, de maioria muçulmana, tratando crianças com menos de 15 anos de idade no centro de saúde de Mamadou Mbaïki e a população de todas as idades na Grande Mesquita.

Durante o ano, MSF realizou até 400 consultas por dia no hospital de M’poko, no campo de deslocados do aeroporto, e 15.400 casos emergenciais foram tratados e/ou encaminhados a instalações em Bangui. No centro de saúde Castor, MSF continuou a tratar vítimas da violência e a oferecer atendimento gratuito 24 horas para emergências e mães. A equipe ajudou em mais de 7.400 partos, recebendo 10.500 pessoas no hospital e oferecendo cuidados abrangentes a 275 vítimas de violência sexual.

No dia 26 de setembro, a morte de um mototaxista deu início a episódios de retaliação violenta, com protestos violentos contra o governo interino e confrontos contra as forças internacionais de paz. Edifícios foram saqueados e destruídos e mais de 44 mil pessoas foram deslocadas. MSF tratou quase 200 casos em dois dias, muitos deles envolvendo ferimentos a bala. Clínicas móveis também foram operadas após a subsequente onda de deslocados internos, e 9.800 consultas foram realizadas entre outubro e dezembro.

Projetos de cuidados abrangentes

MSF continuou a oferecer cuidados abrangentes para pacientes internados e ambulatoriais, tanto moradores locais quanto deslocados internos, nos projetos já existentes em Kabo (Ouham), Boguila (Ouham-Pendé) Paoua (Ouham-Pendé), Carnot (Mambéré-Kadéȉ) e Ndélé (Bamingui-Bangoran). Isso incluiu consultas básicas de saúde, serviços de maternidade, emergência e pediatria, e diagnóstico e tratamento para os casos de HIV e tuberculose. Vários centros de saúde e/ou postos de saúde satélites também receberam apoio por meio desses projetos. Os departamentos de maternidade e cirurgia do hospital de Paoua foram repassados ao Ministério da Saúde em abril.

O grande projeto de emergência que teve início em Bossangoa (Ouham) em 2013 continuou a oferecer cuidados básicos e especializados por meio do hospital e de um centro de saúde em Nana-Bakassa, prestando apoio também a três postos de saúde (Bowara, Benzambé e Kouki). Uma unidade de terapia intensiva e um edifício para pacientes com tuberculose foram construídos esse ano. Em maio, o programa de nutrição e o departamento ambulatorial foram repassados ao Ministério da Saúde.

Em Berbérati (Mambéré-Kadéȉ), MSF ofereceu apoio ao hospital regional e a quatro centros de saúde com foco no atendimento para gestantes e crianças com menos de 5 anos de idade. Cerca de 6 mil crianças foram recebidas no hospital em 2015, e mais de 20 mil consultas ambulatoriais foram realizadas nos quatro centros de saúde. Ao todo, 1.800 crianças receberam tratamento para desnutrição aguda. Em maio, 28 mil crianças com idade entre 6 meses e 10 anos de idade receberam vacina contra sarampo em Berbérati e Mbako. Em Bambari (Ouaka), MSF ofereceu cuidados de saúde básicos à população local e aos cerca de 80 mil refugiados vivendo em acampamentos, por meio do centro de saúde, das clínicas móveis e pontos de tratamento contra a malária. A reabilitação nutricional é uma parte fundamental do programa, e 1.380 crianças receberam tratamento para desnutrição aguda.

Em Bria (Haute-Kotto), MSF ofereceu cuidados de saúde para crianças com menos de 15 anos de idade, incluindo tratamento contra o HIV, e 16.600 crianças foram vacinadas contra sarampo em março. Em Zémio (Haut-Mbomou), equipes ofereceram atendimento básico e especializado no hospital, concentrando-se nos casos de HIV, e prestaram apoio a quatro postos de saúde periféricos e oito pontos de tratamento contra malária.
Em Bangassou, capital da província de Mbomou, MSF continuou a trabalhar no hospital de referência oferecendo cuidados de saúde básicos e especializados, incluindo serviços de maternidade, pediatria e cirurgia. Mais de 120 mil pessoas na região dependem do hospital de Bangassou, e foram realizadas mais de 48 mil consultas ambulatoriais em 2015. As equipes também começaram a oferecer apoio a centros de saúde em Niakari e Yongofongo. Em fevereiro, MSF lançou uma campanha de vacinação contra o sarampo em Rafaï, alcançando quase 4.900 crianças, e outra em agosto, em Bangassou, chegando a 37 mil crianças vacinadas.

Equipe de resposta emergencial

A Equipe d’Urgence RCA (Eureca) de MSF responde a emergências agudas e locais no país. Entre abril e setembro, a Eureca completou intervenções emergenciais de saúde e nutrição em Kouango e Vakaga, onde foram treinados 80 profissionais do Ministério da Saúde, e doou medicamentos a cinco postos de saúde. A equipe Eureca também vacinou 9.700 crianças contra o sarampo e a pneumonia em Gadzi no mês de dezembro e ofereceu cuidados de saúde a pessoas que foram deslocadas como consequência imediata da violência vista em Bangui em setembro.

MSF começou a atuar no país em 1997.
    
Depoimento

Contrariando as estatísticas - Benjamin Black, obstetra/ginecologista

A paciente nos fora enviada de um centro de saúde do outro lado da fronteira (fluvial) no Congo. Comecei a reunir os elementos do caso dela. Era sua primeira gestação e ela parecia já estar há quatro dias em trabalho de parto; as membranas também tinham se rompido quatro dias antes e agora tudo o que saía era um fluido verde e espesso com sinais de mecônio (fezes do bebê expelidas no útero). Ela tinha chegado até nós de barco, carro e a pé no último estágio de gravidez e em meio a um trabalho de parto extremamente prolongado. Não surpreende que seu aspecto fosse péssimo.

Entrei no piloto automático e, enquanto reunia informações, comecei a instalar um acesso intravenoso. Já estava planejando nossa visita à sala de operações. Iniciei a terapia intravenosa e pedi à obstetriz que aplicasse o antibiótico intravenoso.

Metodicamente, comecei a apalpar seu abdômen. A cabeça do bebê estava para baixo, mas ainda bastante alta...

Durante o período em que estive na RCA, 17% dos casos de mulheres que precisaram de cirurgia durante o parto foram decorrentes de ruptura do útero – uma das complicações obstétricas mais graves e letais – e todas elas tinham passado anteriormente por cesarianas. Embora tenhamos a sorte de contar com equipamento adequado para a realização de cesarianas de emergência, não posso garantir que o mesmo será verdadeiro para aquela mulher em suas gestações futuras, especialmente levando-se em consideração o contexto social, econômico e político mais amplo.

A taxa de natalidade é muito alta, o acesso ao planejamento familiar é precário e a infraestrutura é insuficiente. Se ela precisar de uma cesariana, qual seria o risco de complicação ou óbito em suas próximas 6 a10 gestações, considerando o mesmo tempo necessário para a transferência?
 

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Diário de Bordo

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Início da Atuação: 
1996
Atividades Médicas: 
HIV/Aids
Malária
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