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Nós, refugiados Rohingya, poderíamos simplesmente nos tornar invisíveis

03/09/2021
Khin Maung, de 26 anos, é da etnia Rohingya; ele faz relato sobre a vida como refugiado em Bangladesh, desde 2017, quando seu vilarejo em Myanmar foi atacado pelo exército.
Nós, refugiados Rohingya, poderíamos simplesmente nos tornar invisíveis

Foto: Tariq Adnan

Aviso importante: o conteúdo e as opiniões expressas nestes artigos são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem necessariamente o posicionamento oficial de Médicos Sem Fronteiras.

Quando chegamos pela primeira vez ao nosso acampamento de refugiados - um dos muitos montados em Cox's Bazar, Bangladesh - pensei que estaríamos de volta a Mianmar depois de dois ou três meses. Alguns de nossos vizinhos ainda estavam lá e meu vilarejo ainda estava intocado. Nosso acampamento ficava muito perto da fronteira entre esses dois países, então voltar seria fácil.

Isso foi há cinco anos. Minha casa já se foi há muito tempo, reduzida a cinzas.

Se me dissessem para voltar agora, eu pensaria que estavam loucos - simplesmente não há como. Certamente não há meios legais para retornar, apenas meios ilegais. Queremos uma solução adequada, razoável e justa, porque somos cidadãos de Mianmar. Se abríssemos mão de nossos direitos e decidíssemos voltar, o que aconteceria com o nosso futuro?

Claro que não quero dizer que não queremos voltar para casa - queremos voltar o mais rápido possível. Ninguém quer ser refugiado. Às vezes me sinto como se não fosse humano. Sinto como se estivesse vivendo nas profundezas de uma floresta com animais selvagens, sem nada que eu possa chamar de meu - sem educação, sem segurança, nem mesmo liberdade. Mas queremos voltar preservando nossos direitos e com a certeza de que estaremos seguros. Para que esse processo seja bem-sucedido, as autoridades de Bangladesh precisam conversar conosco e nos envolver nas discussões, tanto quanto envolvem outras partes e países. Quanto mais tempo ficarmos em Bangladesh, mais eu tenho medo de que a questão do povo Rohingya progressivamente caia no esquecimento da agenda internacional até que simplesmente nos tornemos invisíveis.

Aqui nos acampamentos, nosso acesso aos cuidados de saúde é muito limitado porque as instalações médicas oferecem apenas cuidados básicos. Não há atenção disponível para casos mais graves, enquanto o aumento das restrições supostamente vinculadas à COVID-19 dificultam cada vez mais a busca de opções fora dos acampamentos. Os pacientes que precisam de cirurgia de emergência ou cuidados médicos especializados costumam enfrentar problemas nos controles de saída dos acampamentos. O mesmo ocorre com as pessoas que sofrem de doenças crônicas ou problemas de saúde mental; às vezes, elas não têm permissão para deixar os acampamentos a tempo e perdem suas consultas ou ficam sem medicamentos.

Existem poucos bancos de sangue nos acampamentos, e a falta de coordenação entre as autoridades e as ONGs costuma resultar na perda de vidas. Os membros da Associação Juvenil Rohingya, que criei para apoiar minha comunidade, tentam doar sangue sempre que necessário. Mas isso está longe de ser suficiente. Recentemente, recebemos um alerta de um paciente crítico apenas 20 minutos antes de seu falecimento. Não pudemos salvá-lo.

Compreendemos, é claro, que a COVID-19 representa um sério problema de saúde e, portanto, requer algumas restrições de movimento. Mas é necessário que haja exceções, assim como para os cidadãos de fora dos acampamentos.

Mais uma vez, às vezes sentimos como se não fôssemos seres humanos que vivem com dignidade. Algumas famílias nos acampamentos tinham rendimentos muito pequenos anteriormente, mas essenciais de pequenos negócios. Eles talvez ganhassem entre US$ 20-30 (cerca de 100 a 150 reais) por mês, mas tudo isso se foi devido às restrições relacionadas à COVID-19. As restrições tornaram as pessoas totalmente dependentes dos alimentos fornecidos por organizações humanitárias, mas que dificilmente são suficientes para sobreviver.

Meu sonho é um dia ser advogado e defender nossa causa nos tribunais internacionais. O governo de Mianmar usou a lei para eliminar nossos direitos, por isso precisamos ser capazes de contra-atacar com a ajuda da lei. Mas nossos jovens não estão familiarizados com as palavras da Declaração dos Direitos Humanos das Nações Unidas - um documento internacional adotado pela Assembleia Geral da ONU que consagra os direitos e liberdades de todos os seres humanos - que diz que somos todos iguais perante a lei. No entanto, não recebemos sequer um treinamento básico nos acampamentos para capacitar nossos jovens e aprender o básico sobre direitos humanos. Sei de algumas universidades ao redor do mundo que nos dariam a chance de ingressar em seus cursos, mas as autoridades impediram que isso acontecesse.

Se não conseguirmos continuar nossa educação, vamos perder uma geração inteira. Se tivermos que ficar aqui por 10 anos, o que acontecerá com nossos filhos?

Apesar desses desafios, espero não perder a esperança.


*Este artigo de opinião foi originalmente publicado no The National News


 

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