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Desafios da doença de Chagas no Brasil

18/10/2017
Notificação dos portadores crônicos continua sendo um dos principais desafios no país
Desafios da doença de Chagas no Brasil

Foto: Kenneth Tong

Aviso importante: o conteúdo e as opiniões expressas nestes artigos são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem necessariamente o posicionamento oficial de Médicos Sem Fronteiras.

Andréa Silvestre, Ângela Junqueira, Otacílio Moreira e Rubem Menna-Barreto
Pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz

A doença de Chagas ainda representa um sério problema de saúde pública no Brasil. Estima-se que cerca de 2,5 milhões de pessoas ainda estejam infectadas, das quais a maioria encontra-se na fase crônica da doença. Destas, cerca de um terço apresentam ou vão apresentar alguma manifestação grave, cardíaca ou digestiva, de evolução lenta e progressiva, e muitas vezes incapacitante.

Em setembro de 2015, os países da Organização das Nações Unidas (ONU) definiram o plano de ação global de desenvolvimento sustentável para os próximos 15 anos. No plano da saúde e bem-estar foi firmado o compromisso de se acabar, até 2030, com as epidemias de AIDS, tuberculose, malária e doenças tropicais negligenciadas, entre elas a doença de Chagas. O Brasil, como um dos países signatários deste documento, pela sua importância histórica nesta doença, assume um papel central na construção de ações concretas necessárias ao cumprimento deste objetivo.
A vulnerabilidade social, bem como seus determinantes (pobreza, fome, miséria, dentre outros), representam um complexo desafio a ser superado. Os benefícios já alcançados devem ser preservados e novas ações devem ser implementadas em prol deste desenvolvimento sustentável. Desta forma, o acesso igualitário a ações para promoção, proteção e recuperação da saúde devem ser mantidos, como bem definidos pela Constituição do Brasil de 1988. Nela, assumimos o desafio de um sistema universal, público e gratuito de saúde, pautado em princípios finalísticos que englobam, entre outros, equidade e integralidade de ações.

O sucesso do compromisso que assumimos em 2015 junto à ONU só pode ser atingido se compreendermos nossos alvos de atenção. Falando de doença de Chagas, assumimos com este objetivo o controle de todas as formas de transmissão desta doença, sua vigilância constante e, sobretudo, o conhecimento e o cuidado integral aos milhões de cidadãos cronicamente acometidos. É crucial que todos recebam a atenção integral, envolvendo o cuidado multiprofissional, compreendendo o contexto em que o indivíduo se encontra inserido, com suas diversidades econômicas, sociais e culturais, através de uma atuação profissional individualizada, que gera a melhoria de sua qualidade de vida e de seus familiares.

Esse plano só atingirá o sucesso se identificarmos e quantificarmos a população cronicamente afetada pela doença de Chagas. Infelizmente, não existe hoje no país a obrigatoriedade de notificação dos casos crônicos, restrita apenas aos casos agudos. Como atuar, tratar e erradicar uma entre tantas doenças negligenciadas, cuidando de forma integral dos acometidos, respeitando o direito teórico assumido em nossa Constituição, se não somos capazes de quantificá-los ou mesmo identificá-los? Um dos planos de ação defendido por pesquisadores desta área seria incluir a doença de Chagas em sua fase crônica na Lista Nacional de Notificação Compulsória de doenças, agravos e eventos de saúde pública nos serviços de saúde públicos e privados em todo o território nacional, priorizando políticas e programas de vigilância e de controle desta doença. Outras ações simples, como a obrigatoriedade da realização da sorologia de Chagas no pré-natal de portadoras provenientes de áreas endêmicas, seriam fundamentais para o cumprimento do nosso objetivo maior de controle das doenças tropicais negligenciadas.

Infelizmente, os recentes cortes orçamentários, bem como os retrocessos nas políticas públicas de saúde, já apresentam forte impacto na sociedade brasileira, evidenciando ainda mais nossa desigualdade econômica e social. A fim de honrar nosso compromisso histórico com essa população desassistida, por décadas negligenciada, precisamos fortalecer, de forma incondicional, um dos princípios básicos do Sistema Único de Saúde que é o da integralidade. Integralidade de assistência, entendida como um conjunto articulado e contínuo das ações e serviços preventivos e curativos, individuais e coletivos, exigidos para cada caso em todos os níveis de complexidade do sistema. E esta integralidade só será alcançada nos pacientes acometidos com doença de Chagas, quando dermos visibilidade ao número significativo de pacientes que se encontram na fase crônica da infecção. Além disso, devemos seguir lutando para assegurar o compromisso com a manutenção de recursos com pesquisas, especialmente para desenvolvimento de novos medicamentos e métodos diagnósticos a serem incorporados efetivamente como tecnologias em saúde. Neste contexto, enxergar e dar voz e cuidado aos cronicamente afetados pela doença de Chagas deve ser nossa prioridade. O Brasil, entre outros países, assinou este compromisso. É nosso dever encontrar meios para cumpri-lo!

Saiba mais sobre a doença de Chagas no site: http://chagas.fiocruz.br/