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Violência continua a afligir população de Darfur

25/06/2007
Cerca de dois milhões de deslocados internos vivem em acampamentos totalmente dependentes de ajuda humanitária. MSF está presente em três partes da região

A violência em Darfur continua com confrontos esporádicos, ataques a vilarejos e contra civis. Cerca de dois milhões de deslocados internos vivem em acampamentos e assentamentos lotados, totalmente dependentes da ajuda humanitária para sobreviver.

Nas áreas rurais, centenas de milhares de pessoas estão isoladas pelo conflito e tem pouco ou nenhum acesso à assistência humanitária.

Um ano após a assinatura do acordo de paz em Darfur, em maio de 2006, várias facções armadas – rebeldes e pró-governamentais – se dividiram e agora brigam entre si. Durante esse período de crescente insegurança, Médicos Sem Fronteiras (MSF) teve que reduzir parte de seu trabalho temporariamente e suspender o funcionamento de suas clínicas devido aos ataques aos comboios ou perigo nas estradas. Algumas equipes tiveram de ser retiradas da região.

Os deslocados internos que procuram refúgio nos enormes assentamentos e acampamentos em Darfur recebem alimentos, água, abrigos e assistência de saúde básica, mas tudo isso somente devido à presença maciça das Nações Unidas e de organizações não-governamentais. Para os que vivem nas áreas rurais, a situação é ainda mais difícil. A proliferação de grupos guerrilheiros representa um obstáculo a mais para o acesso aos grupos isolados pelo conflito.

MSF oferece ajuda humanitária e assistência médica a todos os grupos vítimas de violência: moradores, deslocados internos e nômades. Com 2,2 mil funcionários trabalhando em toda a região, Darfur é o maior projeto de MSF no momento. Em suas unidades de saúde, MSF cuida de centena de milhares de deslocados internos, entre os quais diarréia e infecções respiratórias (principalmente entre crianças com menos de cinco anos) são os principais problemas observados pela equipe médica.

Organizações humanitárias, como MSF, oferecem assistência em Darfur, sempre mantendo os rígidos princípios de imparcialidade, neutralidade e independência.

Se os grupos humanitários forem obrigados a ter sua segurança garantida por forças militares, como foi proposto recentemente, os trabalhadores humanitários correm o risco de serem associados com uma das partes em guerra e, conseqüentemente, se tornariam um alvo em potencial. Dessa forma, seria ainda mais difícil ter acesso aos que precisam desesperadamente de ajuda fora dos principais acampamentos e assentamentos.

Oeste de Darfur

Em Geneina, a capital da província de Oeste Darfur, MSF dá apoio ao departamento de emergência e cirurgia do Hospital Geral, através do fornecimento de medicamentos, materiais médicos e apoio técnico, como ajuda na administração da farmácia.

Acesso a cuidados médicos e apoio emergencial é um problema constante para as populações em áreas de conflito. Confrontos no norte de El Geneina fizeram com que milhares de pessoas deixassem suas casas em dezembro de 2005, 5 mil dos quais escolheram se abrigar nos acampamentos de Aradamata e Dorti.

No acampamento de Aradamata, nos limites da cidade, MSF implementou uma clínica médica móvel para registrar novas chegadas e mais de 500 pessoas foram atendidas em menos de uma semana. As pessoas continuam a chegar em pequenos grupos, a maioria durante à noite devido ao perigo de ataques nas estradas. Há também muitos registros de atos de violência cometidos contra moradores.

Em Habilah, um acampamento próximo à fronteira com o Chade, no qual mora 7 mil residentes e que abriga mais de 22 mil deslocados internos, MSF administra uma clínica, com 30 leitos na área de internação. A unidade oferece tratamento para crianças com desnutrição, tratamento pré-natal e acompanhamento nos partos.

Em média, 35 partos são realizados a cada mês no centro de saúde. Educadores de saúde prestam assistência fora da clínica aconselhando e orientando os pacientes. Em 2006, 25 mil consultas foram realizadas e 750 pacientes foram hospitalizados.

Clínicas móveis, que oferecem assistência de saúde para populações nômades, tiveram suas atividades suspensas devido ao aumento da insegurança. Nesse contexto particularmente difícil, MSF está tentando alcançar as populações que estão no norte de El Geneina, que recebem pouca, ou nenhuma assistência.

Uma missão exploratória realizada recentemente em Tanjeke, 30km ao norte de El Geneina, onde havia registro de famílias abandonadas devido à insegurança. Um incidente na viagem de volta confirmou que as estradas não são suficientemente seguras para serem usadas regularmente. Por isso, no momento, MSF não tem como oferecer mais assistência à população.

Em Seleia, no norte de Oeste de Darfur, os conflitos continuam. Uma equipe de quatro pessoas está implementando uma unidade cirúrgica para tratar os feridos e oferecer assistência obstétrica emergencial. Eles também estão tentando dar apoio ao centro de saúde. Uma clínica móvel será posta em funcionamento.

