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COVID-19: "Sinto muito por estar dando tanto trabalho"

22/06/2020
Por Raquel Simakawa, médica de MSF
COVID-19: "Sinto muito por estar dando tanto trabalho"

Foto: MSF

Raquel Simakawa

Médica

Raquel Simakawa

Aviso importante: o conteúdo e as opiniões expressas nestes artigos são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem necessariamente o posicionamento oficial de Médicos Sem Fronteiras.

Equipes de Médicos Sem Fronteiras (MSF) estão presentes na cidade de São Paulo para ajudar na resposta à epidemia de COVID-19 no Brasil. O trabalho da organização se concentra em populações vulneráveis, incluindo pessoas em situação de rua, idosos em instituições de longa permanência, moradores de áreas carentes, moradores da Cracolândia e adolescentes em situação de privação de liberdade. São realizadas consultas médicas para detecção de casos suspeitos de COVID-19, triagem com encaminhamento dos doentes em estado grave para hospitais e orientações de higiene. A seguir, a médica Raquel Simakawa conta uma situação recente que a marcou.
 
“’Sinto muito por estar dando tanto trabalho’. Me inclino na mesa para ter certeza do que acabei de ouvir naquela fala tímida por detrás da máscara: ‘Sinto muito por estar dando todo esse trabalho para vocês’. Prendi a respiração por um segundo enquanto observava aquele senhor, com seus 60 e poucos anos, com a respiração ofegante de quem está com a saturação de oxigênio abaixo de 90%. Já era o terceiro dia naquela situação, entre idas e vindas do pronto socorro – que insistia em não atendê-lo com dignidade e dava alta a um senhor com clara indicação de internação hospitalar para, no mínimo, receber oxigênio.
 
Ele era um dos mais de 50 pacientes de um dos Centros de Acolhida Emergenciais, onde eu atuo como médica de MSF em São Paulo. São espaços criados para isolamento social de pessoas com suspeita de COVID-19 que apresentam sintomas iniciais leves. Casos leves são orientados a permanecerem em casa, isolados, e a procurarem o serviço de saúde a qualquer sinal de piora, como o que aquele senhor vinha apresentando. Recomendações difíceis de serem seguidas por uma população em situação de rua, que está em locais públicos ou nos centros de acolhida, e que corresponde na cidade de São Paulo a mais de 24 mil pessoas. O último censo realizado em 2019 revela que 85% são homens, mais de 65% da população é negra e 46% tem idade entre 31 e 49 anos. E 386 pessoas se declararam trans. Dependência química e alta prevalência de tuberculose são apenas duas das várias dificuldades enfrentadas por essa população.
 
Algumas recomendações são difíceis de serem adotadas, por várias questões, como a inviabilidade de um isolamento para quem está na rua ou em um abrigo ou em uma casa com um cômodo para 4, 5 ou mais pessoas. Existe também o cruel descaso e o pacote de preconceitos com que essa população, já invisível em tempos antes da pandemia, é muitas vezes atendida no sistema de saúde.
 
Não é apenas o vírus que tem causado todo esse sofrimento, ele não é o único inimigo a ser combatido na linha de frente, como ouço através de questionáveis analogias à guerra e a super-heróis. O homem diante de mim demonstra com clareza que há outros vilões, entre eles a desigualdade social e econômica. O que faz um idoso negro, doente e em situação de rua se sentir “dando trabalho” a profissionais de saúde exercendo sua função?
 
O episódio me fez pensar que não somos apenas nós, profissionais de saúde, que deveríamos estar na chamada linha de frente. A verdadeira linha de frente deveria ser toda a comunidade global, que, em conjunto, precisa lutar por uma sociedade mais justa e equalitária para todos os povos, sem distinção.
 
Volto a respirar e tento deixar claro para aquele senhor, talvez até mais para mim do que para ele, que esse cuidado é seu direito.

 

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