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Violência em Masisi limita acesso a tratamento

21/12/2012
Moradores de cidade da República Democrática do Congo sofrem com aumento da violência étnica na região

Enquanto os moradores de Goma, na República Democrática do Congo, e dos campos nos arredores continuam com medo de um novo confronto entre o grupo armado M23 e as forças leais ao governo, na cidade de Masisi, a cerca de 80 quilômetros a noroeste dessa região, Médicos Sem Fronteiras percebe um aumento na violência. Nessa área isolada da província de Kivu do Norte, a organização de emergência médica está fornecendo apoio para o hospital de saúde primária da região.

A onda de violência, a pior desde 2007, forçou dezenas de milhares de pessoas a fugir e está restringindo fortemente o acesso a cuidados médicos nos arredores de Masisi.

Nessa entrevista, o coordenador de projetos Amaury Grégoire fala sobre a situação na região:
 
Qual é a situação atual na região de Masisi?
Nós estamos muito preocupados com a forte retomada da violência. O número de feridos tratados pela nossa equipe cirúrgica mais que triplicou em três meses. Hoje, cerca de uma em cada cinco cirurgias envolve pessoas feridas por arma de fogo ou faca. Não presenciamos esse nível de violência desde que chegamos a Masisi, em 2007.

O que explica esse aumento da violência?
Há muitos grupos armados na região e as disputas são resolvidas com o uso da violência. As pessoas são ameaçadas e atacadas todos os dias, em casa, nos campos e nas estradas. Esses ataques são, muitas vezes, motivados pelo dinheiro, mas também estamos vendo um número crescente de ataques gratuitos e motivados por questões éticas. Eles são perpetrados por grupos armados e por civis que pertencem a outras comunidades.

Quem são as vítimas primárias?
Os pacientes feridos admitidos no hospital incluem homens armados, é claro, porque a região foi palco de combates consideráveis ao longo das últimas semanas. Mas nós também estamos percebendo um aumento no número de civis, incluindo mulheres e crianças. Em alguns casos, a violência atinge níveis terríveis. No dia 4 de novembro, o povoado de Shoa, localizado a poucos quilômetros da cidade de Masisi, foi atacado. Sete pessoas que morreram de ferimentos causados por facão foram levadas até nós, no hospital. Entre as vítimas estavam duas mulheres grávidas e um bebê. Mais tarde, no dia 29 de novembro, depois de uma série de ataques no povoado de Kihuma as equipes de MSF trataram 32 feridos, 8 sofrendo com traumas causados pela violência. Essa violência sem precedentes matou sete pessoas naquele dia.

MSF também está observando um aumento do número de estupros?
Em Masisi, nossas equipes geralmente tratam, em média, entre 40 e 70 vítimas de estupros por mês. Em novembro, nossas equipes atenderam 20 casos de violência sexual. Nós tememos que essa redução não seja um bom sinal. Infelizmente, a violência contra mulher não deve ter caído repente. A insegurança e o aumento das tensões étnicas são obstáculos para as pessoas que precisam vir ao hospital ou ao centro de saúde. As pessoas estão com medo e permanecem em casa, muitas vezes arriscando suas vidas.  

Qual é o impacto direto dessa nova situação na vida das pessoas?
Há cerca de 40 mil pessoas desalojadas somente na região dos vilarejos de Rubaya e Kibabi. Essas famílias estão vivendo em condições extremamente precárias e um surto de cólera fez a situação ainda mais desesperadora. Além disso, as pessoas estão com medo de ir aos centros de saúde. Com exceção dos atendimentos de emergência, pelos quais percebemos um crescimento acentuado no número de vítimas da violência, as admissões no hospital de Masisi caíram consideravelmente. Nós sabemos que as necessidades existem, mas as pessoas têm medo de sair de casa. Por exemplo, há muitos casos de gravidez de risco. Nessa região, para cada 100 grávidas, entre cinco e dez precisam de cesariana de emergência. Nas últimas semanas, poucas mulheres nos procuraram. Em novembro, metade dos leitos estavam vazios, sendo que, normalmente, a maioria fica ocupada. Isso é muito preocupante. Essas mulheres não têm alternativas e serão forçadas a dar à luz sozinhas, sem ajuda alguma. Nós sabemos que algumas delas não irão sobreviver.

Qual o impacto desse cenário para o trabalho de MSF na região?
Quando as pessoas estão menos dispostas a sair de casa, as equipes de MSF têm que ir até elas. Nós sempre temos que cruzar a linha de frente das batalhas para fornecer cuidados médicos. Nós também oferecemos uma ambulância para transporte de pacientes até o hospital. No campo que abriga as pessoas desalojadas em Rubaya, damos suporte ao centro de saúde e montamos um centro de tratamento de cólera. Ao longo de apenas três semanas, a equipe realizou mais de três mil consultas e nosso centro de tratamento admitiu 119 pacientes. Infelizmente, quatro destes pacientes morreram. As necessidades são grandes e cada vez é menor o número de ONGs trabalhando nessa região.

O que MSF gostaria de ver acontecer?
Nós gostaríamos de chamar a atenção para a situação humanitária nessa região remota e ver mais organizações de ajuda atuando, já que as necessidades são muitas e é improvável que a situação se acalme num futuro próximo. A região de Masisi tem aproximadamente a mesma quantidade de gente e necessidades humanitárias  que a cidade de Goma. No entanto, há poucas organizações trabalhando ali. Depois da luta que foram as últimas semanas, agora MSF está sozinha. A violência está recebendo menos atenção da mídia, mas é muito crítica.

MSF apoia o Hospital Geral de Masisi desde 2007, oferecendo cuidados primários e secundários. Entre janeiro e setembro de 2012, MSF internou mais de 5,8 mil pacientes, realizou 1.320 cirurgias e tratou 462 crianças com desnutrição, além de 653 gestantes.

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