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Emergência climática: um apelo humanitário à ação

23/09/2019
Avril Benoît, diretora-executiva de MSF-Estados Unidos, fala sobre uma crise anunciada
Emergência climática: um apelo humanitário à ação

Foto: Connor Hana

Avril Benoît
Avril Benoît

Aviso importante: o conteúdo e as opiniões expressas nestes artigos são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem necessariamente o posicionamento oficial de Médicos Sem Fronteiras.

Vimos tudo isso se aproximando. Como humanitários, nossas avaliações de risco em diferentes partes do mundo sempre consideraram o potencial para o surgimento de eventos climáticos extremos e a disseminação de doenças transmitidas por vetores, secas, desertificação e deslocamento em massa. Profissionais de emergência como somos elaboramos cenários para agir e adquirimos experiência cada vez que testamos nosso planejamento em crises reais.

Como uma organização médico-humanitária que trabalha com algumas das comunidades mais vulneráveis nos focos climáticos, as equipes de Médicos Sem Fronteiras (MSF) estão respondendo aos tipos de desafios de saúde pública que ameaçam aumentar em número e gravidade se ações urgentes para reduzir as emissões de carbono não forem tomadas. Estamos diante de uma emergência climática, com consequências devastadoras para a saúde global e as necessidades humanitárias. As comunidades pobres e marginalizadas já sofrem as piores consequências das mudanças climáticas e correm maior risco de danos futuros.

Vemos em primeira mão como fatores ambientais podem piorar as crises humanitárias. MSF capturou parte dessa experiência em um relatório especial, “Mudança climática e saúde: uma nova fronteira urgente para o humanitarismo”, publicado como parte do projeto Lancet Countdown, que examina os impactos atuais e previstos na saúde relacionados ao clima.

No início deste ano, lançamos uma operação de emergência maciça em Moçambique, após as devastadoras inundações causadas pelo ciclone Idai. Algumas semanas depois, com as pessoas ainda sofrendo com o desastre, um segundo ciclone atingiu o país. Foi a primeira vez na história que houve registro de dois ciclones atingindo Moçambique em uma única temporada.  A escala dos danos causados por esses desastres consecutivos foi um alerta para a preparação para ciclones tropicais de alto impacto, inundações costeiras e chuvas intensas ligadas às mudanças climáticas, de acordo com um comunicado da Organização Meteorológica Mundial (OMM), uma agência da ONU.

"Nunca na minha vida, nem na vida de meus pais e avós, alguém viu chuva assim", disse uma enfermeira de MSF em Moçambique cujo marido se afogou nas águas da enchente. Quando as pessoas em seu país veem a chegada de um helicóptero, você vê as áreas inundadas e as árvores arrancadas, mas há muitas coisas que você não consegue ver. Abaixo das águas, abaixo dos galhos quebrados, você vai nos encontrar histórias, tristeza e determinação de viver.

Sabemos que, com o aumento das águas, surge o risco crescente de doenças transmitidas pela água, como a cólera. Após o ciclone Idai, as equipes de MSF trabalharam o tempo todo para garantir que as pessoas tivessem acesso à água limpa. Tratamos mais de 4 mil pessoas com suspeita de cólera e apoiamos uma campanha em larga escala para vacinar mais de 800 mil pessoas contra a doença.  O ciclone também deixou grandes piscinas de água parada, criadouros ideais para mosquitos que transmitem doenças. E as águas inundaram os campos pouco antes da estação da colheita, destruindo cerca de 1,8 milhão de acres de plantações e ameaçando a segurança alimentar em uma área onde as pessoas já estão vulneráveis à desnutrição.

Para cada desastre principal, há ondas de desastres relacionados e crises médicas decorrentes.
Com temperaturas mais quentes, o aumento do nível do mar e fortes chuvas, podemos esperar um aumento de doenças sensíveis ao clima, incluindo doenças transmitidas pela água, como a cólera e doenças transmitidas por vetores, espalhadas por um número crescente de mosquitos e carrapatos, como a malária, dengue e doença de Lyme. A malária já mata mais de 400 mil pessoas por ano, principalmente crianças com menos de 5 anos de idade e predominantemente na África subsaariana. Em 2012, 2014 e 2015, as equipes de MSF observaram picos significativos nos casos de malária em vários países subsaarianos em comparação com as médias de longo prazo. Embora as razões por trás desses aumentos sejam complexas – incluindo, fundamentalmente, apoio político e financeiro inadequado para os esforços de controle de doenças – o peso das evidências sugere que a incidência e a prevalência da malária aumentarão na África e em outros lugares devido às mudanças climáticas.

Honduras, considerado um foco de mudança climática, está enfrentando seu pior surto de dengue em 50 anos após uma prolongada estação chuvosa. Os pacientes de MSF são principalmente crianças com menos de 15 anos de idade e aqueles que vivem em áreas urbanas mais pobres. A dengue grave afeta a maioria dos países latino-americanos e asiáticos e é uma das principais causas de hospitalização e morte entre crianças e adultos nessas regiões, segundo a OMS. Em todo o mundo, a incidência da dengue aumentou 30 vezes no último meio século, com aproximadamente 390 milhões de infecções em 2010, em parte devido às temperaturas mais altas e à propagação associada a isso de espécies de mosquitos que transmitem e espalham a doença.

