Você está aqui

A voz de uma sobrevivente do massacre de Tula Toli, em Mianmar

09/09/2019
Mumtaz Begum sobreviveu ao massacre de Tula Toli em 30 de agosto de 2017 e hoje vive em Bangladesh
A voz de uma sobrevivente do massacre de Tula Toli, em Mianmar

Foto: Mohammad Ghannam/MSF

Até aquele dia terrível, Mumtaz e seu marido, Abu al Husain, eram pais de três meninos, Mohammad Othman, de 11 anos de idade; Mohammad Sadiq, de 5 anos de idade; e Shafiq Allah, de 3 anos de idade. Eles também tinham uma filha, Rozia, de 9 anos de idade.

Apenas Mumtaz e Rozia sobreviveram ao massacre. Agora elas vivem em um campo de refugiados no distrito de Cox's Bazar, em Bangladesh, onde mal conseguem sobreviver.

"Eu estava lavando roupa bem em frente à nossa casa; meu marido e filhos estavam lá dentro. Estava chovendo um pouco. De repente, vi dezenas de homens caminhando lentamente em direção às casas do vilarejo. Eles usavam uniformes verde-escuros. Eles começaram a atirar em direção às casas. Corri para dentro para avisar minha família e fugi com minha irmã e minha mãe, que moravam na casa ao lado", conta ela.

Mumtaz faz uma pausa por um momento para recuperar os sentidos. Ela diz que tem dificuldade em se concentrar agora. Ela também diz que perdeu a audição logo após membros das forças de segurança de Mianmar baterem nela com um bambu.

"Corremos para um campo, mas não havia árvores para nos esconder. Os homens armados nos perseguiram no campo e nos cercaram. Eles separaram homens de mulheres e crianças. Procurei desesperadamente meu marido, senti como se já estivesse morto. Eles começaram a atirar nos homens. Então, eles derramaram gasolina em seus corpos e a incendiaram. Depois, dividiram as mulheres em grupos de seis ou sete. Entrei em uma casa com meus filhos. Vi cinco soldados em casa, que me pediram para entregar minhas joias de ouro. Foi lá que eles rasgaram minhas roupas e encontraram meu dinheiro, as economias de uma vida que eu havia escondido em minhas roupas íntimas. Eles riram enquanto me despiam. Eu gritei de terror. Tive a sensação de estar em um mundo paralelo, em outra realidade, em outro planeta ou no inferno", explica Mumtaz.

"Enquanto isso, meus três meninos atacaram os soldados para tentar me defender. Os soldados começaram a espancá-los com bambu repetidamente, até morrerem. Eu ouvi seus crânios sendo esmagados. Depois, esfaquearam Rozia na cabeça, mas felizmente ela conseguiu escapar", diz Mumtaz. "Mesmo dois anos depois, as cicatrizes de Rozia ainda são muito visíveis”.

Mumtaz para de falar por um momento e olha para o chão. Ela testemunhou o assassinato de seu marido e filhos. Mas sua provação está longe de terminar. "Enquanto eu estava nua, dois soldados agarraram minhas pernas e ombros, e o terceiro me estuprou", diz ela. Esta é a última coisa que Mumtaz lembra do dia do massacre. Depois disso, ela perdeu a consciência antes de acordar em uma casa em chamas.

"Olhei em volta e vi quatro mulheres amarradas com uma corda. Elas me imploraram para libertá-las porque eu era a única que não estava amarrada. Elas estavam gritando terrivelmente, eu não sabia o que fazer. O teto estava caindo aos pedaços sob as chamas. Corri para fora seminua e profundamente queimada. Não ajudei ninguém", explica Mumtaz. "Eu deveria tê-las ajudado, mas juro que não pude. Abandonei quatro das minhas vizinhas e os corpos dos meus três filhos mortos.”

"Minha filha Rozia estava escondida lá fora. Ela me encontrou e me ajudou a correr em direção à montanha. Eu estava correndo para salvar minha vida, mas a única coisa em que pensei foi o que meus filhos devem ter sentido antes de morrer...”

Por cinco dias, Mumtaz e Rozia se esconderam nas montanhas, alimentando-se exclusivamente de folhas de árvores. "Um grupo de moradores nos viu e teve pena de nós. Eles nos trouxeram para seu vilarejo, Shilkhali. Ficamos uma noite lá. Depois, um pescador nos levou para Bangladesh a bordo de seu barco. Ele não nos cobrou nada porque viu que nossos ferimentos doíam demais", lembra ela.

Quando ela chegou a Bangladesh, Mumtaz foi tratada por um mês no hospital de MSF. Com o tempo, Mumtaz recuperou forças. Em julho de 2018, ela se casou novamente e teve um menino, Mohammad Younis, que agora tem seis meses de vida. "É como um presente de Deus, é um bebê feliz e saudável.”

Infelizmente, sua nova história de amor não durou muito. "Meu marido fugiu, ele nos abandonou sem motivo. Eu não sei onde ele está. Isso parte meu coração porque ele me deixou sozinha com uma criança e um bebê recém-nascido. É realmente difícil alimentar minha família e atender às necessidades dos meus filhos", explica ela.

"Tudo o que eu quero é viver uma vida decente em minha terra, como antes. Não quero mais implorar a ninguém ou ficar na fila por horas com meu bebê nos braços para poder comer. Quero recuperar minha dignidade", conclui Mumtaz.

MSF usa cookies neste site para melhorar sua experiência.
Saiba mais na

Política de Privacidade. Aceitar