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Vamos conversar com o Talibã? Por que não? Sempre fizemos isso

19/08/2021

Foto: Afeganistão, 2019, Elise Moulin

Christopher Stokes é especialista humanitário sênior de MSF.

Jonathan Whittall é diretor do Departamento de Análise de MSF.

Christopher Stokes e Jonathan Whittall

Aviso importante: o conteúdo e as opiniões expressas nestes artigos são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem necessariamente o posicionamento oficial de Médicos Sem Fronteiras.

No momento em que as tropas dos Estados Unidos se retiram do Afeganistão, encerrando a mais longa Guerra na história de Washington, uma nova era começou para um país que tem visto forças invasoras entrar e sair de seu território ao longo dos séculos.

O noticiário foi dominado pelas forças do Talibã assumindo rapidamente o controle de capitais provinciais e tomando Cabul sem resistência, além da visão de embaixadas ocidentais sendo abandonadas, afegãos tentando desesperadamente deixar o país, estrangeiros fugindo em massa e muitas organizações não-governamentais cessando suas operações. Em contraste com estas cenas, Médicos Sem Fronteiras (MSF) e um pequeno número de outras agências humanitárias mantiveram sua presença e atividades no momento mais agudo dos combates, oferecendo atendimento que permitiu salvar vidas de doentes e feridos.

Como isso foi possível? MSF teve sucessos e fracassos no Afeganistão, mas os princípios que orientam nossa atuação têm permanecido os mesmos: só trabalharíamos se tivéssemos a concordância explícita de todas as partes envolvidas no conflito. Isso incluía o Talibã, as forças dos EUA, o Exército Nacional Afegão e em alguns casos grupos milicianos com atuação regional. Nossos princípios de neutralidade, independência e imparcialidade, que algumas vezes parecem abstratos, foram colocados em prática ao dialogarmos com todos os lados, ao recursarmos financiamento de governos, ao estarmos claramente identificados para não sermos confundidos com outros grupos com interesses distintos e ao tornarmos nossos hospitais locais onde não são admitidas armas. Qualquer um que ingressa em uma instalação médica de MSF tem de, literalmente, deixar as armas do lado de fora antes de entrar.

Ao trabalhar em hospitais de Kunduz ou Lashkargah, era comum explicarmos a soldados dos EUA, do Afeganistão e do Talibã que nunca nos recusaríamos a socorrer um paciente, seja ele um soldado do governo ferido, a vítima de um acidente de trânsito ou um combatente do Talibã. A triagem feita em nossos hospitais se baseia unicamente na necessidade. Trabalhamos de acordo com a ética médica, não de acordo com quem é considerado criminoso, terrorista, soldado ou político. Frequentemente tivemos que pedir a soldados dos EUA ou afegãos que fossem embora e voltassem sem suas armas se quisessem ingressar no hospital.

Nossa abordagem frequentemente contrastava com a maneira pela qual o sistema de ajuda – incluindo agências humanitárias – estava sendo pressionado por doadores a construir o Estado afegão, a criar estabilidade em áreas tomadas pelas tropas do governo afegão e contribuir com a legitimidade de um governo recém instalado com ajuda dos EUA. A ajuda era o “soft power” usado para que a população aderisse ao governo afegão, um componente chave da estratégia de “corações e mentes”, complementando o poder exercido pela força por meio da ação militar no país.

Foi revelador quando encontramos um provedor ocidental de ajuda humanitária em Cabul  e eles não foram capazes de nos dizer onde as necessidades humanitárias eram mais agudas. Em vez disso, mostraram em um mapa áreas controladas pelas forças de coalizão (verde), sob controle do Talibã (vermelho) e em disputa (roxo). A ajuda estava sendo enviada para as áreas verdes e roxas, para alavancar o esforço militar. ONGs internacionais que recebiam dinheiro de governos ocidentais envolvidos no conflito ficaram chocadas ao perceber o uso de linguagem militar de contra-insurgência, como “limpar o terreno e manter o controle”, relacionada à concessão de financiamento a suas atividades. Conforme um dos maiores doadores governamentais nos explicou certa vez em Cabul: “O Talibã está obtendo vitórias nessa província, dissemos para a agência humanitária forrar a província de trigo, e eles fizeram isso”.