Em Um Dukhun, perto da fronteira com o Chade e a República Centro-Africana, MSF tem oferecido assistência de saúde primária e secundária desde janeiro de 2004. A presença da organização trouxe um pouco de estabilidade, melhorou os indicadores de saúde, ofereceu assistência cirúrgica e abriu acesso para que outras agências humanitárias pudessem intervir na região. Os serviços prestados por MSF foram entregues à Corporação Médica Internacional e ao Ministério da Saúde do Sudão em maio deste ano.

A situação sanitária e nutricional nos acampamentos de Mornay, Zalingei e Niertitiem, Oeste Darfur, onde MSF trabalha desde o fim de 2003, também se estabilizou e os índices de mortalidade há tempos estão abaixo do chamado limiar de emergência.

Em 2003-2004, MSF era a única organização trabalhando em Mornay, um acampamento que abrigava 75 mil deslocados internos. Uma vez que outros atores médicos estão presentes atualmente na região, MSF gradualmente deu fim às consultas e internações em meados de junho. MSF tem condições de repassar o projeto porque o governo e outras organizações estão assumindo a responsabilidade de atender as necessidades de saúde e a distribuição de alimentos e água potável.

MSF continua a oferecer seus serviços (consultas e internações) em Niertiti, região aos pés de Jebel Mara, onde vivem cerca de três mil moradores e 30 mil deslocados internos. As equipes de MSF também estão presentes em Kutrum, em Jebel Mara. O centro de saúde que MSF implementou em Kutrum é a única unidade médica funcionando na zona rebelde, atendendo toda a parte oeste de Jebel Mara. Em meados de junho, as equipes tiveram de deixar Kutrum. Eles voltarão assim que a segurança melhore no local.

Em Zalingei, onde vivem 90 mil deslocados internos, a equipe de MSF oferece cuidados secundários em todos os departamentos do hospital. Atualmente, o hospital funciona bem, os médicos do Ministério da Saúde estão lá e o apoio de MSF parece menos essencial. Nos próximos meses, MSF vai reduzir gradualmente suas atividades e vai focar seu trabalho em três departamentos do hospital: emergência, pediatria e cirurgia.

Norte de Darfur

Na cidade de Kebkabiya, a cerca de 150 quilômetros a oeste da capital da provincial de El Fasher, MSF administra três enfermarias e dá apoio ao hospital do Ministério da Saúde para a manutenção clínica dos casos de referência. O programa atende uma população de cerca de 75 mil pessoas, a maioria deslocados internos, pessoas que procuraram refúgio na cidade no começo do conflito em 2003.

Apoio móvel de Kebkabiya para a cidade de Kaguro (na região rebelde de Jebel Si), que havia sido suspensa em agosto de 2006 devido a problemas de segurança, foi retomada em fevereiro. O projeto tem como meta levar atendimento médico a cerca de 37 mil pessoas, que não têm acesso a assistência médica desde 2003, quando toda a área foi atacada e a maioria dos vilarejos foi queimado. Muitas pessoas foram mortas e grande parte da população fugiu para as montanhas próximas a Kaguro.

Infelizmente, um novo incidente de segurança fez com que as equipes tivessem de suspender novamente suas atividades e o fornecimento de assistência fora de Kebkabiya, incluindo as clínicas móveis que haviam sido lançadas recentemente para ajudar os muitos nômades árabes, em geral negligenciados e marginalizados, nas partes sul e leste do distrito de Kebkabiya.

Uma equipe sudanesa continua a dar apoio às enfermarias em Kaguro. Uma equipe internacional deve em breve voltar a trabalhar no aperfeiçoamento do funcionamento da enfermaria e para estabelecer o atendimento de outros vilarejos locais. MSF restabelecerá o serviço das clínicas móveis nas áreas em volta de Kebkabiya e planeja abranger mais locais.

Sérios incidentes de segurança forçaram MSF a retirar suas equipes internacionais de Serif Umra, em julho de 2006. A equipe sudanesa continua a trabalhar a enfermaria de MSF, a única unidade médica a atender uma população de 55 mil pessoas, muitas delas deslocadas internas. Em março de 2007, uma equipe internacional em El Fasher conseguiu retomar a supervisão médica semanal.

Um total de quatro mil consultas são realizadas a cada mês na enfermaria. Os pacientes que precisam de cuidados secundários são transferidos para o hospital em Zalingei. Em breve, MSF vai trazer de volta uma equipe internacional para melhorar o atendimento.

Em Shangil Tobaya, MSF é o único ator humanitário que oferece cuidados de saúde para os 28 mil deslocados internos vivendo nos acampamentos em Shangil e Shadat, assim como no vilarejo de Shangil Tobaya.

Após vários incidentes em dezembro e janeiro, a equipe retirou-se para El Fasher e MSF teve de operar por vários meses entrando e saindo do vilarejo. Durante esse período, os serviços da clínica foram realizados pela equipe sudanesa, com a equipe internacional realizando uma ou duas vezes por semana as consultas.

