Você está aqui

Violência e COVID-19 no Sudão do Sul: “Tínhamos que nos preparar para o pior”

09/07/2020
Líder da equipe médica de MSF em Lankien, Istifanus Damulak relata episódio que matou mais de 200 pessoas em Pieri
Violência e COVID-19 no Sudão do Sul: “Tínhamos que nos preparar para o pior”

Foto: Angie Carrascal/MSF

“Minha esposa acabou de dar à luz esta manhã e segue na unidade de saúde. Todos os profissionais estão agora correndo para a mata por segurança. Eu posso ver a fumaça dos tukuls (cabanas redondas comuns na região) queimados do outro lado da pista de pouso".

Essas foram as primeiras palavras que ouvi de nosso supervisor de instalações de saúde de MSF em Pieri, cidade a 50 km de distância de Lankien, onde eu estava. Era 16 de maio, 6h da manhã - um horário incomum para nosso habitual telefonema diário. Eu sabia que, ouvindo o telefone tocar, era uma emergência.

Ele me informou que a violência explodira em Pieri. Às 7h da manhã, as notícias começaram a circular por Lankien. Pela janela do hospital, que fica em frente ao escritório da autoridade local, pude ver caminhões militares carregando centenas de jovens armados em direção à Pieri.

A segurança da equipe em Pieri era minha maior preocupação. Eu estava lá e só havia retornado para Lankien há uma semana. O que aconteceria com nossa equipe? Correr para a mata? Como? Onde? Não tínhamos um bunker (uma estrutura fortificada, parcialmente ou totalmente construída embaixo da terra, feita para resistir a ataques de guerra).

Tendo passado por situação parecida apenas dois meses antes, eu sabia que tínhamos que nos preparar para o pior. Convoquei uma reunião de emergência em nosso hospital em Lankien e atualizei toda a equipe de MSF - médica e não médica - que nosso plano de atendimento de vítimas em massa estava sendo ativado. Eu disse a eles que deveríamos permanecer no modo de emergência, preparados para entrar em ação a qualquer momento do dia, quando os feridos chegariam inevitavelmente até nós.

Mas a situação de agora era diferente da que vimos há dois meses. Agora, a pandemia de COVID-19 já estava no Sudão do Sul. Eu pensava em como garantir o distanciamento físico com a chegada de vítimas em massa. Já tínhamos casos confirmados de coronavírus em Lankien e provavelmente já havia transmissão na comunidade. O que veio à minha mente imediatamente foi pedir máscaras cirúrgicas e outros equipamentos de proteção suficientes para toda a equipe envolvida no atendimento às vítimas.

Às 21h, fui chamado para o pronto-socorro, que havia recebido alguns feridos. Fui rapidamente e quando cheguei percebi seis pessoas com vários ferimentos a bala no chão da unidade. Eu chequei do lado de fora e vi três caminhões militares lotados de pacientes feridos. Todos estavam gritando por socorro.

Em alguns minutos, o pronto-socorro estava cheio de profissionais - a maioria já havia terminado o expediente. Recebemos cerca de 20 pacientes ao mesmo tempo, todos homens com ferimentos a bala, a maior parte em estado grave. Um deles morreu na chegada e outro com ferimento no peito faleceu 20 minutos depois, durante uma transfusão de sangue. Dos 16 pacientes restantes, apenas dois receberam alta naquela noite.

Nos dias seguintes, continuamos a receber pessoas feridas. Durante quatro dias - de 16 a 20 de maio - recebemos e tratamos um total de 63 feridos no Hospital Lankien - incluindo dois integrantes da nossa equipe. Todos tinham ferimentos a bala. Dois dias após os atos violentos, alguns dos nossos profissionais, que haviam fugido da violência em Pieri, começaram a retornar e foram direto ao trabalho em nossa unidade de saúde. Eles receberam e trataram outras 19 pessoas com ferimentos a bala.

“Minha mãe é idosa e ficou com as crianças pequenas em Pieri, já que não pode correr. Fui salvá-la, mas entrei em uma emboscada. Várias pessoas foram mortas a tiros na minha frente. Eu estava tentando ajudar alguns feridos com os primeiros socorros e alguém me disse que eu estava sangrando. Eu levei dois tiros e estava sangrando demais. Desisti, achei que fosse morrer", relatou um membro da equipe de MSF.

Mesmo depois que a violência diminuiu, continuamos a receber pacientes nos dias seguintes, muitos com feridas sépticas por causa de tiros na região do abdômen. Eu me senti desamparado, já que todas as unidades de referência para cirurgias estavam fechadas. Com as preocupações de transmissão comunitária da COVID-19, foi muito difícil transferir pacientes. Vi pessoas em estado grave e não pude fazer nada para ajudar.

Mais de 200 pessoas morreram nesta última onda de violência. Estima-se que mais de 300 ficaram feridas.

Para nossa equipe, o impacto foi especialmente doloroso com a morte de um de nossos colegas. Eu estava com ele apenas uma semana antes e agora ele se foi. Foi - e ainda é - incrivelmente traumático para a equipe de Pieri. Eles são como uma família, uma comunidade e são muito comprometidos. Levará algum tempo até que a dor pela perda de um colega diminua.

Fui até Pieri cinco dias após o ataque e a cidade estava vazia, com apenas alguns homens e jovens pelas ruas. Parecia uma cidade fantasma com todas as mulheres e crianças ainda no meio da mata. Alguns de nossos profissionais se aproximaram de mim. Os relatos foram esses:

“Estou com medo, perdi todos os meus amigos na cidade. Não consigo dormir à noite. Eu me sinto melhor no trabalho, mas quando estou em casa, tenho medo”.

“Semana passada perdi meu tio, alguém atirou nele e o matou. Esta semana meu irmão mais velho foi morto. Agora estou sozinho, não há ninguém para me ajudar”.

“Meu tukul foi queimado, eu perdi tudo. Eu só escapei com essas roupas. Agora não há mercado para comprar nada, já que todos os comerciantes foram mortos defendendo suas lojas”.

“Eu cresci no Quênia, acabei de voltar por causa desse trabalho. Eu nunca vi algo assim na minha vida. Eu corri por seis horas na mata. Perdi meus sapatos, minhas pernas estão inchadas e doloridas até agora. Quero ir embora”.

É difícil lidar com situações como essa. Não consigo esquecer o momento em que estava amarrando oito pacientes com os cintos de segurança em um avião minúsculo, todos com ferimentos graves de bala no abdômen. Eu sabia muito bem que eles precisavam estar em macas, mas as macas ocupavam mais espaço, o que limitava as chances de transporte para outras pessoas, sem garantias de que pudesse existir outro voo. Mas também lembro o momento em que recebemos os pacientes que tiveram alta e puderam voltar recuperados para Lankien.

Ondas de confrontos no estado de Jonglei e na área administrativa de Grande Pibor, no leste do Sudão do Sul, também continuam tendo um impacto devastador na vida das pessoas. Milhares tiveram que fugir para o mato, a partir de 15 de junho, por causa de intensos combates que duraram dias e ameaçam novamente a vida de comunidades inteiras. O novo e brutal aumento da violência levou MSF a suspender nossas atividades médicas em Pibor, depois que a maioria de nossa equipe buscou segurança em áreas remotas da mata.

Faça uma doação e apoie #MSFcontraCOVID19

Leia mais sobre

MSF usa cookies neste site para melhorar sua experiência.
Saiba mais na

Política de Privacidade. Aceitar