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O racismo e a vulnerabilidade da população negra também são questões de saúde

19/11/2020
O racismo e a vulnerabilidade da população negra também são questões de saúde

Foto: MSF/Mohammed Sanabani

Presidente e vice-presidente do Conselho de MSF-Brasil

Renata Santos e Andréa Chagas

Aviso importante: o conteúdo e as opiniões expressas nestes artigos são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem necessariamente o posicionamento oficial de Médicos Sem Fronteiras.

Vivemos tempos em que problemas estruturais graves se mesclaram com uma dramática conjuntura de incertezas e crise trazidas por uma pandemia que evidenciou de modo inequívoco as injustiças sociais em nosso país. Em meio à maior crise sanitária de nossa geração, uma nova onda de denúncias e protestos contra o racismo explodiu em várias partes do mundo, ressaltando a necessidade urgente do engajamento de toda a sociedade na luta antirracista, e também nos chacoalhou.

O trabalho durante a pandemia no Brasil nos colocou diante de uma clara realidade de exclusão do acesso à saúde para populações vulneráveis e para a população negra em particular, já que ela enfrenta uma grande dificuldade para aceder a estes cuidados, relacionada ao racismo estrutural que, infelizmente, ainda vivenciamos. Essa experiência nos leva a compreender que é impossível dissociar a questão racial das dificuldades enfrentadas por muitos brasileiros e brasileiras na busca por tratamento e cura de doenças.

Pesquisas feitas antes da pandemia, com destaque para a PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), do IBGE, já apontavam uma clara diferença nas condições de vida e no acesso à saúde de negros e brancos no Brasil. Mais recentemente, novos dados específicos sobre a evolução da COVID-19 demonstram, por exemplo, que há uma chance muito maior de contágio e de morte pela doença entre a população negra. Isso pode ser constatado mesmo considerando que até meados de abril os dados nacionais da COVID-19 não eram divulgados levando-se em conta o critério de raça, e que ainda atualmente há casos em que o campo “raça” das pesquisas é deixado sem resposta.

Infelizmente, esse pouco rigor na coleta de informações tem como resultado a dificuldade em obter um retrato mais fidedigno dos impactos da pandemia sobre as populações vulneráveis no Brasil. Estas informações seriam fundamentais para a elaboração de políticas públicas mais eficientes e focadas. Sem elas, não é possível produzir estratégias de cuidado alinhadas a necessidades específicas desse grupo populacional. Assim, o racismo estrutural é perpetuado por meio da invisibilidade da população negra e da precariedade de seu acesso aos serviços básicos em saúde em nosso país.

A deficiência de informações vem sendo, ao menos parcialmente, superada. Estudos realizados recentemente mostraram, por exemplo, uma taxa de mortandade muito superior em negros (172 por 100 mil) do que em brancos (115 por 100 mil), tomando como referência a realidade de São Paulo. Dados nacionais, divulgados neste mês pela Fiocruz, apontam para um percentual desproporcional de mortes de pessoas negras, de 48,2%, contra 31,12% entre brancos, com a ressalva de que em 20,15% dos casos a raça não foi informada.

Um entendimento mais profundo de como a COVID-19 vem atingindo diferentes grupos de maneira distinta deixa cada vez mais evidente que a ideia de que a doença seria “democrática” é falsa. Basta perguntar-se quem são as pessoas mais sujeitas a se contaminarem, seja pelas condições de vida (precariedade de moradia, saneamento, acesso a transporte, entre outros), pela inevitabilidade de se expor ao contágio para continuar gerando algum tipo de renda ou a impossibilidade de isolar-se em caso de ficar doente.

Esses elementos compõem o enredo de histórias de dor e sofrimento emocional que se repetem frequentemente, como a de uma jovem paciente do SUS de 22 anos que conhecemos. Ela ficou doente, provavelmente contaminou a mãe por falta de condições de isolamento adequado em casa e posteriormente teve dificuldades para obter uma vaga em hospital. Essa mãe, de apenas 46 anos, veio a falecer 48 horas depois de internada. Para a filha, ficou o impacto devastador sobre a saúde mental de uma experiência de culpa e luto com pouca possibilidade de elaboração. Infelizmente, essa é a realidade de algumas famílias negras que nascem, vivem e morrem em condições que ferem a dignidade da vida.

Vivências como essa são um exemplo claro do panorama de desigualdade no acesso à saúde entre negros e brancos no país. Compreendemos que temos um longo caminho a percorrer até que essa disparidade seja corrigida e todas as pessoas possam receber os cuidados de saúde de que necessitam. De nossa parte, esperamos que o movimento para mudanças urgentes e profundas, intensificado nos últimos meses, cresça e ganhe cada vez mais força. Como organização humanitária de saúde, Médicos Sem Fronteiras reconhece que o racismo estrutural exacerba as vulnerabilidades na população negra, que impactam tanto na sua qualidade de vida quanto na qualidade dos cuidados que lhe são ofertados. Por isso, o dia da Consciência Negra é uma data que nos convoca a reafirmar o compromisso de todos nós com a vida, e também nos diz respeito.

 

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