Depois que as negociações com todas as partes do conflito foram realizadas, todas as atividades – incluindo os serviços 24 horas – puderam ser retomadas no começo de abril. O departamento de consultas realiza hoje 200 atendimentos por dia e o de internações, que teve de ser suspenso durante a evacuação, está funcionando novamente.

Em junho de 2006, MSF começou a trabalhar nas clínicas em Killin, e um mês depois em Gorni, para ajudar os deslocados internos. No entanto, o projeto foi esvaziado por questões de segurança no fim de julho e desde a clínica, localizada ao norte de Jebel Mara, tem sido administrada apenas pela equipe sudanesa.

Sul de Darfur

Com uma população superior a 90 mil pessoas, Kalma é um dos maiores acampamentos para deslocados internos em Darfur. MSF trabalha no acampamento, tendo como foco o atendimento a mães e filhos e a administração do centro de saúde feminino, que realiza cerca de 200 consultas por dia. O centro oferece acompanhamento pós e pré-natal; assim como acompanhamento do parto para gestações de alto risco e transferência de emergências obstétricas. Planejamento familiar também é oferecido.

MSF é uma das três agências humanitárias que oferecem tratamento completo para sobreviventes de violência sexual. Um programa de saúde mental trata o estresse psicológico profundo e traumas enfrentados pela população devido às condições de vida precárias, assim como traumas relacionados ao conflito passado. A assistência psicológica é feita através de centenas de sessões de aconselhamento privado por mês, workshops e grupos de apoio. O projeto é complementado por ações comunitárias. A equipe de Kalma também está respondendo a necessidades de emergência para recém-chegados e pessoas cujos abrigos foram destruídos por incêndios, oferecendo lonas plásticas, cobertores e jarras de água.

MSF está presente em Shariya, um enclave do governo onde originalmente viviam 27 mil pessoas, desde junho de 2004. As necessidades iniciais eram médicas e nutricionais, mas depois de uma série de ataques MSF aumentou suas atividades para dar apoio aos deslocados internos e, quando possível, dar início ao envio de clínicas móveis aos vilarejos vizinhos. Uma vez que as necessidades médicas da população se estabilizaram consideravelmente, MSF decidiu fechar seu projeto em abril de 2007.

Muhajariya é uma grande cidade no sul de Darfur, que é controlada por uma das facções rebeldes. Cerca de 32 mil pessoas vivem atualmente na cidade, incluindo alguns deslocados das regiões mais próximas. Em outubro de 2006, os confrontos resultaram em um novo deslocamento de cerca de 50 mil pessoas. Desde então, a violência diminuiu e alguns dos deslocados internos estão voltando para casa, apesar da situação ser ainda frágil.

MSF oferece atendimento cirúrgico e administra consultas e internações e um laboratório, além de oferecer serviços de assistência reprodutiva com acompanhamento pré e pós-natal e planejamento familiar. O tratamento para sobreviventes de violência sexual também existe. Uma vez que a situação nutricional ainda é frágil, suplementos terapêuticos e alimentares continuam a fazer parte dos programas básicos de saúde.

As equipes de MSF também fornecem água para os deslocados internos assentados nas proximidades de Muhajariya. Programas comunitários e clínicas móveis também tiveram suas atividades suspensas devido à insegurança nas estradas, mas serão retomadas assim que a situação permitir.

Em novembro de 2006, 14 mil deslocados internos de Muhajariya e das regiões ao redor procuraram refúgio em Sileah. Devido à falta de comida e água, diarréia e desnutrição são causas de morte comum na região. MSF realiza entre 1.300 a 1.500 consultas por mês; monitora a desnutrição e administra um programa alimentar. Em abril, esse programa foi estendido para a cidade de Yassin, apesar do limitado acesso por conta da insegurança. MSF também dá apoio aos esforços para oferecer água e saneamento aos deslocados na cidade.

Para a população e milhares de deslocados interno em Feina e nas proximidades, acesso a cuidados básicos de saúde foram restringidos devido à violência. Atualmente, MSF atende cerca de 130 pacientes por dia. Um serviço pré-natal e o programa alimentar feito em casa serão acrescentados. MSF tem por objetivo abrir mais clínicas na área, alguns locais são tão remotos que só é possível se chegar em burros.

As equipes de MSF realizaram missões exploratórias em outras áreas do Sul de Darfur, especialmente no acampamento de Kass, entre Zalingei e Nyala. Neste acampamento, onde vivem 75 mil pessoas, os deslocados internos ficam amontoados dentro da cidade em escolas, campos e prédios públicos. A cidade está superlotada e as famílias em particular tem péssimas condições de vida.

Além disso, 25 mil pessoas fugidas de conflitos tribais chegaram no local desde janeiro. Kass está localizada em uma área com grande índices de insegurança e a chegada dessas pessoas agravou consideravelmente suas condições de vida. As poucas organizações medicas presentes no local estão sobrecarregadas. MSF planeja começar a trabalhar nesse novo acampamento para atender às necessidades da frágil população e de novas emergências.

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