O impacto das mudanças climáticas e da degradação ambiental na saúde das pessoas não é novo. A guerra de Darfur no Sudão, que começou em 2003, foi chamada de "conflito das mudanças climáticas", com a violência causada em parte pela insegurança de alimentos e água, à medida que grupos competiam por recursos escassos durante uma seca. Embora houvesse muitos fatores por trás desse conflito – incluindo fatores políticos, militares, raciais e étnicos – estudos subsequentes acrescentaram outro elemento a ser considerado: um aumento nas temperaturas do oceano Índico interrompeu as monções sazonais, contribuindo para a seca da região. O conflito matou 400 mil pessoas. MSF tratou milhares de outras vítimas de violência extrema, deslocamento forçado e desnutrição. Com a ONU estimando que, até 2025, dois terços de todas as pessoas no mundo podem viver em condições de estresse hídrico, estamos extremamente preocupados com a perspectiva de conflitos e convulsões mais amplos.

Também estamos vendo desnutrição devido à seca e escassez de água em lugares como a região do lago Chade no Sahel. O lago Chade já foi um dos maiores lagos da África e uma fonte vital de água para as pessoas que vivem nos países vizinhos do Chade, Camarões, Nigéria e Níger. O uso excessivo e a seca deixaram as pessoas sem água suficiente para beber, cozinhar ou lavar, e muito menos para regar suas colheitas para garantir rendimentos futuros. As crianças aqui enfrentam um alto risco de desnutrição, que por sua vez pode atrapalhar seu desenvolvimento e enfraquecer seu sistema imunológico. Isso as torna mais suscetíveis a outras doenças mortais como a malária. Estima-se que 422 milhões de pessoas em 30 países estejam desnutridas devido a problemas relacionados ao clima na produção de alimentos.

As mudanças climáticas e a degradação ambiental podem contribuir ainda mais para níveis recordes de migração e deslocamento forçado. Embora as estimativas variem amplamente, a projeção mais frequentemente citada é que cerca de 200 milhões de migrantes climáticos sairão de suas casas até 2050, se prevalecerem as tendências atuais.  No México, nossas equipes tratam milhares de pessoas a cada ano que fogem de extrema violência e pobreza em Honduras, El Salvador e Guatemala. A seca prolongada e outros fatores de pressão ambiental na região também estão em jogo, de acordo com um corpo crescente de relatórios da ONU e da mídia.

Sabemos que a maioria das pessoas deslocadas busca alternativas dentro de seu país de origem antes de tomar a difícil decisão de atravessar fronteiras internacionais. Muitos se mudam para os centros urbanos em busca de emprego e meios de subsistência e acabam vivendo em bairros altamente poluídos e trabalhando em condições perigosas. Em Bangladesh, uma zona costeira baixa, estamos prestando cuidados primários e de saúde ocupacional para as pessoas na favela de Kamrangirchar, em Daca. Muitos desses moradores foram forçados a se mudar para a cidade depois que as inundações contaminaram suas terras agrícolas com água salgada. Nossos pacientes incluem pessoas feridas ou adoecidas no decorrer de seu trabalho nas numerosas fábricas de pequena escala da região, bem como sobreviventes de violência sexual e violência por parceiro íntimo, muitas vezes presas em locais com seu agressor.

Como humanitários, devemos intensificar nossa defesa de políticas para melhorar a assistência e a proteção das pessoas mais afetadas pelas consequências diretas e indiretas das mudanças climáticas. As pessoas com maior risco no futuro são aquelas que já sofrem hoje devido às vulnerabilidades e desigualdades existentes. Em junho, em nossa Assembléia Geral Internacional, MSF se comprometeu a fazer mais para resolver urgentemente as crescentes consequências humanitárias para as populações vulneráveis em decorrência de degradação ambiental e mudanças climáticas. Nossa responsabilidade para com nossos pacientes, profissionais e o mundo é de agir melhor.

As organizações humanitárias e de saúde também devem dar o exemplo e abordar os impactos ambientais de nossos próprios esforços de ajuda. À medida que realizamos nosso trabalho, MSF é guiada pela ética médica – particularmente o dever de prestar assistência sem causar danos a indivíduos ou grupos. Estamos desenvolvendo um kit de ferramentas para medir e monitorar sistematicamente a pegada ambiental de MSF em todo o mundo, com o objetivo de reduzir o uso de energia, transporte aéreo e desperdício, enquanto ainda executamos nosso trabalho. Também estamos desenvolvendo uma estrutura de orientação para promover práticas éticas, eficientes e sustentáveis de ajuda humanitária. Nos projetos de MSF, as equipes estão explorando maneiras de reduzir nossa própria pegada de carbono – como usar menos diesel e depender menos de viagens aéreas para pessoas e cargas. Testamos o uso de painéis solares para alimentar nossas instalações em lugares como a República Democrática do Congo e o Haiti e estamos construindo um hospital com eficiência energética em Serra Leoa.

Embora todos tenhamos um papel a desempenhar, governos e indústrias poluidoras devem agir agora para reduzir as emissões de gases de efeito estufa e limitar o aquecimento global. Eles também têm o dever de ajudar os mais afetados pelas mudanças climáticas. É claro que as previsões desastrosas à frente excedem em muito as capacidades de um setor humanitário já sobrecarregado. No momento em que ativistas e líderes mundiais se encontram em Nova York para a Cúpula de Ação Climática das Nações Unidas, em 23 de setembro, é fundamental que enfrentemos os desafios ambientais de hoje antes que eles contribuam para a multiplicação de catástrofes humanitárias no futuro.
 

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