Mas a nossa maneira de atuação nem sempre nos protegeu. Foi em 2015 que forças especiais dos EUA bombardearam nosso hospital em Kunduz depois de a província ter sido momentaneamente ocupada pelo Talibã. Isso nos demonstrou as “zonas cinzas” que existem em conflitos desse tipo. A ajuda é tolerada e aceita quando impulsiona a legitimação do Estado, mas torna-se suscetível à destruição quando adentra um território onde comunidades inteiras são designadas como inimigos e quando o Estado se sente ameaçado. Esta “zona cinza” é fomentada por ambiguidades jurídicas entre leis nacionais e internacionais, criando ambientes propícios ao que as autoridades dos EUA classificaram como “enganos”.

Após a destruição de nosso hospital, MSF entrou em contato novamente com todas as partes envolvidas no conflito para deixar clara a necessidade de respeito a nossas atividades médicas. Foi provavelmente o amplo apoio público que recebemos e o custo político do ataque a MSF que, em última instância, serviu como proteção para futuros enganos por parte de forças dos EUA ou afegãs. Apesar disso, este tipo de proteção dada pelo engajamento e pela pressão pública não adiantou quando nossa maternidade foi brutalmente atacada em Dasht-e-Barchi, muito provavelmente pelo grupo Estado Islâmico no Afeganistão, com o qual não conseguimos estabelecer diálogo.

Enquanto MSF tem sido capaz de operar nas capitais provinciais, não conseguimos acessar áreas rurais para atender as necessidades destes locais. Este tem sido um dos fracassos do trabalho da organização nos últimos anos. Apesar disso, há duas semanas, quando o Talibã entrou nas cidades, nós conseguimos continuar o trabalho de atendimento aos pacientes: doentes e feridos puderam receber cuidados médicos em instalações adaptadas para lidar com a intensidade dos combates. Em Helmand, Kandahar, Kunduz, Herat e Khost nossas equipes continuaram trabalhando. Nossas instalações médicas estão hoje cheias de pacientes.

Esta é a razão pela qual nós de MSF buscamos negociar com todas as partes de um conflito: para que nossas equipes consigam prover assistência no momento onde isso é mais necessário. Frequentemente estes momentos ocorrem em meio a mudanças de poder e de controle. Também é por isso que resistimos aos esforços de incorporar nossas atividades a processos políticos de construção de Estados. É este o motivo de elevarmos nossa voz quando nossas instalações e pessoal são atingidos.

O futuro do Afeganistão é incerto e nossas atividades continuarão sendo exercidas sob pressão. Os desafios que enfrentamos evoluirão e a segurança de nossas equipes e pacientes continua sendo uma preocupação. Mas para atravessar as futuras tempestades que venham a passar pelo Afeganistão, agentes humanitários fariam bem se decidissem seu próprio rumo baseados nas necessidades existentes, em vez de serem conduzidos pelos instáveis ventos políticos.

O Afeganistão é uma demonstração de como iniciativas de construção de nação conduzidas por atores estrangeiros podem fracassar, e como as contribuições de atores humanitários para esforços deste tipo são mínimas. Também mostra que nosso trabalho pode salvar mais vidas quanto mais independentes sejamos, tanto quando um Estado está sendo construído como quando ele desaba.


Christopher Stokes* é especialista humanitário sênior de MSF.

Jonathan Whittall** é diretor do Departamento de Análise de MSF

*Stokes foi coordenador de MSF no Afeganistão em 1996, quando o Talibã ocupou Cabul pela primeira vez. Tem retornado regularmente ao pais nas duas últimas décadas para apoiar as atividades da organização e representá-la, como Diretor de Operações e diretor-geral. Esteve pela última vez no país em 2021.

**Whittall foi coordenador de projeto de MSF em Kunduz em 2011 e 2012, quando ajudou a implantar o hospital de MSF na localidade. Posteriormente, retornou ao pais por diversas vezes, inclusive no apoio às equipes locais nas negociações ocorridas após o ataque de 2015 ao hospital de Kunduz.

Artigo originalmente publicado pela Folha de São Paulo.

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